Veja erros e acertos nas previsões de economistas para 2010

Os investidores experientes já sabem – e os demais foram alertados diversas vezes – que as projeções dos analistas não devem ser tratadas como previsões do futuro. Dependendo de uma série de premissas, os números finais são meros resultados; o que importa é o cenário que os especialistas traçaram para chegar a eles. Mas e […]

Os investidores experientes já sabem – e os demais foram alertados diversas vezes – que as projeções dos analistas não devem ser tratadas como previsões do futuro. Dependendo de uma série de premissas, os números finais são meros resultados; o que importa é o cenário que os especialistas traçaram para chegar a eles. Mas e quando a base se prova errada?

Foi fundamentalmente isso que aconteceu em 2010. Sem projeções esdrúxulas como em 2009, sem previsões de que a Bolsa quebraria ou que chegaria a 200 mil pontos, este ano registrou dois erros importantes nos cenários de referência de grande parte dos analistas: expectativas muito baixas em relação à economia e muito altas em relação à Bolsa.

Petrobras e Usiminas: os micos do ano

As expectativas para o mercado foram exageradas talvez por perspectivas otimistas demais em relação a duas blue chips brasileiras, com grande peso no Ibovespa: Petrobras (PETR3, PETR4) e Usiminas (USIM3, USIM5). Somando os pesos dos papéis ordinários e preferenciais e tendo como referência a carteira do índice vigente neste quadrimestre, a estatal possui 12,3% de participação, enquanto a siderúrgica tem 3,3%.

Começando pela petrolífera, que estava entre as três empresas mais recomendadas para 2010 e que, surpreendendo negativamente, acumula quedas de 29,44% e 27,70% nas ações ordinárias e preferenciais, considerando o fechamento do dia 22 de dezembro. Contudo, os investidores devem lembrar que o otimismo inicial não perdurou durante todo o ano, com as recomendações e projeções para a Petrobras sofrendo seguidos cortes antes e depois do processo de capitalização.

Os erros nas projeções incluem também esta operação. Quem lesse os relatórios da MCM Consultores de que um barril acima de US$ 7 inviabilizaria a capitalização ou as projeções do Itaú BBA (barril entre US$ 6 e US$ 7) e do JPMorgan (barril entre US$ 4 e US$ 5), não imaginaria que a precificação média final seria de US$ 8,51 por barril, variando entre US$ 5,82 (no campo Iara) e US$ 9,04 (no campo Franco, que tem a maior quantidade de barris).

Já em relação à Usiminas, a tão esperada recuperação ainda não chegou. Os papéis da siderúrgica acumulam desvalorizações de 14,21% e 21,55% entre janeiro e 22 de dezembro, bem diferente da alta preconizada por diversos analistas, incluindo a equipe do Bank of America Merrill Lynch e Itaú BBA, que indicava a empresa como top pick do setor em janeiro deste ano. Mas assim como ocorreu com a Petrobras, durante o ano as opiniões sobre a empresa foram mudando para pior.

Aliás, o otimismo não era apenas em relação à Usiminas. Todo o setor de siderurgia, na opinião de boa parte dos analistas ao final de 2009, mostraria recuperação neste ano. A realidade, entretanto, foi outra, como mostram os desempenhos negativos acumulados no ano por Gerdau (GGBR4), Metalúrgica Gerdau (GOAU4) e CSN (CSNA3): -18,74%, -19,69% e -0,66%, respectivamente.

Outro setor que surpreendeu foi o de varejo. Enquanto boa parte dos analistas mantinha a visão positiva, mas via os drivers já precificados, os papéis tiveram um ano atribulado. As ações do segmento de vestuário tiveram forte alta, com destaque, no índice, para Lojas Renner (LREN3), que sobe 47,57% no ano, desapontando a recomendação underperform (performance abaixo da média do mercado) dada pelo Credit Suisse no final de 2009 e em linha com a recomendação da Link de outperform. 

Já a B2W (BTOW3) está entre as maiores quedas do Ibovespa, enquanto começou o ano com sugestões marketperform (performance em linha com a média do mercado) da Link e do Itaú BBA. O mesmo vale para a Souza Cruz (CRUZ3), maior alta do Ibovespa com valorização de 65,64% no ano e que tinha recomendação de venda de todos os analistas consultados pela InfoMoney no final de 2009.

Vale, BR Foods e Itaúsa: os acertos

Por outro lado, em um ano de desempenho pífio do Ibovespa, os analistas também acertaram. Dentre as principais recomendações para 2010 também estavam Vale (VALE3, VALE5), BR Foods (BRFS3) e Itaúsa (ITSA4), que registram até agora performances bem superiores ao índice. Os papéis ordinários e preferenciais da mineradora sobem 17,24% e 21,46%, enquanto as ações da outras duas avançam 21,03% e 12,92%, respectivamente.

PIB não cresce mais que 4,5% inflação estável

Deixando o otimismo frustrado em relação ao mercado acionário, outro erro no cenário-base de boa parte dos analistas tem a ver com o crescimento da economia brasileira e com a alta nos preços – ambos subestimados pelos especialistas. O notório pessimista Nouriel Roubini encerrou 2009 afirmando que o Brasil não cresceria mais do que 4,5% se não houvesse mudanças estruturais na educação e na infraestrutura. Embora os gargalos continuem ameaçando a expansão econômica, o fato é que o País registrou no terceiro trimestre um crescimento anual acumulado de 8,4%, com o último Relatório de Inflação do Banco Central estimando uma alta de 7,3% no PIB nacional no ano fechado.

Mas não foi somente Roubini que subestimou a economia brasileira: entre o final de 2009 e o início de 2010, boa parte dos analistas estimava avanços entre 4,8% e 6%, intervalo no qual também se encontrava a estimativa do Governo. O relatório Focus mostra bem a mudança nas expectativas ao longo do ano. No primeiro documento divulgado em 2010, a mediana das projeções apontava crescimento de 5,2% no PIB; no primeiro relatório do segundo semestre, marcando 16 semanas seguidas de alta, as estimativas já apontavam avanço de 7,20%; nas estimativas mais recentes a alta esperada é de 7,61%.

O cenário para os preços também não contemplava a forte pressão vista no segundo semestre deste ano. Inflação controlada e taxa Selic estável em 8,75% ao ano eram a aposta do BofA ML e da CNI (Confederação Nacional da Indústria) em dezembro de 2009. Nesse ponto, destaque para a equipe do Safra que, ainda no final do ano passado, previu a Selic a 10,75% ao ano em 2010.

Ao longo do ano, as expectativas, especialmente para o juro básico brasileiro, aumentaram. Em janeiro, o Citi divulgou a expectativa de que a Selic terminasse o ano a 12,25% a.a.; em fevereiro, o Itaú esperava inflação de 4,8% e juros a 11,50% ao ano; em abril, o Banif previu a taxa em 13% a.a.

Ao mesmo tempo, as expectativas mostradas pelo relatório Focus também se deterioravam. Se no primeiro relatório de 2010, a mediana das projeções para o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) apontava uma alta de 4,50%, em julho a alta já era de 5,55% e nesta semana, após 14 elevações consecutivas, o avanço esperado é de 5,88%.

Nesse ponto, embora os dados do ano ainda não tenham sido divulgados, vale ressaltar que o Relatório de Inflação do Banco Central considera como cenário de referência uma alta de 5,9% nos preços neste ano, mais perto do teto (6,5%) do que do centro (4,5%) da meta do CMN (Conselho Monetário Nacional).

Dólar em 2010

Dentre os erros compartilhados por boa parte dos analistas estava a ideia de um dólar mais forte neste ano. Segundo o Morgan Stanley, a moeda norte-americana se recuperaria frente às divisas internacionais com a retirada da liquidez do mercado diante da recuperação econômica.

Nesse cenário, Itaú e MCM viam, em fevereiro e abril, o câmbio brasileiro terminar o ano a R$ 1,80, enquanto o BTG projetava, em julho, que o real se enfraqueceria para R$ 1,82. Já em agosto, a NGO previu que, passados os efeitos da capitalização da Petrobras, a taxa de câmbio deveria voltar a subir, com o dólar terminando 2010 próximo do patamar de R$ 2,00.

Diante da insistência do fortalecimento do real, a MCM optou, em outubro, por reduzir a expectativa para o câmbio neste ano para R$ 1,70, patamar próximo ao fechamento do dia 22, quando a moeda norte-americana era cotada a R$ 1,697 na venda.