Sob orientação da Associação Itabirana de Atletismo (Aita), pelo menos uma vez por semana, 70 adolescentes comparecem aos treinamentos de modalidades como saltos em distância e altura, arremesso de peso, dardo, disco e martelo, além das corridas entre 100 e dez mil metros. O local disponível para os exercícios é uma pista em péssimas condições, nos fundos da Escola Estadual Trajano Procópio Alvarenga Silva Monteiro, no bairro Água Fresca.
Francislene da Silva dirige e treina atletas vinculados à entidade, fundada em 1975 com o objetivo de inserir jovens no esporte e formar cidadãos. Segundo ela, a Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (Smel), oferece ajuda. “Bancam passagens para competições mineiras e alimentação básica, além de fornecer vale-transporte para os meninos que moram em bairros distantes para vir treinar”, declara.
Entretanto, as condições de treinamento, de acordo com a treinadora, não são as melhores. Os equipamentos são insuficientes, alguns em estado precário. Uma agravante é a estrutura da pista. Mede 250 metros, quando deveria ter 400. No entanto, as dificuldades não desmotivam. “Se um jovem obtém um bom resultado com uma estrutura desfavorável, quando chega para competir em uma pista boa, certamente competirá em alto nível”, afirma.
Como a maioria dos atletas, Larissa Marcelle Quintão, 25, começou cedo: desde os cinco anos, incentivada pelos pais. Trabalhando como professora do Ensino Fundamental, tem que conciliar a rotina puxada de treinos e viagens com a sala de aula. Pela falta de patrocínio, não consegue se dedicar exclusivamente ao esporte, tendo que teinar pela manhã e trabalha à tarde. “O único incentivo que tenho é da Academia Impacto, onde treino de graça”, conta.
Há cerca de um ano ela faz parte da HF Treinamento Esportivo, de Belo Horizonte. “Como moro em Itabira, meu treinador me envia as planilhas de treino e, então, faço os exercícios indicados sozinha, todos os dias”, revela a corredora.
Larissa lamenta por Itabira não ter pistas de atletismo, o que faz com que aqueles que correm, dividam as ruas com veículos, o que torna o trajeto perigoso e desvia o foco do exercício, além da qualidade do ar não ser favorável, pelo excesso de monóxido de carbono emitido pelos carros.
Ainda assim, a jovem atleta não esmorece. Seu resultado mais expressivo é recente: a medalha de bronze na 15º edição da tradicional Corrida dos Carteiros, realizada em Belo Horizonte, em 28 de janeiro. Participou também da última Volta Internacional da Pampulha, também na capital, da qual foi 18ª geral na categoria Feminino, entre três mil corredoras.
Confiante no próprio potencial, Larissa ainda espera conseguir patrocinadores.
Superação
A condição de surda e muda não impede a corredora itabirana Rogéria Conceição, 46, de obter bons resultados no esporte. Ela começou a correr aos 17 anos, mas afastou-se das corridas de rua por aproximadamente 16 anos, retornando em 2010, mesmo ano em que participou de 21 provas, vencendo oito delas.
Rogéria ostenta as melhores colocações entre corredoras itabiranas na Volta da Pampulha e na São Silvestre: 14ª e 25ª colocação geral na categoria Feminino, respectivamente, superando várias atletas internacionais de elite. No ano passado, ela disputou 22 competições, vencendo nove delas. Em apenas duas não esteve no pódio.
Em 2012, Rogéria já sentiu o gostinho da vitória. No dia 23 de janeiro, foi campeã do Circuito do Sol, corrida disputada às margens da Lagoa da Pampulha, na capital.
No último dia 5 de fevereiro, venceu a corrida Ragga Night Run, na Lagoa dos Ingleses. No dia seguinte, foi 3ª colocada na Maratona de Aniverário de Nova Lima, mostrando que a experiência é um de seus trunfos.
A atleta conta com o apoio da Equipe Speedy Fox, onde treina de graça, e do treinador José Carlos Moreira, que define as provas que ela participará, além de providenciar as inscrições e deslocamentos.
No momento, Rogéria também vive a dura realidade da falta de patrocínio. Por isso, todas as despesas que surgem, como as inscrições, viagens e hospedagens, são pagas com as premiações que recebe. Mas muitas provas não oferecem prêmios em dinheiro, limitando-se a troféus e, às vezes, a alguns brindes. Assim, nem mesmo o fato de ela estar sempre entre as melhores é garantia de que a corredora continuará a ter recursos para competir.
INCENTIVO
Há mais de dez anos se dedicando à Aita, a treinadora Francislene Silva reclama da falta de apoio de empresas de Itabira e região, algo que, segundo ela, favoreceria não só aos atletas, mas também aos patrocinadores. “São Paulo e Rio de Janeiro são grandes potências no esporte porque grandes empresas investem nos atletas, seja explorando a boa imagem deles ou com incentivos fiscais”, explica a treinadora.
Pela Aita já passaram diversos atletas de alto nível, como Thales Frederico, campeão brasileiro e da América do Sul e atual 1º colocado no Ranking Sul-Americano de Salto em Altura, de acordo com a Confederação Sul-Americana de Atletismo. Por falta de condições de se manter em Itabira, o desportista foi para a capital paulista seguir carreira.
Mas ainda existem em Itabira atletas com potencial e em condições de participar de campeonatos nacionais. A treinadora da Aita destaca Gustavo César, Gabriel Henrique, Camila Silveira, Sibele Souza e Milton Paulo como grandes promessas em diversas modalidades.
Segundo o secretário municipal de Esportes e Lazer, Oldeni José dos Santos, a Prefeitura apoia diversas entidades ligadas ao esporte. Conforme explica, durante o ano, tais entidades apresentam à Secretaria o seu cronograma esportivo e as planilhas de gastos. Os recursos são analisados e a verba disponibilizada, de acordo com as possibilidades e a demanda de cada uma. “Não existe um valor determinado, mas eles são filtrados, podendo haver contrapartida da entidade”, esclarece o secretário.
O presidente da Associação Comercial, Industrial, de Serviços e Agropecuária de Itabira (Acita), José Antônio Reis Lopes, tem consciência de que as entidades vinculadas ao esporte têm enfrentado dificuldades para receber apoio da iniciativa privada. “Ou o empresário investe porque realmente quer ajudar, independente do retorno, ou investe para ter retorno em termos de publicidade. Mas, para os que têm essa mentalidade, a publicidade direcionada dá retorno maior. E, em muitos casos, os empresários realmente não têm condições financeiras para patrocinar atletas, principalmente, os donos de empresas menores”, diz o presidente.
Segundo José Antônio, a situação não deve mudar, pelo menos por enquanto, pois não existem previstos projetos de incentivo ao esporte por meio da iniciativa privada.
Recentemente, a Aita firmou uma pareceria com o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente para custear despesas com uniforme e melhorar os equipamentos de treino. O convênio será celebrado em breve, segundo a treinadora Francislene, o que traz melhores perspectivas para o atletismo da cidade.
Realização
Na contramão do que vive a maioria dos atletas, se encontra o corredor Hudson Charles, de 35 anos. Atualmente, ele pode se dar ao luxo de ter o esporte como principal fonte de renda. Aproveita a experiência para trabalhar também como personal running.
Colecionador de mais de 350 títulos, Hudson competiu, somente no ano passado, em 30 corridas. Em 20 delas ocupou o degrau mais alto do pódio. Ao longo da carreira, conseguiu vários apoiadores e patrocinadores. “No ano passado, fui patrocinado pela Funcesi, que encerrou contrato no fim do ano, mas o renovará a partir de março deste ano”, revela.
Consciênte de que é uma exceção, Hudson vê a necessidade da criação de um centro olímpico em Itabira. De acordo com o corredor, para que a cidade não perca suas promessas, um passo importante seria o poder público investir nos atletas também com remuneração fixa, para que eles se dedicassem integralmente aos treinos. Para se ter uma ideia, uma boa sapatilha de atletismo (que costuma ter vida útil curta) não custa menos do que R$ 200 reais.
Os atletas itabiranos são unânimes em dizer que, pela arrecadação significativa, Itabira teria condições de construir um complexo esportivo e de criar projetos de incentivo ao atletismo. Enquanto 2016 não chega, o sonho olímpico de cada um se mantém aceso, mas sem que tirem os pés do chão.