Morro do Pilar, no interior mineiro, sofre com envenenamento de cães e gatos
Cidade vive inúmeros casos há alguns meses, sem grandes perspectivas de mudança
Em fevereiro, uma reportagem da DeFato detalhou uma sequência de envenenamentos contra cães no pequeno município mineiro de Morro do Pilar, com pouco mais de 3000 habitantes. Hoje com poucas políticas públicas voltadas à pauta animal, a cidade segue vivendo a triste rotina e os casos de violência contra os bichos não cessam.
Um deles, por exemplo, envolve a Puma cadelinha em situação de rua cuidada por protetores e comunidade na praça principal de Morro do Pilar, localizada a cerca de 150 quilômetros de Belo Horizonte.
“A Puma foi abandonada nas ruas de Morro do Pilar a mais ou menos uns 25 dias. Foi encontrada com uma bicheira enorme em uma das orelhas, que estava quase caindo devido à uma paulada, provavelmente. Cuidamos dela, demos medicamento e tivemos muita ajuda! Como as pessoas estavam com muito nojo da orelha dela e do mal cheiro, ela foi muito maltratada, se tornando, assim, uma cadela triste e cabisbaixa, com muito medo do ser humano. Quando sua orelha estava quase curada, Puma passou a não querer comer e andar cambaleando”, conta Renata Diniz, uma das protetoras da cadela.
Segundo a cuidadora, havia a desconfiança de que Puma estivesse entre as vítimas de um surto de cinomose ocorrido na cidade. Porém, o resultado dos exames indicou o contrário.
“Como estamos num surto de cinomose aqui, eu achei que fosse esse o diagnóstico. Até que ela teve convulsões e quase morreu. Mandamos ela para o veterinário da cidade vizinha, que também foi muito solidário e fez um teste de Cinomose que deu negativo. Bingo: provável envenenamento! Eu achei que o veterinário até faria eutanásia, de tão grave o quadro! Mas ele viu que ela tinha chance de vida! Passou os medicamentos, fizemos a vaquinha, e eu comecei a medicar ela na varanda da minha casa”, completa Renata, que ainda lamenta o sumiço da “Madame”, outra cadelinha em situação de rua que também vivia na praça. Madame foi uma das envenenadas, desaparecendo sem receber socorro.

Cães não são os únicos alvos
Gatos, como a “Mãezinha”, também estão sendo vítimas de envenenamento. A felina deixou seus filhotinhos órfãos após entrar para a estatística, segundo os ativistas Pedro Henrique e Bárbara Maia. A dupla alerta, ainda, que não são apenas os animais em situação de rua que estão em perigo. Há relatos de animais tutelados que foram intoxicados dentro de suas casas. E, infelizmente, apenas um deles conseguiu ser salvo pelo tutor.
Como os sintomas estavam sendo confundidos com os efeitos da cinomose, os boletins de ocorrência não foram lavrados. Do contrário, seria possível encontrar o suspeito dos envenenamentos e autuá-lo no crime de maus-tratos, como explica a advogada animalista Gabriela Maia.
“Os animais são protegidos pelo ordenamento jurídico brasileiro, que os reconhece como seres sencientes e os protege contra crueldade. Além disso, os crimes de maus-tratos, quando praticados contra um cão ou um gato, têm previsão no artigo 32-A da Lei de Crimes Ambientais (nº 9.605/98), com pena de 2 a 5 anos de reclusão e multa.”
Ativistas que estão atuando nos casos, como Pedro e Bárbara, afirmam estar trabalhando praticamente sozinhos para socorrer estes animais. Coube a eles, por exemplo, cobrir um caso emblemático ocorrido em junho de 2022, envolvendo a cachorrinha Vitória. A cadela foi atropelada e jogada num latão de lixo, sobrevivendo apenas por conta da ação dos ativistas, que realizaram uma vaquinha para que ela fosse tratada em uma clínica de Belo Horizonte.

Falta de políticas públicas
Não bastassem os inúmeros ataques aos animais, Morro do Pilar sofre com a ausência de políticas públicas para combater o tema. A clínica veterinária mais próxima do município fica em Conceição do Mato Dentro, a 29 km e aproximadamente 44 minutos de carro. Um entrave para animais que necessitam de socorro imediato.
“Estão tentando fazer credenciamento com um veterinário de Conceição. Mas, de qualquer forma, não temos transporte para levar os animais. Ou seja, ainda não deu certo”, lamenta a protetora e jornalista Barbara Maia.
Pedro Henrique concorda com a protetora, enfatizando que a Prefeitura promete o credenciamento há algum tempo, mas sem resultados práticos. Na visão do protetor, não viabilizar um veículo para transporte ou criar um abrigo local sem prestar a devida assistência seria em vão.
No dia 4 de maio, o Ministério Público de Minas Gerais, por meio de sua Coordenadoria Estadual de Defesa dos Animais (CEDA), promoveu uma ação voltada ao fortalecimento do direito animal. Morro do Pilar, entretanto, convive com sua própria realidade, cada vez mais preocupante.




