Reportagem publicada na edição 260 da Revista DeFato
Agosto é o mês com a maior média de queimadas e focos de incêndios em todo o período do ano, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). A falta de chuvas, vento forte, baixa umidade do ar e, consequentemente, vegetação seca, formam uma “bomba” prestes a explodir com qualquer faísca.
Segundo o INPE, apenas em 2014 já foram registrados 2091 focos ativos de incêndios em Minas Gerais. O mês de julho teve 559 focos e o de agosto já registrava 404 pontos descobertos por satélites. Os dados são referentes até o dia 11 deste mês.
Na tentativa de minimizar o dano causado pelo fogo, a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater) trabalha com orientações à comunidade rural. Com foco no desenvolvimento econômico, social e ambiental, a Emater baseia-se no desenvolvimento sustentável para melhorar todos os aspectos de forma igual, sem desestabilizar nada.
O trabalho tem gerado resultados. Antes muito usada para abrir áreas, a queimada está cada vez mais em desuso na agricultura. O engenheiro agrônomo da Emater, Mauro Lúcio Ferreira, conta que com o passar do tempo, os agricultores perceberam que a prática causa mais prejuízos que benefícios. “Atualmente é permito apenas queimadas controladas, com aceiros (desbaste para impedir propagação de incêndio), e para isso é preciso autorização do Instituto Estadual de Florestas (IEF)”, explicou.
Com a evolução da tecnologia e o advento das máquinas, os agricultores passaram a usar os novos equipamentos para diminuir o mato. “É bem melhor, pois a grama fica cortada no terreno, vira material orgânico e depois acaba virando composto orgânico, que é bom para o solo”, contou o engenheiro.
O engenheiro ainda afirma que a única vantagem de fazer queimadas é a rapidez com que a vegetação é eliminada. No entanto, os problemas maiores ocorrem em longo prazo. O primeiro prejuízo é percebido logo de início. Com a retirada da cobertura vegetal, o solo fica exposto às intempéries, sofrendo com variações de temperatura, além de estar sujeito à erosão, ação do vento e compactação. “A camada superficial é um protetor. Sem ela, a microfauna do solo vai ter um dano enorme. Bactérias e fungos que fazem a decomposição de material orgânico são completamente dizimados pelo fogo”, alerta Mauro. “O sistema é completamente bagunçado e vai levar tempo para que se reorganize”, completa.
Além disso, nutrientes presentes no solo, como o nitrogênio e o enxofre, importantes elementos para o desenvolvimento das plantas, são volatilizados. “Depois de volatilizados, eles se transformam em compostos na atmosfera e podem voltar em forma de chuva ácida. O enxofre como ácido sulfúrico e o nitrogênio em forma de ácido nitroso”, revela Mauro. Com isso, o solo pode ficar ácido e dificultar o desenvolvimento das raízes.
Já em longo prazo, com queimadas sequenciais, pode haver compactação superficial do solo. Algumas partículas podem se expandir, principalmente argilas, formando uma espécie de capa no terreno. “Quando caem as primeiras chuvas, a água não consegue penetrar no solo”, diz o engenheiro da Emater.
As queimadas também representam problemas para a pecuária. Com o solo danificado e as plantas com poucos nutrientes, o gado também absorve menos minerais. “É uma cadeia. No fim o gado não produzirá todo seu potencial. É no balde que você vai ver a diferença, ou então no desempenho de ganho de peso”, enfatiza Mauro. Por fim, o engenheiro aponta que é necessária uma conscientização maior das pessoas quanto ao problema. “Precisamos insistir na educação, trabalhando com crianças, moradores rurais, e, além disso, ter uma punição adequada para quem comete crimes ambientais”.
Mauro define que o maior número de queimadas acontece por más intenções, simplesmente por fazer ou por ter interesse em uma área. “Ele quer abrir área, e como é proibido fazer corte raso em floretas, coloca fogo, abre aquela clareira e planta a pastagem para criar gado”, exemplifica.
Bombeiros
O 4º Pelotão do Corpo de Bombeiros, em Itabira, atende 18 municípios da região e tem um efetivo de 26 combatentes. Naturalmente, pela proximidade, o maior número de chamadas vem da cidade sede e dos distritos de Ipoema e Senhora do Carmo. O tenente Washington, comandante do Pelotão, conta que excepcionalmente este ano não houve tantas chamadas para combater incêndios. “As chuvas foram esparsas e isso ajuda a manter a vegetação mais verde e úmida”, explicou.
Mesmo assim o alerta é contínuo, afinal a incidência de queimadas aumenta nessa época do ano. O comandante não recomenda o uso do fogo em hipótese alguma. Para ele o risco é grande e, mesmo com cuidados, a queimada pode se descontrolar, por causa dos ventos fortes e inesperados, por exemplo. “O homem controla o fogo entre aspas. Uma vez fora do controle, pode incidir sobre uma residência, na zona urbana, ou afetar a fauna e flora, em zonas rurais, com maior probabilidade de se alastrar”, aponta.
Além dos problemas já citados pelo representante da Emater, o tenente lembra que as queimadas, principalmente em centros urbanos, podem afetar a saúde das pessoas. “Nessa época o ar já é seco, então com a poluição pode agravar os problema respiratórios”, destaca o comandante.
Caso não haja alternativa a não ser o fogo, o tenente relata que é preciso procurar o IEF para conseguir a licença e se atentar aos cuidados a serem tomados. “É importante se preocupar com os aceiros, com o horário da queimada, fazendo preferencialmente pela manhã ou até de madrugada, com o tempo mais frio e úmido. Mas sempre com atenção e com várias pessoas controlando o fogo em seu arredor”, finaliza.
Mauro Lúcio Ferreira, engenheiro da Emater (Foto: Renato Carvalho)