Na ONU, Lula defende soberania do Brasil, critica sanções e pede regulação das big techs
Em discurso de abertura da Assembleia-Geral, presidente brasileiro atacou medidas unilaterais dos EUA, reafirmou compromisso com a democracia e cobrou regras para plataformas digitais
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu nesta terça-feira (23) a Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) com um discurso contundente em defesa da soberania brasileira, críticas às sanções impostas pelos Estados Unidos e um apelo pela regulação das grandes empresas de tecnologia. O chefe de Estado brasileiro também denunciou o avanço do autoritarismo e reafirmou que “nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis”.
Lula classificou como “inaceitável” a ingerência estrangeira sobre instituições nacionais e criticou medidas unilaterais aplicadas por Washington contra o Brasil e membros do Supremo Tribunal Federal (STF). “O multilateralismo está diante de nova encruzilhada. A autoridade desta organização está em xeque. Assistimos à consolidação de uma desordem internacional marcada por seguidas concessões à política do poder, atentados à soberania, sanções arbitrárias. E intervenções unilaterais estão se tornando regra”, afirmou.
Ao mencionar a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado, Lula destacou que o Brasil deu um recado ao mundo: “Diante dos olhos do mundo, o Brasil deu um recado a todos os candidatos autocratas e àqueles que os apoiam. Nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis. Seguiremos como nação independente e como povo livre de qualquer tipo de tutela”.
O presidente também alertou para os riscos da desinformação e do uso abusivo das redes sociais. Para ele, a regulação das big techs é essencial para proteger a sociedade e garantir direitos básicos. “A internet não pode ser uma terra sem lei. Regular não é restringir a liberdade de expressão. É garantir que o que já é ilegal no mundo real seja tratado assim no ambiente virtual”, declarou, defendendo ainda regras multilaterais para mitigar riscos da inteligência artificial e incentivar mercados digitais mais competitivos.
Lula aproveitou a tribuna para condenar o extremismo político e a desigualdade social, que, segundo ele, ameaçam tanto a estabilidade democrática quanto a paz global. “A democracia falha quando as mulheres ganham menos que os homens ou morrem pelas mãos de parceiros e familiares. Ela perde quando fecha suas portas e culpa migrantes pelas mazelas do mundo”, disse, ao reforçar o compromisso brasileiro com o combate à fome e à pobreza.
Ao abordar a América Latina, o presidente rejeitou a equiparação entre criminalidade e terrorismo e defendeu a manutenção da região como “zona de paz”. Ele pediu cooperação internacional para combater o tráfico de armas e lavagem de dinheiro, reafirmou o direito de Cuba a não ser classificada como patrocinadora do terrorismo e defendeu o diálogo como caminho para a crise na Venezuela.
O discurso de Lula ocorre em meio a um momento de tensão com o governo Donald Trump, que recentemente ampliou sanções econômicas e restrições a autoridades brasileiras. Ao ocupar a tradicional posição de primeiro orador, Lula reforçou o papel histórico do Brasil na defesa da paz e da democracia, mas sinalizou que o país não aceitará pressões externas que ameacem sua soberania.




