São José dos Campos tem receita anual de R$ 1,5 bilhão. O que fazer com tanto dinheiro?
São José dos Campos, 615 mil habitantes, área territorial de 1.100 km², localizada no Vale paulista do Paraíba, às margens da Rodovia Presidente Dutra, servida por outras rodovias importantes, modernos aeroportos (Guarulhos e Viracopos), portos de Santos e São Sebastião, tem o mais recente destaque chamado Parque Tecnológico. Sede do Departamento de Ciência e Tecnologia […]
São José dos Campos, 615 mil habitantes, área territorial de 1.100 km², localizada no Vale paulista do Paraíba, às margens da Rodovia Presidente Dutra, servida por outras rodovias importantes, modernos aeroportos (Guarulhos e Viracopos), portos de Santos e São Sebastião, tem o mais recente destaque chamado Parque Tecnológico. Sede do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial — DCTA e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais — Inpe, a sua aposta tem como base agora somente o futuro. Quer dizer, o presente está garantido, mas seus executivos pensam a longo prazo. Talvez por receio de uma nova crise, como a que a atingiu nos anos 1980, em virtude da revolução tecnológica, que obrigou o mundo a mudar o uso de equipamentos, estejam trabalhando dessa forma, de olho na frente.
DeFato, nesse caso específico, está apresentando matéria completa em sua edição impressa, que chega aos leitores neste início de semana. Com o prefeito Eduardo Pedrosa Cury (PSDB), em entrevista, viu o ângulo atual, o da grande arrecadação do município, das maiores do país e a sua visão do porvir. Acompanhem a entrevista a seguir.
Eduardo Cury falou com o prefeito de Itabira, João Izael Querino Coelho (PR) e com o presidente da Câmara Municipal, Neidson de Freitas (PP), junto da comitiva itabirana que visitou, em 12 de julho, São José dos Campos. Recebeu e deu presentes aos itabiranos. Falou à imprensa presente. Eis a entrevista:
São José dos Campos precisa de um Parque Tecnológico, ou é um luxo?
A economia está vivendo hoje na base de investimentos que foram feitos no passado. Nós, líderes, governantes, resolvemos pensar mais no futuro, no Parque Tecnológico como modelo, que serve para São José, para Itabira, para uma porção de cidades no Brasil. Nele se somam as empresas locais, as de conhecimento que são as universidades, as escolas, tudo isso junto ao poder público, visando a adotar um modelo do desenvolvimento a longo prazo. Se você tiver um modelo, vai estar imune a crises no futuro.
O mundo precisa se preparar para tudo isso.
Os investimentos que chegam são surpresas agradáveis para
as novas gerações?
É um fenômeno que está acontecendo agora. O nosso Parque é um dos equipamentos de geração de riqueza mais rápidos do Brasil, estamos recebendo um volume de investimentos de empresas que o povoam muito maior do que imaginávamos no passado. Mas é um fenômeno natural porque o jovem, principalmente, quer um emprego do futuro, então esse mundo novo pode proporcionar a ele desafios, pesquisas e gerar novas empresas que gerarão novos empregos.
Houve mudanças rápidas na cidade?
No primeiro momento, houve uma certa desconfiança, as pessoas questionavam o que é um Parque Tecnológico, como é esse parque, elas não sabiam, os governantes não sabiam direito também. Então, entender o que era um Parque Tecnológico era o primeiro desafio. No segundo momento, quando começaram a ver as coisas acontecendo, as empresas chegando, os empregos sendo criados, aí todos começaram a entender. Se você aliar o conhecimento, a inovação em um ambiente em que a empresa possa desenvolver, tudo isso já colado com as academias, as universidades, produzindo recursos que tenham empregos, porque geralmente as escolas estão muito voltadas para formar gente sem saber se existe mercado de trabalho, se aquelas pesquisas terão utilidade. Tinha gente fazendo doutorado, fazendo mestrado, coisas que não tinham nenhuma utilidade ao menos aqui. O nosso Parque faz todo mundo trabalhar junto, é conhecimento, mas é conhecimento aplicado, a tecnologia vai ser gerada num produto, que vai gerar competitividade para essa empresa, que vai competir no mundo, gerando novos empregos. Se nós tivermos empregos competitivos no futuro, é a estabilidade que todo mundo precisa para os seus filhos e os seus netos.
Administrar um orçamento de um bilhão e meio de reais é um desafio?
Agora já estou no segundo mandato, grande parte disso aqui que está na Prefeitura, são recursos “engessados”. As leis para o orçamento público impõem o seguinte: 25% no mínimo para educação; 20% para saúde, mas chegamos a 30% porque o povo assim exige e exige do administrador mais próximo que é o prefeito; programas sociais que, somados e com a folha de pagamento e encargos, chegam a 94% comprometidos, isso em todas as prefeituras do Brasil, acredito que não haja exceção; então, sobram 6% para investimentos. É um restante irrisório diante do total, mas temos que gastar bem, como fazer render os demais recursos, mesmo que “engessados”. Se houver crise, aí tudo se complica muito.
Quantos funcionários existem na Prefeitura?
Oito mil diretos, três empresas da administração indireda. A soma chega a aproximadamente 11 mil.
Na França o poder público está cada dia mais distante da participação em iniciativas econômicas; aqui o poder público toma o mesmo rumo; Itabira participa hoje com cem por cento. O que diz?
Não se assuste, a nossa participação no começo foi total também. Se o poder público não entrar, fica complicado. Então, tive que entrar, tive que comprar o prédio da Solectron, a área de expansão. No princípio, colocamos 23 milhões de reais no Parque Tecnológico e outros recursos vão sendo alocados. Se não tivéssemos investido, colocado no lugar e chamado as empresas, a iniciativa privada não teria se mexido, porque as universidades não vão esquentar a cabeça com isso, as empresas visam a lucros. É lógico que ao longo dos anos o poder público vai se retirando, mas no começo se ele não puder induzir, empurrar, fazendo isso, fazendo aquilo, o fato real e desejado não acontece. Ele tem o poder de chamar as empresas, Petrobrás, Vale, por exemplo. e pedir para participar do nosso pacto. Aí você começa a juntar os alunos, as universidades, as empresas e vão começar a gerar coisas que ninguém nem imaginava.
E os impostos?
Por enquanto, zero. As empresas estão se instalando e somente depois vão gerar impostos. Agora ainda estamos na fase inicial, não temos por enquanto um Parque Tecnológico auto-sustentável, mas ele será, sim, num futuro muito breve.
(Com Natália Sant’ Ana)