Turnê interrompida: músico relata rotina de restrições em meio ao avanço da Covid-19 na Itália

Juninho Ibituruna foi para Napoli no início de março, onde iria começar uma turnê que passaria, também, por outros países da Europa

Turnê interrompida: músico relata rotina de restrições em meio ao avanço da Covid-19 na Itália
Músico mineiro está na Itália desde o início de março – Foto: Arquivo Pessoal

Era pra ser apenas mais uma temporada a trabalho no exterior. No entanto, o músico mineiro multi instrumentista Juninho Ibituruna, 36 anos, viu sua vida tomar outros rumos ao chegar em Napoli, sul da Itália, na primeira semana de março. Naquela época, o país já havia registrado a primeira morte associada ao novo coronavírus (Covid-19).

“Tinha uma série de compromissos marcados, entre workshops, shows e gravações. Era uma turnê que passaria pela Suíça, Itália, Espanha, Alemanha e Portugal. Mas foi tudo cancelado e fiquei aqui sem poder ir pra lugar algum”, conta Juninho Ibituruna.

Nascido em Governador Valadares, o músico atualmente tem moradia fixa em Itabira, cidade que começou a frequentar em meados de 2013, quando ministrava aulas de percussão para o projeto Meninos de Minas. Desde então, entre as idas e vindas, fez amigos, se apaixonou, casou e se tornou pai, tudo nas terras de Drummond.

O músico é um dos curadores e idealizadores do “Coletivo Altamente”, que realiza eventos musicais desde 2015 em festas, ocupações urbanas e espaços culturais – inclusive, o bloco carnavalesco Altamente.

Trabalhando em vários projetos nacionais e internacionais, Juninho Ibituruna atua como baterista, percussionista, programador de áudio, professor e DJ. Em Napoli, está morando com dois grandes amigos, um português e um italiano.

“Temos muitos instrumentos e estamos produzindo bastante, gravando, lendo, fazendo exercícios, cozinhando e aprendendo sobre a culinária Napolitana”, comenta.

A crise na Itália

A Itália registra o maior número de mortes associadas a Covid-19 em todo o mundo. Nesse domingo (5), os dados sobre a situação da propagação do coronavírus se estabilizaram e os novos contágios passaram para 4.316, quase 500 a menos do que o registrado no dia anterior (4.805). Um panorama que concede um respiro para a Itália, que soma um total de 128.948 casos confirmados.

“Não tem sido nada fácil enfrentar a pandemia vivendo na Europa. As pessoas estão nitidamente assustadas. Sair na rua só é possível para fazer compras e com uma carta explicando onde você mora e outros detalhes. No comércio só pode entrar de uma em uma pessoa e, dependendo do tamanho do estabelecimento, a compra é limitada. O que eu acho muito bom pois assim todos podem ter acesso”, relata Juninho Ibituruna.

Além disso, o músico ressalta que em Napoli todos são obrigados a manter um metro e meio de distância das pessoas. Existe ainda uma multa pesada para quem for pego na rua andando sem compromisso e fora do seu bairro. “Enfim, são adaptações difíceis, mas necessárias”, pondera.

Napoli é a terceira cidade mais populosa da Itália, atrás apenas de Roma e Milão – Foto: Juninho Ibituruna

Saúde mental

A crise gerada pelo coronavírus tem um forte impacto na saúde mental. As mudanças repentinas na rotina e o excesso de notícias de mortos que se avolumam a cada dia em todo o mundo têm tornado as crises de ansiedade e depressão ainda mais frequentes.

Juninho Ibituruna conta que tem tido certo cuidado com o volume de notícias que tem lido, isso pra não cair na depressão. “Uso basicamente três fontes de notícias e ao fim do dia ainda debatemos sobre as coisas aqui em casa”, relata.

A distância e a incerteza de quando tudo isso vai passar aumenta a saudade da família. E a forma encontrada para encurtar essa distância é a internet, por onde se falam diariamente.

Uma rotina regada à música, arte e gastronomia

“A minha rotina começa basicamente pelo o sol. Ele bate na janela do meu quarto às 10h e pouca. Levanto, faço uma salada de frutas e vou tomar sol na área externa. Esse é o momento onde cada um lê um livro ou as primeiras notícias do dia. Depois de um tempo eu faço exercícios entre alongamento e correr parado”.

Vista da casa onde vive o músico mineiro para o vulcão Vesúvio – Foto: Juninho Ibituruna

Em seguida, é hora de estudar música, é claro. Bateria, percussão, guitarra, vibrafone e pandeiro são alguns dos instrumentos mais estudados. “Também tem sido legal interagir com o vizinho, que é percussionista e tem muitos instrumentos. Principalmente uma variedade de pandeiros: Árabe, Marroquino, Iraniano, Italiano e outras coisas do Mediterrâneo”, conta.

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Na hora do almoço, o brasileiro, o português e o italiano se empenham na gastronomia. Cada dia, um dos três fica responsável pelo preparo da alimentação. O músico mineiro garante que saem pratos maravilhosos, “modéstia parte”. “Chamamos de “Sapori Diversi” e acho que vamos acabar abrindo um restaurante depois disso tudo”, diz Juninho.

Depois de relaxar um pouco, os três integrantes da casa focam a energia no novo álbum do Xafu, projeto que Juninho Ibituruna tem a 10 anos com o português André Xina. Ele conta que a ideia era gravar um disco, mas já tem material para três. “E olha que ainda temos mais um mês de quarentena, hein!”

Mais tarde, mais pratos gastronômicos. É hora também de escutar uma rádio popular Marroquina. As músicas duram de oito a 10 minutos, e são ótimas, garante o músico brasileiro. Para descontrair, um jogo de cartas e chá para espantar o frio. Por volta de meia noite, ou pouco antes, é hora de dormir.

“No geral, tem sido uma boa rotina e purificadora, sem carne, pouquíssimo álcool e de muita arte em geral”, frisou o músico mineiro.

Amor pela música

Juninho Ibituruna é apaixonado por música e vive disso também. Nesse momento de medo e incerteza, a música é aliada no enfrentamento da pandemia. Mas, por outro lado, segundo o músico, ela também atrapalha.

“Ajuda, porque a música é realmente uma terapia, a musicoterapia está aí pra provar. E sinto que é o momento de reinventar a forma de ser músico. Não vejo mais lugar para o ego artístico. Isso é efêmero, acredito na partilha entre os artistas. Atrapalha, porque como eu disse antes, tenho esse problema de não conseguir estudar outra coisa, é sempre música, e é bom deslocar o conhecimento pra novas coisas. Mas no geral a música me ajuda a balancear as más notícias da pandemia e da política brasileira”, destaca.

O avanço da pandemia na Europa

Espanha, França e Itália registraram uma desaceleração no número diário de mortes em decorrência do novo coronavírus. A pandemia, que já matou mais de 68 mil pessoas no mundo – 49 mil apenas na Europa, ameaça agora os Estados Unidos, que se preparam para a semana mais difícil até o momento. No entanto, a situação ainda assusta quem está na Europa.

“Ainda quando era uma epidemia na China, alguns países tomaram as devidas precauções. Outros não e, infelizmente, estão passando por inúmeros casos de infecções e mortes. Penso que para o final de junho as coisas por aqui na Itália começam a se estabilizar”, expõe o músico mineiro.

Para Juninho Ibituruna, depois que tudo isso passar ou se estabilizar no mundo, será necessário passarmos por uma adaptação comportamental, social, psicológica e política.

“Penso que teremos que nos reinventar. Consertar os erros, definitivamente respeitar a natureza, respeitar o tempo das coisas, e seguindo um pensamento filosófico, fico curioso em saber sobre as reflexões que todos estão fazendo, nas perguntas, deixo aqui algumas minhas. Como será daqui pra frente? Nas ruas, shows, festivais, bares, praias, exposições? Como serão as relações familiares? Seremos mais Orientais no comportamento? Como serão os futuros carnais?”, questiona.

“Temos que nos cuidar e ser confiantes”

Nesse período em que todos estão tendo que rever suas atitudes e suas vidas foram abruptamente freadas, o músico mineiro deixa um recado para os brasileiros e, também, para os políticos.

“Nós somos fortes, temos fé, amor e afeto. Mas temos também o costume de ver algo sério no ecrã e não acreditar que pode acontecer com a gente, até que chega a casa do vizinho ou com alguém da família. Não podemos chegar ao ponto que a China, Europa e os EUA chegaram, temos que nos cuidar e ser confiantes”, alerta Juninho Ibituruna.

“Peço encarecidamente que os políticos façam o seu dever, que é de servir ao povo, proteger, dar o suporte necessário para manter as despesas da casa, como comida, remédio e todas as necessidades básicas que precisamos para ter uma vida digna. A situação não é de guerra política, a situação é de uma guerra contra um vírus, a situação é de união em prol da vida”, finalizou.

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