“Querelas”: Genin Guerra reflete sobre degradação ambiental e perda do patrimônio histórico de Itabira
Em sua nova exposição, o artista apresenta um olhar inédito sobre sua cidade natal, utilizando a leveza e a transparência da aquarela para abordar um tema pesado: o destino das cidades marcadas pela mineração
A Galeria da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA) recebeu, nesta quinta-feira (16), a abertura da exposição “Querelas”, do artista plástico itabirano Genin Guerra, um dos homenageados do 52º Festival de Inverno de Itabira – Travessias. A mostra, que permanece aberta até 31 de outubro, apresenta uma nova fase da carreira do artista, marcada pela estreia na técnica da aquarela, e propõe uma profunda reflexão sobre a mineração, a preservação da memória e os impactos ambientais e culturais vividos por Itabira e por outras cidades mineradoras.
Com mais de quatro décadas dedicadas às artes visuais, Genin construiu uma trajetória reconhecida nacionalmente como escultor, ilustrador, cartunista e ceramista. Em “Querelas”, o artista apresenta um olhar inédito sobre sua cidade natal, utilizando a leveza e a transparência da aquarela para abordar um tema pesado: o destino das cidades marcadas pela mineração. Logo na apresentação da exposição, Genin deixa claro o ponto de partida da obra. Inspirado na frase atribuída a Leon Tolstói — “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia” —, o artista afirma que escolheu retratar Itabira justamente porque acredita que sua história representa uma realidade vivida em diversas regiões do Brasil e do mundo.
Segundo o texto curatorial escrito pelo próprio artista, Minas Gerais nasceu ligada à mineração, mas essa relação também impõe desafios permanentes. Genin propõe uma reflexão sobre a sobrevivência econômica das cidades mineradoras, a degradação ambiental, a destruição do patrimônio histórico e os riscos associados à atividade mineral.
“Já que a mineração possui apenas uma safra, até que ponto vale a pena vender a alma pelo lucro imediato, que nem sempre beneficiará seu lugar de origem?”, questiona o artista.
Genin também estabelece um paralelo entre Itabira e tragédias como Mariana e Brumadinho, lembrando que os debates sobre remuneração justa da atividade minerária, segurança de barragens e perdas humanas ultrapassam as fronteiras de Minas Gerais e fazem parte de uma discussão global.
Durante entrevista à DeFato, Genin explicou que as imagens apresentadas nasceram muito antes da pintura. “Essas imagens estão na minha cabeça há muitos anos. Afinal, eu sou daqui e vivenciei toda essa transformação da cidade desde que nasci.” Apesar da longa carreira artística, ele conta que nunca havia trabalhado com pintura: “Eu sou chargista, escultor, mas pintar eu nunca tinha pintado.”
A mudança aconteceu há quatro anos, quando reencontrou um antigo professor da Escola de Belas Artes da UFMG, o aquarelista Mário Zavagli, responsável por orientar o artista nessa nova linguagem. “Essa exposição é o resultado desse encontro. Não estou começando como artista, mas comecei uma nova técnica.”

O próprio Genin relata que ingressou na Escola de Belas Artes no início da década de 1980 para estudar desenho e que o reencontro com o mestre foi decisivo para transformar um antigo desejo em realidade. Segundo ele, a aquarela foi escolhida justamente por sua luminosidade e transparência, características que considerou ideais para registrar as paisagens e as memórias de Itabira.
Além de representar a cidade, o artista afirma que a exposição funciona como um testemunho. “É uma homenagem à Itabira, mas também questiona a mineração. O mundo vive uma emergência climática. A degradação ambiental e a perda do patrimônio histórico precisam ser discutidas.”
Responsável pela identidade visual e sinalização expositiva, o pesquisador Marconi Drummond afirma que “Querelas” vai além de uma exposição de pinturas. Segundo ele, as aquarelas estabelecem um diálogo direto com a história da cidade. “Foi um diálogo entre itabiranos. O Drummond poeta se encontra com o Genin artista para construir um testemunho muito sério, em um tom político, sobre o futuro de Itabira”.
“As aquarelas relatam a perda do patrimônio, chamam atenção para a descaracterização cultural e para a transformação das nossas serras. É um alerta para que a sociedade reflita sobre qual cidade deseja construir”.
Para ampliar essa narrativa, a exposição reúne objetos históricos que dialogam diretamente com as obras de Genin, entre eles fragmentos do relógio da antiga Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, demolida na década de 1970, cravos originais de sua estrutura e exemplares da revista O Cruzeiro que documentaram a destruição do templo.

Em tempo: Na solenidade, Genin Guerra recebeu uma placa de homenagem pelas mãos da Superintendente da FCCDA, Vanessa Faria, e a comenda Personalidade de Ferro, concedida pela Prefeitura de Itabira em reconhecimento à sua contribuição para a cultura local.
Ainda durante a cerimônia de abertura, o prefeito Marco Antônio Lage (PSB) afirmou que a exposição representa mais um importante capítulo da carreira de Genin Guerra e destacou a importância de homenagear artistas itabiranos no Festival de Inverno. “É um momento de alegria ver um artista itabirano tão potente sendo homenageado na própria terra.” O prefeito também aproveitou a ocasião para defender um maior investimento em cultura e voltou a cobrar uma participação mais expressiva da Vale no financiamento de projetos culturais no município.