História viva
Sylvio gosta de contar sobre as amizades que trouxe dos tempos de combate. Quanto aos campos de batalha, ele evita relembrar: “Era terrível. Bombas e minas por toda a parte”
Sylvio Martins Lage, 92 anos, pai de sete filhos, viúvo da primeira esposa e separado da segunda, mora sozinho em Itabira, no bairro São Pedro. Esse cidadão de quase um século de vida é uma das poucas testemunhas ainda vivas do maior conflito armado que já assolou o planeta: a Segunda Guerra Mundial.
Nascido em Itabira, mas descendente de família portuguesa (os avós vieram do velho continente), o 2º sargento tem muitas histórias para contar. Sylvio está lúcido, apesar da idade, mas fala pouco. Sobre o tempo em que enfrentou os inimigos do Eixo (chefiados pela Alemanha de Hitler), ele não gosta muito de relembrar. “Muitas bombas caindo em cima da gente, minas para todo lado. Coisa terrível”, narra. Ele prefere mesmo contar sobre as amizades e o que conseguiu depois que serviu à Força Expedicionária Brasileira (FEB).
“Entrei como soldado, mas fui promovido rapidamente, porque tinha mais instrução”, diz, ao informar que ficou por nove anos nas Forças Armadas. Entre 1944 e 1945, tempo em que a FEB esteve na Itália, Sylvio gerenciava a frota de caminhões, que transportava a tropa e os armamentos, além dos tanques blindados. “Fiquei pouco tempo frente a frente com o inimigo, mas presenciei várias cenas tristes”, lamenta.
Ele chegou a estudar para ser médico, antes de se aventurar na carreira militar. Concluiu o “pré-médico”, que é semelhante ao atual pré-vestibular. Depois acabou virando soldado e pediu para ser selecionado. “As pessoas costumam não acreditar, mas pedi para ir para a guerra. Eu era jovem e gostava de aventura”, afirmou.
De volta ao Brasil, o veterano ficou sem emprego. Sua experiência no exterior, no entanto – que lhe rendeu noções de idiomas como inglês, italiano e alemão – logo se fez valer. Sylvio trabalhou como administrador na Acesita, no Vale do Aço, e na Vale, em Itabira, antes de se aposentar. Segundo ele, não existe nenhuma correlação entre sua atividade militar e o mundo corporativo. “Mas eles achavam que tinha, né. Então aproveitei”.
Os companheiros de batalha são para ele eternos, de quem o velho combatente se lembra com carinho. “Os amigos da guerra não são como os que a gente faz hoje em dia. Amigo de guerra é amigo mesmo. A gente pode confiar”, compara.
Sozinho
Apesar dos filhos, netos e bisnetos, o itabirano vive sozinho numa casa confortável, de três pavimentos. Sobre se casar de novo, ele é categórico: “Antes só do que mal acompanhado”. Na sala de estar, fotos e condecorações dos dias de luta estão expostas. Uma memória que faz parte da história do Brasil.
Sylvio diz que sempre é convidado a participar das confraternizações dos veteranos, mas dificilmente comparece. As informações sobre os amigos combatentes, que lutaram com ele na Itália, chegam por meio do jornal da Associação Nacional dos Veteranos da FEB.
FEB
A Força Expedicionária Brasileira (FEB) foi a força militar nacional, composta por 25.334 homens, que lutou ao lado dos Aliados (União Soviética, Estados Unidos e Império Britânico) na Itália, durante a Segunda Grande Guerra. Adotou como lema “A cobra está fumando”, em alusão ao que se dizia à época: que era “mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra”.
Os números brasileiros do combate estão registrados nos jornais que o itabirano recebe periodicamente: 465 mortos, 2.722 feridos, 35 prisioneiros e 23 desaparecidos. Os inimigos aprisionados e equipamentos apreendidos pela FEB também foram anotados: dois generais, 892 oficiais, 19.689 praças, 80 canhões, além de 5 mil viaturas e 4 mil cavalos.