Matéria publicada na edição 264 da Revista DeFato
Que criança não gosta de passar horas em meio a variadas brincadeiras? Jogar bola, andar de bicicleta, videogame… O itabirano Samuel Filipy, de 5 anos, não foge à regra. Quando não está na escola, se distrai brincando com carrinhos e jogos de montar. Um de seus prazeres é receber amigos em casa. Quem o vê, jamais imagina que o garotinho tímido, mas alegre, luta há quatro anos contra um linfoma de Hodgkim, forma de câncer que se origina no sistema linfático.
Lutar é um verbo que descreve fielmente a vida do menino e sua mãe, a dona de casa Roselaine Alves Pereira, 43. Ela teve um câncer de mama em 2004, passou por cirurgias de retirada do ovário, do útero e no ano passado, da bexiga. Na época em que retirou o ovário, há 13 anos, havia feito ligadura de trompas. Mas em 2009, mãe de duas adolescentes, ela se descobriu grávida de Samuel. A mulher estava em tratamento, mas preferiu abrir mão para dar continuidade à gestação. Faltando apenas um mês para que Samuel completasse um ano de vida, foram descobertos tumores no umbigo, na coluna e no abdômen da criança. Meses depois, foram detectadas outras dezenas. Mesmo com a doença, o garoto é exemplo de superação. A mãe se derrete: “Ele é um menino muito tímido, mas muito feliz e sorridente, que conquista a todos por onde passa”.
Apesar da doença, a alegria de viver faz de Samuel uma pessoa especial. Mesmo com a descrença da medicina, a mulher se apega à fé e crê na cura. “A última palavra virá é de Deus”, afirma. A crença é ensinada cotidianamente ao garotinho, que diz que será pastor evangélico quando crescer e ajudará crianças doentes.
Além da enfermidade, um dos maiores desafios da família são os gastos excessivos com os tratamentos da criança. A prioridade é dar o melhor para Samuel. “O meu único objetivo hoje é lutar pela vida do Samuel e fazê-lo muito feliz. Não deixar lhe faltar nada enquanto estiver comigo, pois Deus simplesmente me emprestou por um tempo”, diz a mãe. Ela confessa que já teria desistido de tudo “se não tivesse um Deus tão grande” que a faz recarregar as forças para continuar lutando pelo filho. Roselaine crê que o guerreirinho tem um legado. “Ele é um menino muito especial, iluminado por Deus e a missão dele é falar e demonstrar amor às pessoas. Tenho certeza, o Samuel foi um escolhido d’Ele”, afirma.
Contrariando as expectativas
Histórias de superação como a do garoto Samuel são escritas todos os dias, por guerreiros que resolveram que as limitações não seriam empecilhos para a conquista de objetivos. Que o diga a aposentada Maria Geralda Silva. Aos 80 anos, ela costura, borda e escreve. Mas um detalhe: a idosa não tem as duas mãos.
A itabirana da comunidade do Turvo sofreu um acidente aos dez anos, quando ajudava as tias a moer cana na zona rural de Bom Jesus do Amparo. Como ainda era criança, muitos pensavam que nunca mais conseguiria trabalhar. Mas ela não desistiu. Na época, o pai havia desaparecido e a mãe trabalhava na roça para cuidar das fi lhas – ela era a mais velha e também ajudava.
O acidente que quase custou a vida da itabirana aconteceu na década de 1940. Diante da situação, todos se desesperaram, sem saber o que fazer. Na época carro não era comum e ela acabou passando a noite ferida em casa. Os parentes buscaram socorro só no dia seguinte pela manhã. Após uma cirurgia feita em Santa Bárbara, o médico responsável pelo atendimento, doutor Darcy Mota, continuou a ajudando. “Digo que sempre encontrei anjos em meu caminho”, afirma.
Mesmo sem as mãos e parte dos braços, Maria Geralda aprendeu a ler, escrever, faxinar, costurar e bordar. Fez muitos vestidos, inclusive de noiva, e ensinou outras pessoas a arte da alfaiataria. Mais tarde, ela se mudou com a mãe para a cidade onde, num asilo, foi cuidada por uma irmã de caridade francesa. A idosa conta que pessoas próximas e até parentes sugeriram que sua mãe a levasse à Serra do Piedade para pedir esmolas. “Eles diziam que devido à minha triste condição ganharia muito dinheiro. Aquilo me deixava muito triste”, recorda.
Mesmo com a limitação, ela sempre queria aprender alguma coisa. “Quando eu conseguia fazer alguma coisinha, me sentia gente”, desabafa. Escrever, então, foi motivo para festa. Sob os cuidados da irmã de caridade, aprendeu a falar francês e fazer trabalhos de faxina considerados complicados para uma pessoa na sua situação. “Faxinava com muito cuidado para não quebrar nada. Pensava que se eu fi zesse tudo atrapalhado seria uma tristeza. Então trabalhava sem fazer bagunça”, conta.
Apesar de todas as dificuldades, ela nunca se desesperou. Só não se casou porque as irmãs não eram de acordo, com medo de que sofresse com alguma exigência do marido. Mas pretendente ele teve – e mais de um. “A gente nunca deve se desesperar, porque tudo tem saída. Minha alegria é poder fazer alguma coisa todos os dias. Nunca devemos nos desesperar porque Deus está na frente e com ele a gente chega lá”, manda seu recado.
Campeão da vida
Quando tinha 7 anos, Athos Martins da Costa tocava violão, andava de bicicleta e fazia coisas normais para uma criança daquela idade. Mas aí veio um acidente automobilístico e o rapaz acabou tendo que amputar parte de seu braço esquerdo. A tragédia ainda levou os seus pais. Após o fato, teve de reaprender a fazer as coisas mais simples, como amarrar os sapatos. “Quando consegui amarrar os sapatos, percebi que nada mais seria impossível para mim”, diz.
Duas décadas depois, o morador de Santa Bárbara não só reaprendeu muitas coisas, como aprendeu a conviver com a defi ciência. Mais ainda, virou ciclista e se tornou um grande campeão. Com apenas uma mão, ele se arrisca em competições esportivas e coleciona muitas vitórias. Dono de quase 50 títulos, o atleta é a prova de que determinação e ousadia independem de limitações físicas. Tanto que ele não só encara as categorias para-desportista, mas também as normais, sempre com ótimos desempenhos.
Athos iniciou no esporte aos 22 anos, quando ganhou uma bicicleta e se aventurou em disputas de mountain bike e de velocidade. Para o ciclista, o melhor das disputas é o gostinho de se sentir desafi ado. “Sou movido a desafio. Em 2009 resolvi pedalar de Belo Horizonte a Santa Bárbara. Gastei 11h para percorrer cerca de 115 quilômetros”, conta. Foi aí que se descobriu um apaixonado pelo esporte. No ano seguinte, o rapaz já estava nas competições.
O jovem ainda acha tempo para ensinar o esporte a crianças de sua cidade. Ele é professor de ciclismo da Escola de Iniciação ao Esporte da Prefeitura de Santa Bárbara. Neste ano de 2014, em agosto, Athos foi um dos oito brasileiros que participou do Campeonato Mundial Amador, em Liubliana, na Eslovênia. Na competição, concorreu com atletas sem defi ciências. O santa- -barbarense precisou de uma bicicleta emprestada, porque a sua fi cou retida em Paris. “Competir com a bike que não é sua fi ca mais desgastante”, contou Athos.
No fi m da competição, o que ficou foi a experiência. Athos terminou na 719ª colocação entre os 730 atletas que percorreram os 156 quilômetros da prova, mas isso foi o que menos importou. “O que importa é que honrei a camisa do meu país e trouxe para casa uma medalha da União Ciclística Internacional (UCI) de participação no campeonato”, se alegra.
Do alto de seu exemplo de vida, o atleta receita: “Se algum dia tiverem dúvidas das suas capacidades, não tenham. É melhor arriscar coisas grandiosas, mesmo expondo-se à derrota e ao fracasso, do que ser pobre de espírito e viver na penumbra cinzenta, onde não se conhece vitória nem derrota". Falou tudo!