Vidas que vêm e vão
Matéria publicada na edição 256 da Revista DeFato. Pense na cena de um caminhoneiro trafegando por uma rodovia brasileira. Uma criança de apenas três anos aparece bem no meio da autopista, caminhando tranquilamente. A reação mais óbvia seria, talvez, apenas desviar do obstáculo para evitar um acidente. Mas o motorista para o veículo, desce, dá […]
Matéria publicada na edição 256 da Revista DeFato.
Pense na cena de um caminhoneiro trafegando por uma rodovia brasileira. Uma criança de apenas três anos aparece bem no meio da autopista, caminhando tranquilamente. A reação mais óbvia seria, talvez, apenas desviar do obstáculo para evitar um acidente. Mas o motorista para o veículo, desce, dá as mãos à criança e a entrega sã e salva aos seus pais, que moram em frente à rodovia. Inacreditavelmente, a situação aconteceu. Foi em 1978, quando a BR-381, hoje chamada de “Rodovia da Morte”, era menos ameaçadora.
Quem relembra o fato é a comerciante Maria Neide dos Santos Nunes, 59 anos, mãe da criança em questão, Reginaldo Nunes, hoje com 38 anos. Proprietária do Restaurante Fogão de Minas, no km 407 da BR-381, dona Neide, como é conhecida, mora no local há quase quatro décadas. Ela relatou o fato traçando um paralelo entre o fluxo de veículos atual e o anterior, quando a estrada ainda não tinha o macabro apelido. “Na época, não tinham muitas opções e o meu filho saia para brincar. Era tudo aberto”, conta.
A neta da comerciante, Sara Elisa, 2 anos, tem uma criação bem diferente daquela recebida pelo pai. Se naquela época já era perigoso, hoje, o movimento intenso de veículos não permite nem mais pensar em brincadeiras perto da rodovia.
Palco de tragédias
A mulher comenta que durante todos esses anos, já viu inúmeros acidentes na rodovia. A porta da casa de Neide é um palco de tragédias. A cena que mais marcou a comerciante ocorreu em 2007, quando uma carreta bi trem bateu de frente com um caminhão carregado de tecidos e pegou fogo. Os motoristas morreram na hora e a carga ficou espalhada na estrada. Neide teve de conviver por quase três meses com o odor da fuligem queimada. Mas isso não é nada perto da imagem eternizada na memória.
Para a comerciante, a quantidade de curvas é o que mais complica a rodovia. Esse fator é ainda pior para condutores de outros estados, avalia Neide. Outro ponto é a alta velocidade dos veículos que trafegam pela via. Há aproximadamente um ano e meio, radares foram instalados perto do restaurante, o que permitiu razoável tranquilidade, tanto para a comerciante, quanto para os vizinhos. A nora e também sócia de Neide, Alcione Avelar, concorda que os dispositivos ajudaram. “Diminuiu bastante, consideravelmente. Até mesmo a Polícia Rodoviária Federal nos passou dados de que reduziram em 80%”, diz.
Os acidentes, porém, não são suficientes para fazer dona Neide se mudar. Ela diz que nem pensa nisso. “A gente não tem vontade de mudar, eu me sinto bem aqui, é bom conviver com as pessoas. Mas a gente cansa dos acidentes, não é?”, finaliza.
Trabalho de risco
No dia 7 de abril, uma carreta tombou no km 405 da BR-381, em Bom Jesus do Amparo. Neste dia, o caminhoneiro José Raimundo Marques, 49 anos, estava em Juiz de Fora. De lá, ficou sabendo do acidente e se preocupou com o motorista, um amigo seu. No outro dia, José passou pelo trecho e viu de perto a situação do veículo que havia subido em uma ribanceira antes de tombar.
“Pensei no pior. Fiquei preocupado porque envolveu um colega de trabalho”. Olhando aliviado para a carreta virada na ribanceira, José resigna-se: “Bens materiais a gente recupera, só não se recupera a vida”.
Pais de duas moças e de um rapaz, José atua como caminhoneiro há 10 anos. Já viu muita coisa. Sente medo. Morador de Caeté, ele conta que já até perdeu as contas de quantos acidentes presenciou nessa década em que está atrás do volante.
A bordo da carreta de uma empresa de transportes de cargas pesadas de Contagem, seu José considera-se um veterano na estrada e roda constantemente pela “Rodovia da Morte”. Ele já chegou a passar por ela três vezes em apenas uma semana, sem nunca ter se envolvido em acidentes. O motorista prefere não dar muita importância para os imprevistos, para evitar a ansiedade. “Medo a gente tem, mas se for olhar acidente ninguém trabalha”, diz.
Em sua opinião, os fatores que mais propiciam as tragédias na rodovia são as curvas em excesso, a falta de sinalização e, como ele mesmo diz, o abuso dos motoristas. A imprudência de outros condutores o obriga a redobrar os cuidados ao dirigir. Por isso, ele não excede a velocidade de segurança, principalmente quando há carga no caminhão e em períodos chuvosos.
Os filhos, apesar de se preocuparem, acabaram se acostumando com as idas e vindas do pai pelas estradas. A esposa é a que fica mais temerosa com as viagens do marido. O jeito é sempre estar em contato com a família, para matar a preocupação e a saudade.
O carreteiro já trabalhou na área da Vale, em Itabira e em Barão de Cocais, mas acabou sendo levado a atuar nas estradas. Quando é questionado sobre o que falta para melhorar a qualidade da rodovia, ele se mostra revoltado: “Falta vergonha na cara dos políticos para fazerem melhorias na 381. A Copa do Mundo não vai trazer nada para nós”, reclama.
Duplicação
Histórias como as de Neide e José podem ser encontradas aos montes nos mais de 300 quilômetros da BR-381 entre Belo Horizonte e Governador Valadares. Por dia, milhares de pessoas passam pela rodovia e assistem de perto as mazelas da estrada que mais mata no Brasil. São testemunhas daqueles que vão e deixam para trás as histórias a serem contadas.
No final de 2013, o Governo Federal divulgou a lista dos 100 trechos das rodovias federais com maior número de acidentes. Dentre os dez primeiros estados está Minas Gerais, na segunda posição geral. As informações foram aferidas numa parceria da Polícia Rodoviária Federal (PRF) com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A PRF informou que na BR-381, somente entre Belo Horizonte e João Monlevade, foram registrados 1.259 acidentes entre os meses de janeiro e setembro do ano passado. Segundo a corporação, houve 61 mortos e 883 feridos.
A duplicação da rodovia é tida como a solução para frear a carnificina que se tornou a BR-381. Dividido em 11 lotes, o empreendimento inclui novas pistas, restaurações, construção de cinco túneis, 34 pontes, 66 viadutos, 31 passarelas, 150 paradas de ônibus e 133.800 metros de defensas. Desses11 trechos, sete já foram licitados. Outros três lotes tiveram os editais lançados em março. O documento está em revisão para inclusão da retirada e reassentamento das famílias que moram nos locais em que serão executadas as obras.
Desde 2012, quando foi lançado o edital para duplicação da BR-381, o cronograma da obra passou por atrasos e cancelamentos. No ano passado, divergências entre o Dnit e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) prejudicaram a concessão da licença ambiental para a execução da obra. Com o atrito, o documento só foi liberado pelo Conselho de Política Ambiental (Copam) em fevereiro passado.
Os primeiros alojamentos para operários que vão trabalhar na duplicação estão prontos para entrar em funcionamento. A estrutura foi montada à altura do km 422, a aproximadamente 30 quilômetros de Belo Horizonte. Funcionários do consórcio vencedor da licitação para o trecho em que foram construídos os alojamentos – que fica entre o Rio Una e a entrada para Caeté, um total de 37,5 quilômetros, denominado Lote 7 – trabalham no local, que fica à direita da estrada, no sentido Valadares, executando tarefas internas como abertura de acessos e montagem de enfermarias e escritórios. A expectativa é de que as obras tenham início em meados de maio.