Escândalos no meio político afastam os jovens das urnas
“Casos de corrupção geram desânimo à juventude”, diz Rudá Ricci
A disputa eleitoral, momento em que a democracia é consumada por meio do voto, vem despertando menos a atenção do eleitorado jovem, tanto no Brasil quanto em Minas.
Dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revelam que, entre as eleições de 2006 e o pleito deste ano, em Minas Gerais, houve queda no número de eleitores na faixa etária que agrupa jovens de 16 e 17 anos, cujo voto é facultativo. Há quatro anos, havia 250.203 eleitores com menos de 18 anos no Estado. Hoje, esse número caiu para 247.339. Ou seja, dos cerca de 14,5 milhões de eleitores mineiros, apenas 1,7% têm entre 16 e 17 anos. Em 1989, na primeira eleição em que o direito ao voto foi facultado aos menores de 18 anos, os jovens representavam 4,45% do eleitorado.
Na média nacional, também houve queda, de 6,8%. Na última eleição presidencial, havia 2,5 milhões de jovens nessa faixa etária. Neste ano, os inscritos chegam a 2,3 milhões. Dentre as estratificações no número de eleitores aptos a comparecer às urnas no dia 3 de outubro, essa foi a única camada em que houve redução.
Desinteresse. Essa queda preocupa especialistas e juristas. O desinteresse dos jovens pode estar atrelado aos recentes escândalos envolvendo o poder público. Para o doutor em ciências sociais Rudá Ricci, houve uma oscilação no perfil social dessa camada de eleitores. "A partir dos anos 80, havia jovens mais politizados, mas, após os anos 90, a classe política começou a ser vista com descrédito e desinteresse pela juventude", analisa o especialista. "Além de haver no país um sistema partidário antiquado, os casos de corrupção geram desânimo à juventude. Hoje, o jovem deixou de ter uma referência no meio político", explica Rudá Ricci.
Já o presidente da comissão de direito eleitoral da sessão mineira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-MG), Rodolfo Viana Pereira, atribui a redução a um conjunto de fatores. "Perceber o menor interesse do jovem é um assombro. Falta uma revisão das ações políticas por parte de partidos, movimentos sociais e das instituições. Em vez de analisar causas, é importante pensar nas consequências. Essa responsabilidade deve ser construída desde a infância", destacou Rodolfo Pereira.
Em abril, foi lançada no país pela União Nacional dos Estudantes (UNE), com apoio da Justiça Eleitoral, a campanha "Se Liga 16", para incentivar o alistamento de jovens. Apesar da redução no número de eleitores entre 16 e 17 anos, o assessor chefe da Corregedoria Eleitoral do TSE, Sérgio Cardoso, não acredita que a campanha tenha sido pouco receptiva. "Não há como determinar o que levou à queda. Isso demandaria um estudo. As campanhas sempre geram esclarecimentos importantes", afirmou.
Adolescentes deixam o direito de votar em segundo plano
O posicionamento de juristas e especialistas é corroborado por estudantes, entre 16 e 17 anos, ouvidos por O TEMPO. Lucas Rocha, morador de Belo Horizonte, diz ter desinteresse pela política. "As últimas denúncias relativas ao Congresso me deixaram desanimado e descrente", afirma o estudante de 16 anos, que não tirou o título eleitoral.
Já Luiza Reis Machado, 17, disse que não se alistou por ter outras prioridades. "Com a correria da escola, acabei perdendo o prazo. A gente só perde o prazo porque não é obrigatório. Na próxima eleição, eu já terei que tirar meu título", garante a estudante.
Por outro lado, mesmo entre os jovens que se alistaram junto à Justiça Eleitoral, o interesse pela política não está em alta. A adolescente Helena Andrade, 17, que mora na região da Pampulha, disse que tirou o título eleitoral apenas em razão do incentivo dos pais. "Meus pais me disseram que seria importante votar. Então, resolvi tirar o meu título", resume a estudante. (AA)

Entre o eleitorado mineiro, neste ano, o número de meninas supera o de rapazes na faixa dos 16 e 17 anos – 51,3% contra 48,7%, de acordo com os dados divulgados pelo TSE.
No cômputo geral, o número de eleitores em Minas cresceu 6,8% em relação a 2006. Minas permanece como segundo maior colégio eleitoral do país, atrás de São Paulo. São 14,5 milhões de eleitores em Minas – 10,6% do total nacional. Em 2006, havia 13,6 milhões de eleitores no Estado.
As mulheres permanecem liderando o eleitorado mineiro. São 7,4 milhões, ou 51,4% do total, contra 7,1 milhões de homens, ou 48,6%. Outros 16,9 milhões de eleitores não informaram o sexo. Nas eleições de 2006, em Minas, havia 6,9 milhões de mulheres e 6,6 milhões de homens.
Os cidadãos com mais de 70 anos, que assim como os jovens entre 16 e 17 anos não são obrigados a votar, totalizam 1,1 milhão de eleitores em Minas, com 599 mil mulheres e 489 mil homens.
A tendência de maioria de eleitoras no Estado se repete em Belo Horizonte. São 985 mil mulheres, ou 53,9% do total, e 843 mil eleitores do sexo masculino na capital mineira, o que corresponde a 46,1%. Um total de 1.506 eleitores de Belo Horizonte não informou o sexo. (AA)