Paixão pelas duas rodas
Na contramão dos que gostam de andar sempre motorizados, Nino, como é conhecido, não faz questão de ter um carro na garagem

Reportagem veiculada na edição 266 da Revista DeFato
A rotina das pessoas tem sido a cada dia mais frenética nas cidades. A quantidade de veículos nas ruas tem crescido de maneira assustadora e utilizar diariamente um automóvel tem deixado de ser um ponto facilitador para se tornar um teste de paciência. O técnico do Laboratório de Música do campus itabirano da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), Antonino Coutinho, sabe bem disso e resolveu aliar a praticidade em deslocar a uma velha paixão: as bicicletas.
Na contramão dos que gostam de andar sempre motorizados, Nino, como é conhecido, não faz questão de ter um carro na garagem. Sua paixão é mesmo pelas duas rodas. Ele é dono de quatro bikes e apenas uma é comum. As outras três são um tanto quanto exóticas. A que mais chama atenção pelas ruas de Itabira é a reclinada, feita sob medida a base de bambus. O veículo tem uma maneira toda particular para locomoção. Nino fica deitado e pedala onde normalmente ficaria o guidão da bicicleta. A direção é estendida e fica bem perto do peito de quem guia.
Mesmo com a topografia íngreme da cidade, onde mora desde 2010, o técnico de Itajubá não larga sua “magrela” nem quando vai fazer compras. “Vou para o supermercado com as minhas bolsas de bicicleta e saio com elas cheias. De bicicleta é muito mais prático”, diz.
Curiosamente, Nino conta que seu amor pelas bikes surgiu assim que veio morar em Itabira, pois começou a usá-la com frequência no dia a dia, no percurso para o trabalho. Como adepto desse veículo, o itajubense conta que gosta de incrementá-lo, trocando peças, pneus e está sempre atento às novidades e acompanhando as tendências. E esse “vício”, como ele mesmo descreve, é comum a todos os seus vários amigos bikers. “Todos são viciados, ficam vidrados e estão de olho em uma nova bike. Em Itabira é meio assim, o pessoal gosta muito de bicicletas”, comenta.
Nino confidencia que não tem a menor pretensão de comprar carro, ainda que futuramente possa “morder a língua”. Ele enumera os pontos que o fazem a cada dia mais optar pela bicicleta: a saúde, a rapidez, menor espaço ocupado e o menor gasto.
Viajando na “magrela”
Desde que começou a percorrer as ruas da cidade sobre duas rodas, Nino nutre outra paixão: as viagens. Em grande parte delas, a bordo de sua bike reclinada. Com ela, o técnico já ficou 11 dias na estrada. Ele saiu de São Lourenço, no sul de Minas Gerais, desceu pela estrada dos tropeiros até Angra dos Reis, passou em Ilha Grande, chegando até Parati, no Rio de Janeiro. No total, o itajubense acredita que tenha feito uns 700 quilômetros.
Nessas viagens, ele se planeja para ter tempo para as adversidades que podem ocorrer e, principalmente, para curtir a liberdade proporcionada pelos passeios. O itajubense prefere pegar a estrada sozinho, apenas com seu inseparável veículo. “Geralmente vou sozinho. O pessoal estranha muito. As pessoas estranham a bicicleta, mas se surpreendem mais com o fato de estar sozinho”, comenta.
Sobre duas rodas, Nino gosta de ver detalhes que se estivesse de carro ou outro veículo não conseguiria captar. Por isso, ele aprecia tirar muitas fotos para registrar as viagens. Mesmo sendo alvo de olhares curiosos, para o técnico, tudo vale a pena, uma vez que a cada percurso ele tem a sensação de dever cumprido e de responsabilidade por si próprio.
Ao descrever sua relação com as bikes, ele diz que é de dependência. Tanto que para muita gente, sua imagem está automaticamente vinculada ao seu veículo de transporte. “Critico carro sobre a questão da dependência, mas às vezes eu mesmo me policio para fazer mais coisas a pé. As pessoas estranham quando me encontram a pé. Brinco e digo: ‘Calma, eu também consigo andar’”, finaliza, aos risos.