Anos de estrada

A aposentada Ilda Célia já viajou por vários destinos

Anos de estrada

Matéria publicada na edição 263 da Revista DeFato

"Que descansar, que nada. Depois que morrer a gente vai descansar muito, não é? Eu quero é viver e é isso o que eu faço”. É esse o espírito de vida da professora aposentada Marlene Porto, de 71 anos, de Itabira. Ao contrário de muitas pessoas que ao encerrarem a carreira profi ssional fi cam em uma cadeira de balanço vendo a vida passar, Marlene troca facilmente o repouso num local tranquilo por incontáveis e divertidas viagens.

A professora começou a pegar a ponte aérea em 1994. Viúva há 13 anos, a disposição para viagens vem desde quando o marido ainda era vivo, apesar de que o companheiro não compartilhava dessa mesma ocupação. Em 20 anos de andanças, já percorreu inúmeros estados. Conheceu todas as capitais do Nordeste, Norte e Sul do país, passou por São Paulo e Brasília. Em outubro deste ano, se aventurou pelo exterior, em um tour pela Argentina e Uruguai. “Minha primeira viagem mais longa foi para Gramado/RS. Eu viajo pelo menos duas vezes ao ano, nem que seja para dentro do Estado”, conta. Nem mesmo uma grave doença e as sete cirurgias que enfrenta desde 2009 foram capazes de tirar a animação da aposentada, que, mesmo em recuperação, já encarou a estrada. Marlene teve a oportunidade de conhecer muitas pessoas, uma em especial, num cruzeiro em um navio espanhol, na baía de Santos. “Chegando lá eu arrumei um companheiro, o Joseph, porque fi car oito dias num navio sozinha é impossível, não é?”, conta, às gargalhadas.

Além de boas companhias, Marlene busca atrativos como teatros, bons hotéis e especialmente, casas de shows, já que adora em um bom forró. Mãe de três fi lhos, avó e bisavó, a professora aposentada conta com total apoio da família. Ela garante que as turnês feitas com a turma da terceira idade são sempre as melhores e mais animadas. O motivo, segundo conta, é que como os idosos têm menos oportunidades de extravasar, aproveitam tudo a que têm direito, pois já cuidaram da família e têm maior estabilidade fi nanceira.

“Viajar é uma coisa muito boa, te proporciona lazer, novas amizades, conhece muita coisa e sai do seu mundinho. Tenho certeza que tenho uma qualidade de vida muito boa”, comenta. E Marlene já traça planos para seu novo destino: em breve quer ir à França, Espanha, Portugal e Itália.

Sem pausa para o descanso

Assim que se aposentou do cargo de servente escolar em 1999, Ilda Célia Felipe, 81 anos, quis respirar novos ares. Então, nada melhor que viajar. Depois de uma vida inteira dedicada aos fi lhos, ao marido e ao trabalho, a idosa, que faz parte de um grupo de dança sênior da Aposvale, em Itabira, se juntou às colegas e partiu rumo à Blumenau, Santa Catarina. Isso no começo do ano 2000. Daí em diante, Ilda não parou mais e até hoje, pelo menos uma vez ao ano, pega a ponte-aérea ou as estradas do país.

Ilda ficou viúva há 45 anos. Ela conta que lutou muito para cuidar da família e que por isso se sente tão motivada a aproveitar a vida viajando. Um dos roteiros que mais lhe marcaram foi o Rio de Janeiro. “Gostei demais porque andei de bondinho e vi o Cristo Redentor. Tirei foto com ele. É bonito demais”, narra.

Difícil é enumerar os locais em que já passou: Poços de Caldas, Rio de Janeiro, Petrópolis, Teresópolis, Campo Grande, Rio Grande do Norte, Curitiba e Espírito Santo. Ilda também já pisou em terras paraguaias e argentinas. Nesse mês de novembro, ela passou uma semana em Fortaleza. Com 34 km de praias, a capital do Ceará é o paraíso para quem gosta do mar, coisa que a aposentada nem se importa, já que não entra na água quando vai para o litoral. A aposentada curte mesmo são os passeios, as conversas e as amizades.

A mulher confidencia que quando olha para trás se surpreende com a quantidade de locais em que foi. “Não pensava nunca na minha vida que ia conhecer tantos lugares do Brasil. Às vezes fico pensando: eu, com essa idade, viajando para tanto lugar? Isto é que é viver. Tenho que passear mesmo, pois já trabalhei muito”, diz.

Boas expectativas

A expectativa de vida do brasileiro aumentou 17,9% entre 1980 e 2013, passando de 62,7 para 73,9 anos, um aumento real de 11,2 anos. Com o envelhecimento da população, a parcela de pessoas acima dos 60 anos já responde por quase 18 milhões de viagens ao ano no Brasil, o que representa uma fatia de 8,9% do mercado nacional. Os números foram divulgados neste ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que aponta que em 10 anos os idosos representem 16% dos brasileiros e, em 2060, 34%.

Sem se esquecer desse público, agências de viagens buscam estimular pessoas da melhor idade a viajar mais. São os casos da Victoria Tour Viagens e Turismo, e DBrasil Viagens, de Itabira. As empresas têm cuidados especiais com a terceira idade e ajudam na escolha dos hotéis, dos passeios e alimentação. No caso de viagens em grupo, há a presença de um guia turístico.

Os próprios idosos não querem se sentir diferentes, procuram divertimento, alegria, e conhecer novos lugares, mas sabem de suas limitações. O diretor e proprietário da agência, Eustáquio Almeida Oliveira, explica que os pacotes devem ser bem analisados, “pois ninguém vai sair de casa para ficar tricotando dentro de um hotel”. Ele declara que pessoas da melhor idade são extremamente ativas e exigentes na hora de comprar um pacote turístico. “Idade não pode ser limitação para embarcar em uma viagem emocionante, muitas delas aguardadas por muito tempo. Então, nada de programação desanimada e sem graça”, diz Eustáquio.

De acordo com a gerente da DBrasil Viagens, Daniele Fonseca, as vendas de pacotes para a terceira idade correspondem, cada dia mais, a uma parcela expressiva nas metas da empresa, “com índice de crescimento acima da média”. “O Brasil nunca teve tantos habitantes da terceira idade com condições econômicas e de saúde, além de disponibilidade de tempo para viajar”, afirma.