Pesquisadores analisam relatos de sonhos durante a quarentena

Estudo da UFMG, da USP, da UFRGS e do Instituto do Cérebro coleta narrativas em busca de sentidos sobre o mal-estar gerado pela pandemia

Pesquisadores analisam relatos de sonhos durante a quarentena
‘O sonho’, tela de Pierre Puvis de Chavannes (1883) – Foto: Domínio público

Um trauma coletivo como o vivenciado atualmente tem a força de reconfigurar o psiquismo de um sujeito ou apenas fornece material para os sonhos? As pessoas estão sonhando mais ou sentindo maior necessidade de compartilhar os sonhos devido ao isolamento, causado pelo coronavírus? Essas são algumas das perguntas que um grupo de pesquisadores da UFMG, da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) está tentando responder.

Os pesquisadores estão recolhendo no Instagram relatos de sonhos que ocorreram durante a quarentena. Posteriormente, as narrativas serão analisadas do ponto de vista psicanalítico. A expectativa é de que se encontrem sentidos sobre os efeitos do mal-estar atual.

A iniciativa multi-institucional ganhou, nos últimos dias, a parceria do Instituto do Cérebro, vinculado à Universidade Federal do Rio Grande do Norte, um dos mais importantes centros de pesquisa sobre sonhos.

“O sonho é um laboratório em que a mente trabalha, elabora, sem as censuras da vida consciente, a experiência dos sujeitos. Nossos medos, nossas angústias, desejos, frustrações são encenados, como se fossem projetados numa tela de cinema, ou em várias”, explica o coordenador da pesquisa na UFMG, professor Gilson Iannini, do Departamento de Psicologia.

Segundo Iannini, nos sonhos o aparelho psíquico se abre para elaborar o que não compreendemos, e por isso eles parecem conferir algum sentido à realidade, mesmo uma tão surreal quanto a da pandemia. O essencial do estudo dos sonhos é entender as associações que eles permitem fazer.

Manifestações nas redes

Motivado pela percepção de um aumento significativo do interesse das pessoas pelos sonhos durante o isolamento social – têm surgido relatos, obras de arte e pesquisas postadas em redes sociais –, o professor da Fafich decidiu tentar compreender o que os indivíduos estão vivenciando em seu sono.

A pesquisa foi iniciada com os alunos de um curso na pós-graduação da UFMG sobre o livro A interpretação dos sonhos, de Sigmund Freud. Posteriormente, Iannini integrou seu estudo a trabalhos que vinham sendo desenvolvidos paralelamente na USP e na UFRGS.

Desde o ano passado, um grupo de psicanalistas da USP estuda a oniropolítica, que se constitui em um esforço de pensar uma política informada pela psicanálise. Esse grupo começou a olhar para a política contemporânea com base na lógica dos sonhos, considerando as limitações do paradigma cognitivo.

O grupo da UFRGS, por sua vez, vem estudando os sonhos como estratégia para acessar a narrativa de indivíduos pertencentes a grupos vulneráveis, como os adolescentes atendidos pelo sistema socioeducativo. A união das três linhas de pesquisa possibilitou traçar entendimentos comuns para focar em contribuições sociais para o contexto pandêmico mundial.

“O pressuposto é que a concepção de sujeito para a psicanálise nunca se confundiu com a noção de um indivíduo fechado sobre si mesmo. Em nossa perspectiva, o sujeito da psicanálise sempre se situou na fronteira tênue entre a psicologia individual e a psicologia social”, afirma Gilson Iannini. “Não por acaso, o sonho funciona como uma espécie de radar capaz, por vezes, de apreender aquilo que fica meio não dito em nossa experiência social compartilhada.”

Captando sonhos

O estudo tem o objetivo de conhecer os sonhos da população em geral, articulando o material de narrativas oníricas à possibilidade de trabalhar as diferentes maneiras que as pessoas criam para sair do pesadelo, literal e metaforicamente, individual e coletivamente.

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Por meio da análise dos relatos colhidos, seria possível ajudar a aliviar o sofrimento psíquico e produzir novos sentidos sobre os efeitos do mal-estar atual. Os grupos da USP e da UFRGS focam nos trabalhadores da saúde e da educação; na UFMG, a pesquisa mantém-se aberta a todos os grupos.

“Estamos estudando sonhos de qualquer pessoa, independentemente da formação ou área de atuação. Decidimos compartilhar com as universidades parceiras ferramentas, métodos, conceitos e materiais, sem perder de vista as especificidades de cada grupo. No nosso caso, oferecemos, além da narrativa escrita do sonho, a possibilidade, para aqueles que quiserem, de falar com um dos pesquisadores psicanalistas por telefone ou WhastApp, para uma escuta mais aprofundada, que pode aliviar um pouco os sofrimentos psíquicos neste momento”, comenta o docente da UFMG.

A captação dos relatos é feita por meio das redes sociais. No Instagram, os pesquisadores explicam sua proposta e disponibilizam um formulário por meio do qual as pessoas podem narrar seus sonhos e fazer associações de maneira livre. Também é possível deixar um contato para que os especialistas façam a escuta individual aprofundada. O anonimato é garantido em todo o processo.

Estão registrados mais de 200 sonhos, dos quais aproximadamente 30 foram expostos à escuta individualizada. “Predominam relatos de mulheres jovens, na faixa de 25 anos, o que pode ter a ver com as redes de relacionamento dos próprios pesquisadores”, pondera Iannini. “É importante ampliar essa base. Estamos trabalhando nisso.”

Teoria e prática

Além da oniropolítica, proposta pelo professor da USP Christian Dunker, e das considerações de Freud, os grupos utilizam como embasamento teórico o livro Sonhos no Terceiro Reich, da jornalista judia-alemã Charlotte Beradt. A autora reuniu, de 1933 a 1939, relatos de mais de 300 sonhos de pessoas que vivenciavam a ascensão do nazifascismo, apresentando a luta política travada no espaço íntimo de cada sujeito.

Outra peça-chave, como referência teórica, é um estudo da assistente social e psicoterapeuta Martha Crawford, que coletou e publicou cerca de três mil sonhos que tiveram o presidente americano Donald Trump como personagem.

Enquanto a análise dos relatos atuais ainda não foi iniciada, os pesquisadores partem das conclusões de Beradt e Crawford, que consideram que muitas das crenças não passam de ficções coletivas, ou de “sonhos que não sabíamos que eram sonhos, porque todo mundo os estava sonhando”, como explica Iannini.

Mas o especialista alerta: “A história das ciências é recheada de exemplos em que o pesquisador procura uma coisa e encontra outra. Começaram a surgir temas que não esperávamos, como a especificidade da escuta on-line. Muitas vezes, o tema da pandemia, da morte, do vírus funciona como um pano de fundo para questões anteriores”.

Ainda que não haja previsão de conclusão do estudo, os grupos vêm mantendo contato com editoras e publicações especializadas. Surgiu a ideia de escrever um pequeno livro assim que houver material suficiente, além, é claro, de artigos científicos. Da parte da pesquisa na UFMG, por sua característica mais clínica e longitudinal, os trabalhos devem se desdobrar ao longo de um prazo mais longo.

Instituto do Cérebro

De acordo com Gilson Iannini, o Instituto do Cérebro, da UFRN, vai fornecer ferramentas de análises, como softwares de análise de discurso e banco de dados com sonhos pré-pandemia para estabelecimento de grupos de controle.

“Em contrapartida, fomos convidados por pesquisadores do Instituto para estudar, de forma mais longitudinal e aprofundada, os sonhos coletados por eles, aliando a experiência e o tato clínicos da psicanálise aos métodos científicos próprios às neurociências”, revela o professor.

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