“Simulado de Itabira é um grande desafio”, diz Godinho

Em entrevista ao Jornal DeFato Cidades Mineradoras, o coordenador-adjunto da Defesa Civil Estadual destaca que nunca foi feito no Brasil um treinamento de evacuação com tanta gente

“Simulado de Itabira é um grande desafio”, diz Godinho
Tenente-coronel Flávio Godinho, coordenador-adjunto da Defesa Civil Estadual

Itabira é um município com muitas barragens e, algumas, dentro de áreas super habitadas. Como esse cenário influencia no simulado de evacuação que vem sendo coordenado pela Defesa Civil ?
Esse cenário influencia e muito. Minas Gerais tem uma característica bem diferente de outras regiões. Ou seja, a mineração em Minas Gerais podemos dizer que é urbana. Os centros que as pessoas habitam, os bairros, as comunidades, elas margeiam todo o empreendimento, todas as barragens. Isso causa uma preocupação maior. Caso ocorra qualquer rompimento de barragem, as casas estão muito próximas da estrutura de rejeito. Ou seja, o tempo (para o autossalvamento) é menor. Por isso que devemos fazer um trabalho muito bem detalhado para que as pessoas possam ter condição, em caso real de rompimento de barragem, deslocar para os pontos seguros. Então, realmente essa quantidade de pessoas que moram próximas às barragens é um dificultador para operação. Isso requer mais planejamento da equipe para que as ações possam ser mitigadoras e a comunidade tenha total conhecimento e informação em caso de rompimento.

O simulado será em um sábado, mas um rompimento de barragem pode ocorrer qualquer dia da semana e em qualquer horário? Por exemplo, as escolas não funcionam no fim de semana. Isso não altera a eficácia do treinamento…
O simulado realizado em um sábado é escolhido para que a maior parte das pessoas possam participar. Nós sabemos que tem pessoas que trabalham fora da cidade, mas que aos sábados e domingos estão em Itabira. Então, a gente escolheu o sábado porque a maioria das pessoas estará no município, seja trabalhando ou em casa descansando.

Foi preparada alguma ação específica para as escolas?
Para as escolas, temos todo um treinamento exclusivo. A grande intenção do trabalho nas escolas é empoderar os professores porque, caso ocorra algum rompimento de barragem, eles terão todo esse conhecimento e serão os guias, os líderes das escolas para que possam, de forma tranquila, coordenada e treinada, conduzir os alunos para as áreas seguras. O trabalho que a gente faz com as famílias é para que elas acreditem nessa atuação das escolas. Porque, caso contrário, você imagina: uma pessoa mora em um ponto da cidade e acontece o rompimento da barragem. Em vez de se salvar, ela preocupa em se deslocar para a escola. Para isso, ela pode sair em direção à mancha de inundação. Então, ela tem que acreditar que os professores estão treinados, capacitados e vão retirar os seus filhos com segurança. As escolas possuem pontos de encontro próximos a elas, para onde levarão as crianças. Os pais devem seguir para o ponto de encontro mais próximo de onde estiverem. Após isso, vamos fazer a ligação dessa mãe com seu filho.

“O simulado não é da Vale, não é da Defesa Civil, não é dos órgãos do governo. O simulado é da população. Ela é a protagonista de toda essa operação.”

O comparecimento em um simulado, conforme experiências anteriores, fica geralmente abaixo do esperado. O que o senhor tem a dizer para que as pessoas em Itabira participem do treinamento?
A gente tem uma média histórica registrada na Defesa Civil que mostra que em todos os simulados tivemos de 60% a 80% de participação. Então, a gente utiliza até os meios de comunicação, como o DeFato, que tem uma boa audiência na cidade, para que nos ajude a divulgar e as pessoas possam se conscientizar sobre o quanto o simulado é importante. O simulado não é da Vale, não é da Defesa Civil, não é dos órgãos do governo. O simulado é da população. O protagonista de toda essa operação é o cidadão. Ele é quem deve ter todas as informações, saber sua rota de fuga, qual seu ponto de encontro e qual a sua dificuldade para que possamos melhorar esse simulado.

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Outros simulados já foram realizados. O que essas experiências anteriores ensinaram para a realização do treinamento de evacuação em Itabira?
O simulado não é feito para 100% de acertos. O simulado, como a própria palavra diz, é para que possamos, na prática, ver o que planejamos. E se do planejado para a prática surgir alguma dificuldade, se alguma coisa não funcionou, é o momento de consertamos, de corrigirmos aquele erro. Então, o simulado é feito não só para acertos, mas para que ele aponte também algum erro e possamos corrigir isso em outra data.

O senhor fala que o simulado de Itabira será um exemplo para o país. Quais as suas expectativas?
A Defesa Civil já realizou diversos simulados no Estado. Essa expertise que nós adquirimos nos torna referência no Brasil neste processo de proteção e defesa civil das pessoas. Em outros simulados, nós tivemos algumas experiências que não foram acertadas 100%. Por exemplo, algumas sirenes em alguns locais não foram acionadas e isso foi um erro. Então houve necessidade de correção. A comunicação com alguns pontos de encontro falhou em algum momento e esse foi um item que tivemos que consertar. Nos carros de som que passaram por algumas ruas em outros locais, foi verificado que o som não foi audível e as pessoas não conseguiram escutar a mensagem para que saíssem de casa para o treinamento. Esse foi outro erro que nós demandamos a empresa para que corrigisse esse problema. Então, cada simulado teve uma característica diferente da outra.

“O simulado não é feito para 100% de acertos. O simulado, como a própria palavra diz, é para que possamos, na prática, ver o que planejamos e corrigir os erros.”

E quais são os desafios esperados para Itabira?
Este de Itabira é um grande desafio porque nunca foi feito no Brasil um simulado com a quantidade de pessoas como é esperado. Então, a organização foi realizada em conjunto, tanto com a Prefeitura, através da Secretaria de Meio Ambiente, com a Polícia Militar, que tem um papel primordial. Estamos tirando de casa, simultaneamente, 20 mil pessoas e a PM vai colocar toda sua capacidade operacional para ocupar todos os locais para que não aconteçam furtos ou arrombamentos às residências no momento que os moradores estarão fora de casa. O Corpo de Bombeiros fará o auxílio às pessoas com dificuldade de locomoção, ou qualquer outra deficiência. Então, o simulado de Itabira tem características bem diferentes e, por isso, é um simulado que foi planejado há vários meses. Em função desse planejamento, ele é um modelo a ser seguido no Brasil. Nós tivemos tempo de cadastrar e fazer o censo em toda Itabira. De casa em casa, com coordenadas geográficas de pessoas que têm necessidades especiais. Catalogamos os animais tanto na região de autossalvamento, como na área secundária. Então, todas as informações foram muito bem captadas e agora vamos fazer com que isso vire conhecimento para que as pessoas possam aproveitar disso para ter segurança na sua cidade.

Em Itabira há muitas barragens. Quais regiões de barragens o simulado vai abranger?
O simulado vai envolver todas as barragens que vertem para Itabira. Vamos fazer todas ao mesmo tempo. Optamos assim porque, caso aconteça um rompimento da barragem de Itabiruçu, por exemplo, a sirene vai tocar. Mas como o pessoal vai saber se a sirene é só para quem está perto de Itabiruçu? Então, tocou a sirene, mesmo que não seja no bairro da pessoa, ela tem que saber a sua rota de fuga. Porque, na hora, ela não tem como saber se rompeu a barragem A, B ou C. Por isso estamos simulando todas ao mesmo tempo para que a mancha possa ser aumentada e, dentro disso, estipularmos os pontos de encontro seguros para as comunidades.

  • Entrevista publicada na edição nº 62, de agosto de 2019, do Jornal DeFato Cidades Mineradoras

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