Entrevista: Itabira precisa do parque científico e tecnológico

Kleber Guerra: “Itabira precisa de um projeto que seja estruturante para o futuro. Não teremos a mineração por muito tempo”

Entrevista: Itabira precisa do parque científico e tecnológico
Embora tenha sido concebido em 2004, o projeto do parque científico e tecnológico de Itabira, vinculado à Universidade Federal de Itajubá (Unifei), só ganhou notoriedade no final de 2015, em meio a uma disputa polêmica de terreno com a Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac), na região do Candidópolis.
 
Para esmiuçar o assunto, DeFato conseguiu uma entrevista com o consultor estratégico na área de mineração e siderurgia, Kleber Carvalho Guerra, um dos criadores dos projetos da Unifei e do parque tecnológico. Engenheiro eletricista, Kleber tem diversos MBAs (FDC, FGV, entre outras) e experiência em desenvolvimento corporativo no exterior. Já trabalhou na Austrália, Rússia e em outros países mais desenvolvidos que o Brasil, de onde trouxe extensa bagagem de conhecimento.
 
Nascido em Itabira, Kleber trabalhou muitos anos na Vale e protagonizou o projeto Unifei-Parque Tecnológico quando era gerente na mineradora. Na visão dele, Itabira tem uma considerável área territorial e precisa conciliar Apac e parque sem conflitos. “É do futuro da cidade que estamos falando”, afirma.
 
Muito se tem falado em parque científico e tecnológico ultimamente em Itabira. Em que consiste este projeto?
Na concepção do projeto da Unifei, em 2004, surgiu essa ideia dentro da Vale. Eu era gerente da mineradora na época e minha área sempre foi ligada à tecnologia – energia, telecomunicações, engenharia de manutenções, etc. Sempre tivemos muita proximidade com a tecnologia. Então, naquela época, pensamos em ter, em primeiro lugar, uma universidade de nível, que tivesse reconhecimento tanto no Brasil quanto no exterior. E o nome da Universidade Federal de Itajubá surgiu de imediato. Já tínhamos relações com a Unifei, através da Fupai, uma fundação que sempre ministrou treinamento para o pessoal da Vale na área de engenharia. A Unifei foi a grande universidade que sempre esteve muito próxima à demanda do setor produtivo brasileiro. E esse foi um fator motivador para que a gente fizesse esse convite na época para a instituição, uma universidade com 103 anos que criou o primeiro curso de Engenharia Elétrica da América do Sul. Primeiro concebemos esse projeto internamente, levamos às esferas superiores da Vale e houve a aprovação. Depois contatamos a Prefeitura de Itabira, que se mostrou pronta a abraçar o projeto. Então se formou uma tríade que sustenta a universidade que está aí hoje: Prefeitura de Itabira, Vale e Unifei. Naquela época, em 2004, o projeto da universidade já foi pensado junto com o parque tecnológico. A Unifei é reconhecida no mundo inteiro como uma universidade de produção de tecnologia pela criatividade e inovação. Ela tem esse perfil. Esse parque foi projetado, então, para receber grandes empresas de tecnologia, que chamamos de empresas âncoras, e também médias e pequenas empresas, que estarão trabalhando no mesmo ambiente, numa rede de relacionamento com as grandes multinacionais. Consiste em fomentar o empreendedorismo de maneira planejada.
 
Porque pouco se falou no projeto do parque até agora?
Na verdade pouco se falou no parque porque era condição sine qua non que tivesse a Unifei implantada. Ela vem primeiro. Hoje a Unifei tem nove cursos de engenharia e um plano de crescimento que contempla também o curso de Medicina. É preciso ter a universidade instalada, com os docentes aqui dentro – temos um número muito grande de doutores e mestres trabalhando dentro da universidade – para depois começar a implantar o parque.
 
Com o atual estágio de estruturação do campus da Unifei, já dá para começar o parque?
A gente já devia ter começado há mais tempo. A primeira turma da Unifei começou em 2008 e se formou em 2012. A construção do segundo prédio deu mais oxigênio, mais vida à universidade, que está em uma fase propícia a receber o parque tecnológico. Temos que trabalhar em duas vertentes. A primeira é continuar o projeto de implantação do complexo universitário, seguindo aquele projeto do Gustavo Penna, naquela dimensão para 10 mil alunos e uma comunidade de servidores e professores de 2,5 mil. Aquele campus é uma meta que precisa ser alcançada. E, paralelamente, é o momento de entrarmos com o parque científico e tecnológico, principalmente pelo momento que a própria cidade vive. Temos uma mina que opera desde 1942. É uma mina onde o minério já é mais pobre e o custo de produção, mais elevado. Temos uma crise de preço no mercado internacional, então é uma cidade que tem o ciclo da mineração em vias de se exaurir.
 
Dentro de tantos projetos, você acha que o parque é prioridade?
Itabira precisa de um projeto que seja estruturante para o futuro. Não teremos a mineração por muito tempo. Isso é fato. Então precisamos de uma atividade que nos dê uma plena diversificação da atividade econômica para que, com o eventual término de operação da Vale, haja a emancipação econômica do município. A Vale está aqui há muitos anos e a gente sabe que o minério de hoje não é mais o que era no passado e que existe um problema de competividade. Sabemos também que o minério só dá uma safra. Precisamos urgentemente de trabalhar num projeto estruturante para que Itabira possa caminhar no futuro sem a Vale. Por isso vejo que deve haver uma prioridade muito grande para esse projeto, que é um divisor de águas: a cidade sai do extrativismo mineral e passa para a indústria da geração do conhecimento (a universidade) e da produção de tecnologia (o parque tecnológico). Indústrias que eram importantes no passado estão sucumbindo à nova ordem mundial. A mineração não tem mais a capacidade de remunerar os stakeholders como antes. E a gente vê que outras indústrias, como a siderurgia, também estão terminando seus ciclos no Brasil. A Usiminas, por exemplo, vive uma situação crítica. Está à beira de um colapso e vai necessitar de um aporte vultoso de recursos que vai gerar um problema muito sério para a região do Vale do Aço. Ipatinga está estruturada na Usiminas, assim como Itabira está na Vale, Monlevade está na ArcelorMittal, Volta Redonda está estruturada na CSN, Ouro Branco na Açominas. E isso é um risco muito grande. O Brasil está vivendo hoje o que os Estados Unidos viveram na década de 1970, que é o fim da siderurgia. O aço chinês chega aqui mais barato que o aço da Usiminas.
 
Seria possível construir o parque tecnológico em outro terreno que não seja aquele ao lado da Unifei?
Veja bem. Ele tem de ser próximo à universidade. Se não for ali, acho que complica muito por dois motivos: primeiro é que quando você forma um parque desse perfil, o objetivo é atrair empresas de vários países.  O parque tem a função de gerar emprego e renda, principalmente diante de uma atividade que vai entrar em declínio, que é a mineração. Temos que trabalhar também na questão das pessoas que serão demitidas. Estamos vendo na mídia indicativos de demissão na Vale para este ano, parece que se fala em 1.400 funcionários em Itabira. Como ficam esses profissionais da mineração? Onde eles serão recolocados?
 
Parque industrial e Apac podem conviver no mesmo espaço?
Vejo que os projetos não podem ser conflitantes. Ambos são de interesse da sociedade. A Apac tem o interesse social, que é a reinserção do condenado à sociedade. E a gente tem que ter elementos de atratividade das empresas. Temos de criar um cenário atrativo. Você pensa bem, uma Siemens ou uma Microsoft tem políticas com relação à segurança. E tem mais: Itabira não é a única cidade que está buscando atrair empresas com parque tecnológico. Temos concorrentes e grandes, como Divinópolis, Uberaba e outras cidades de Minas Gerais. Temos um diferencial competitivo que é a Unifei, mas também elementos que dificultam, como a BR-381 e a falta de um aeroporto. 
 
O que temos pronto em termos de projeto para o parque tecnológico?
Temos o projeto conceitual. Precisamos partir para o projeto básico e, depois, para o executivo.
 
Quais os atrativos o parque deve ter para as empresas se interessarem em investir?
Primeiro a universidade. Essas empresas só estão presentes onde tem boas universidades. E isso a gente tem. Esse campo já foi arado. Segundo: você precisa de uma área com um plano de urbanismo, sistemas viários, redes básicas de infraestrutura, como esgoto, água, telefone, internet, etc. Diferentemente dos distritos industriais tradicionais, no parque não acontece doação de área. A empresa tem o usufruto do terreno, mas ele continua sendo do parque. Se a empresa resolver deixar o local dez, 15 anos depois, ela tem de entregar a área e todas as instalações.
 
Há multinacionais tecnológicas interessadas em vir para Itabira?
Desde 2005 que os contatos foram feitos. Eu estive na Espanha juntamente com o então prefeito João Izael e assinamos um contrato com uma empresa do parque tecnológico de lá. A própria Microsoft demonstrou interesse em vir para cá. Não só para a minha pessoa, como para a própria universidade – desde que tenha o parque. E há outras. As empresas de tecnologia ficam perto de grandes centros de pesquisa porque dali saem as novas ideias. Já o distrito industrial como conhecemos é uma concepção da Segunda Revolução Industrial.
 
Qual o conselho o senhor dá às autoridades itabiranas?
O parque tecnológico precisa estar próximo à universidade e, para isso, há a necessidade de um plano diretor de urbanismo que proteja aquela região contra uma exacerbada valorização econômica. Tem de proteger, inclusive, para propiciar o crescimento de tudo aquilo ali. O Brasil é um país que vive de commodities e esse ciclo está acabando. Vejo o seguinte: o fomento que o país precisa dar a partir de agora é na tecnologia, essa é a prioridade. Vamos pegar um exemplo de um país que não era absolutamente nada há 50 anos, o Vietnã. Hoje o índice de produção tecnológica de lá é maior que o Brasil. Tem um programa espacial que dá gosto. Por que entendeu a necessidade de mudar de patamar, de se industrializar, mas na indústria do conhecimento. A indústria de base tem um ciclo de permanência em cada país. A partir do momento que fica caro produzir, ela deixa de ser competitiva e vai para outro local. Estamos vivendo isso no Brasil com a mineração, o aço e as commodities agrícolas.