Falta de centro de internação frustra delegado: “Podem se acostumar com os roubos”
Delegado Juliano Alencar disse que não adianta mais efetivo policial se não tiver espaço para manter os adolescentes fora de circulação
A falta de um centro de internação para menores infratores dominou as discussões sobre a onda de assaltos que vem assombrando Itabira, durante reunião entre empresários e representantes das polícias Militar e Civil nessa quinta-feira, 7 de agosto. O encontro foi liderado pela Associação Comercial, Industrial, de Serviços e Agropecuária de Itabira (Acita), após diversas reclamações dos empresários, principalmente donos de comércios noturnos. O delegado Juliano Alencar, da Polícia Civil, foi direto ao ponto. Sem centro de internação para os adolescentes, ele disse que não tem como trabalhar. “Podem se acostumar com os roubos”, afirmou.
Tanto a Polícia Civil quanto a Militar afirmam que praticamente todos os crimes contra o patrimônio registrados na cidade são cometidos por menores em conflito com a lei. Como eles sabem que não serão punidos, vão para a delegacia, ficam lá no máximo cinco dias (dependendo da gravidade do crime) e depois voltam às ruas. Juliano disse que nem para crimes graves, como homicídios e tentativas de homicídios, está havendo condições de acautelar os autores. Para crimes de furtos e roubos, nem adianta solicitar o Estado. Não há vagas.
Depois que o secretário estadual de Defesa Social, Rômulo Ferraz, esteve em Itabira, no fim do ano passado, e anunciou vagas em cidades da região, dez menores problemáticos foram tirados de circulação. Nos meses seguintes, dados apresentados pelo capitão Werner Leonardo dos Santos, representando a PM na reunião, mostram que houve uma queda na quantidade de ocorrências. Mas os espaços deixados pelos infratores foram preenchidos por outros e o índice de crimes voltou a subir. Hoje, de acordo com a Polícia Civil, há pelo menos oito novos adolescentes que são apreendidos constantemente por delitos diversos. Cada um deles já cometeu pelo menos dez assaltos.
“Locação” de arma
O delegado Paulo Henrique Moreira Campos, também presente no encontro, citou um fato que chamou atenção durante seu pronunciamento. Segundo ele, há entre os criminosos de Itabira o que pode-se chamar de “locação de arma” para menores. O adolescente, muitas vezes para comprar drogas, precisa cometer assaltos, mas não tem um revólver. Então ele recorre a outro criminoso, que lhe cede a arma e cobra parte do dinheiro do assalto em troca.
Acontece que, volta e meia, o menor assaltante é pego pela polícia, e a arma acaba apreendida. Quando ele volta para a rua, está devendo ao bandido um revólver e a comissão. Para pagar, precisa cometer mais crime e “locar” mais arma. Se for apreendido novamente e perder outro revólver, a dívida aumenta e ele entra num ciclo vicioso. Segundo o delegado Paulo Henrique, é apenas uma das nuances dos crimes registrados, quase sempre relacionados às drogas.
Quando ele falou isso, de novo as discussões voltaram a girar em torno do centro de internação. Se o assaltante adolescente for apreendido e ficar lá três anos (o máximo de tempo que a Justiça permite) há grande de chance de ganhar a liberdade com mais de 18 anos – e aí a história muda completamente.
Sem boas notícias
Representando a Prefeitura de Itabira no debate, a diretora de Proteção Social Especial da Secretaria de Ação Social, Natércia Aguiar Barbosa, não trouxe notícias animadoras sobre o centro de internação. Segundo ela, a Prefeitura disponibilizou à Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) três locais para construir ou adaptar o prédio: Brazuca, Belacamp e uma escola em ruínas próximo ao Itabiruçu. A equipe do Estado veio a Itabira e reprovou todas as sugestões. Ela fez questão de ler as justificativas enviadas pela equipe da Seds ao município.
Sem local, sem avanços. O centro, que teria 45 vagas, sendo 25 delas dedicadas a Itabira, custará em torno de R$ 4,5 milhões, dos quais a quantia de R$ 1 milhão aproximadamente já estaria assegurada em um fundo municipal. Natércia disse, inclusive, que dinheiro não é problema. A dificuldade está em achar uma área que atenda ao “padrão Seds”, como ela classificou. Enquanto isso, segundo os delegados, não têm como trabalhar.