Novo empréstimo vira armadilha para aposentados
Há uma bomba-relógio armada dentro do bolso de milhões de aposentados e pensionistas brasileiros. Sem preparo para compreender os efeitos negativos da matemática dos encargos dos juros em seu contracheque, e sem condições intelectuais e psicológicas para gerenciar os empréstimos que tomam junto aos bancos, cerca de 28 milhões de segurados do INSS estão sendo […]
Esse limite vem sendo sistematicamente ultrapassado com empréstimos feitos em bancos de varejo, financeiras e agiotas a juros de até entre 12% e 14% ao mês. A taxa máxima do consignado é de 2,5% para empréstimos e de 3,5% para o uso de cartões de crédito. Além disso, o bombardeio estimula a ocorrência de empréstimos consignados fraudulentos, feitos sem a autorização do beneficiário da Previdência. Em grande parte dos casos, a situação já é de superendividamento.
O aposentado Alair Alves de Souza foi vítima dessa ciranda e chegou a ter seis empréstimos em bancos diferentes, fora o consignado e o cartão de crédito. Seu benefício de R$ 510 ao mês chegou a ser reduzido para R$ 210 por causa de empréstimos com pagamento em débito em conta. O mínimo permitido pelo INSS seria de R$ 370, já que o benefício recebido pelo assistido é alimentar. “Os juros são altíssimos. Não concordei com eles e por isso tive que entrar em juízo. Muitos aposentados têm cabeça fraca. Fazem esses empréstimos e depois não recebem quase nada. Ficam sem dinheiro para comprar remédios e até comida.” Souza ganhou a causa na Justiça e os bancos que emprestaram dinheiro fora da margem foram proibidos de debitar a dívida na conta-corrente dele.
Murilo Fernandes de Almeida, juiz titular da 31ª vara federal e coordenador do Juizado Especial Federal em Minas, foi o autor da sentença. “O segurado tem uma conta-corrente num banco e tira o consignado lá. Esse empréstimo é descontado na folha de pagamentos do INSS. Mas acontece que ele pega dinheiro em outro banco e dá a essa instituição uma autorização para debitar as parcelas na sua conta-corrente. É uma forma de burlar o limite de 30% estipulado por lei “, explica Almeida. Nos cálculos do advogado Lásaro da Cunha, especializado em previdência, o benefício médio recebido pelos aposentados no Brasil é de R$ 800. “Mantida a oferta de empréstimos, a situação vai explodir, uma vez que os segurados usam o crédito para si e para sua família”.
Levantamento realizado pela Rioprevidência, entidade responsável pelo pagamento dos benefícios de 220 mil funcionários públicos estaduais aposentados e pensionistas do Rio de Janeiro, mostra que a existem, em média, quatro ou cinco empréstimos per capita em sua base. A maior parte com prazo de 60 meses. “Além de tomarem muitos crédito, a dívida é alongada ao máximo possível. Os empréstimos já fazem parte da renda do aposentado. Já tivemos um segurado que tinha 13 operações ao mesmo tempo. Outro, tinha um benefício de R$ 1,2 mil que subiu para R$ 2 mil e chegou a receber só R$ 20 no mês”, diz o presidente da instituição, Wilson Rizolia.
A compulsão pela alavancagem é a mesma entre ricos e pobres, o que indica que, ao decidir tomar um crédito, o beneficiário do INSS está tomando uma decisão por impulso e não necessariamente obedecendo a uma necessidade real. E é exatamente aí que a bomba do superendividamento ameaça explodir. “Todo o sistema está voltado para a concessão de crédito. A rotatividade do crédito é colocada numa posição privilegiada em detrimento do tomador”, diz Vinícius Monteiro de Barros, defensor-chefe da Defensoria Pública da União em Minas.
Por agirem por impulso não faltam reclamações. A pensionista Zenilda Pereira dos Santos já contraiu dois empréstimos consignados, que somados chegam a R$ 3 mil. Mensalmente, tem descontado em seu contracheque R$ 344, o que corresponde a 29,3%. “Faz o empréstimo achando que vai ser pouco, mas o desconto é muito e, no fim, o dinheiro não dá”, lamenta Zenilda.