Paróquia Nossa Senhora do Rosário celebra 200 anos com missa solene marcada por fé e memória histórica em Itabira

Durante a homilia, Dom Airton José dos Santos destacou a importância de uma fé autêntica, vivida no cotidiano, mesmo diante dos desafios

Paróquia Nossa Senhora do Rosário celebra 200 anos com missa solene marcada por fé e memória histórica em Itabira
Foto: Guilherme Guerra/DeFato
O conteúdo continua após o anúncio


A comunidade católica de Itabira viveu um momento histórico e de profunda espiritualidade neste domingo (12), com a celebração dos 200 anos de criação canônica da Paróquia Nossa Senhora do Rosário. A missa solene, realizada na Catedral, foi presidida por Dom Airton José dos Santos e reuniu fiéis, autoridades religiosas e representantes da comunidade. Fundada oficialmente em 6 de abril de 1826, a paróquia é considerada o berço da presença religiosa organizada no município. Dois séculos depois, segue como referência espiritual, cultural e histórica para gerações de itabiranos.

A missa ocorreu no Domingo da Divina Misericórdia, data instituída por São João Paulo II, e trouxe reflexões sobre fé, esperança e testemunho cristão. Durante a homilia, Dom Airton destacou a importância de uma fé autêntica, vivida no cotidiano, mesmo diante dos desafios. “O que nos impede de dar um testemunho público da nossa fé? Precisamos vencer o medo. A fé verdadeira não depende daquilo que vemos, mas daquilo em que acreditamos”, afirmou o arcebispo, ao refletir sobre o Evangelho de São Tomé.

Don Airton também ressaltou que a paz anunciada por Cristo é o caminho para superar tanto o medo quanto a superficialidade da fé. “Não é a euforia que sustenta a fé, mas a paz que vem do Ressuscitado”, disse.

Ao longo da celebração também foi lembrada a trajetória da paróquia, que teve papel fundamental na formação religiosa e social de Itabira. Foi ao redor da antiga igreja do Rosário que nasceu a primeira povoação urbana da cidade. O padre Adriano Mendes de Pinho também lembrou que a paróquia esteve presente em momentos marcantes da história local, como a criação da Diocese de Itabira, em 1965, e a reconstrução da catedral após a demolição da antiga matriz. Além disso, iniciativas importantes surgiram a partir da comunidade, como a fundação da Irmandade Nossa Senhora das Dores, que deu origem ao Hospital Nossa Senhora das Dores.

Da capela colonial à Catedral Diocesana: a construção de uma história bicentenária

A história da Paróquia Nossa Senhora do Rosário se confunde com a própria formação de Itabira. Ainda no início do século XVIII, quando a região começava a se desenvolver com a chegada dos bandeirantes e o avanço da atividade mineradora, surgiu a primeira expressão de fé católica local: uma pequena capela dedicada a Nossa Senhora do Rosário.

Registros históricos indicam que essa capela pode ter sido construída por volta de 1705, pelo Padre Manoel do Rosário, ou, segundo outra versão, por bandeirantes paulistas da família Farias de Albernaz, após a descoberta de ouro na região, em 1720. Desde então, a devoção à padroeira passou a integrar a identidade do povo que se estabelecia aos pés do Pico do Cauê.

Com o crescimento da população, a capela foi elevada à condição de matriz em 1825, quando o povoado se tornou freguesia. No ano seguinte, em 6 de abril de 1826, Itabira conquistou sua emancipação religiosa ao ser desmembrada da Paróquia de Santo Antônio do Ribeirão de Santa Bárbara, dando origem oficialmente à Paróquia Nossa Senhora do Rosário de Itabira do Mato Dentro, vinculada ao Bispado de Mariana.

A consolidação da comunidade de fé exigiu, ao longo do tempo, a construção de um templo maior. Assim, a antiga capela deu lugar à Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, concluída em 1848, ano em que Itabira foi elevada à categoria de cidade. A estrutura, com paredes de adobe, telhado colonial e duas torres — uma delas abrigando o sino “Elias”, símbolo marcante da época — tornou-se referência arquitetônica e religiosa.

Décadas depois, com a criação da Diocese de Itabira-Coronel Fabriciano, em 14 de junho de 1965, por meio de bula do Papa Paulo VI, a igreja foi elevada à condição de Catedral Diocesana. A instalação oficial ocorreu em 29 de dezembro daquele mesmo ano, consolidando o templo como sede da nova diocese.

Entretanto, a trajetória também foi marcada por momentos de dificuldade. Em 9 de novembro de 1970, parte da antiga catedral desabou após fortes chuvas, agravadas por problemas estruturais. O episódio causou grande comoção entre os fiéis, mas também fortaleceu o espírito de união da comunidade.

Como resposta, teve início, em 1976, a construção de uma nova catedral, erguida no mesmo local. O novo templo foi idealizado como “uma catedral para um novo tempo”. Seu formato circular simboliza um grande abraço, representando acolhimento e unidade. Sem colunas internas, o espaço foi concebido para aproximar ainda mais o celebrante dos fiéis, reforçando o sentido de comunidade.

A nova Catedral Nossa Senhora do Rosário foi consagrada em 29 de dezembro de 1985, marcando os 20 anos da Diocese. Desde então, tornou-se não apenas um símbolo religioso, mas também um patrimônio histórico e afetivo da cidade.

Ao longo de seus 200 anos, a paróquia também desempenhou papel social relevante. Entre as iniciativas históricas, destaca-se a organização da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, no início do século XIX, que reunia negros e escravizados em torno da fé e da solidariedade, além da fundação do Hospital Nossa Senhora das Dores (HNSD), em 1854, impulsionada pela comunidade paroquial.

Hoje, a Paróquia Nossa Senhora do Rosário segue como uma comunidade viva, dinâmica e atuante, mantendo sua missão de evangelização e serviço. Ao completar dois séculos de existência, reafirma sua importância como símbolo de fé, resistência e identidade para Itabira.