Taxas deixam compra sem juro mais cara

Pense bem antes de decidir trocar a geladeira. Você poderá cair na armadilha de levar o refrigerador em 12 vezes ou até 17 pagamentos ‘sem juros’, conforme anunciam as grandes redes de eletrodomésticos, num rompante em que deixará de calcular os gastos embutidos na compra. Para fugir dos obstáculos das prestações, a recomendação dos especialistas […]

Pense bem antes de decidir trocar a geladeira. Você poderá cair na armadilha de levar o refrigerador em 12 vezes ou até 17 pagamentos ‘sem juros’, conforme anunciam as grandes redes de eletrodomésticos, num rompante em que deixará de calcular os gastos embutidos na compra. Para fugir dos obstáculos das prestações, a recomendação dos especialistas em crédito é evitar as compras a prazo, que só devem ser usadas em caso de urgência. Se não houver outro jeito, a dica é sempre financiar o menor valor possível no prazo mais curto, seguindo as orientações reunidas num guia da compra a prazo elaborado pelo Estado de Minas, com base nas informações de profissionais com experiência na área de finanças e de instituições de defesa do consumidor.

“Se o cliente tem dinheiro para comprar geladeira de R$ 1 mil, mas foi convencido a optar pela compra a prazo por se tratar do mesmo valor à vista, deve se lembrar de que terá mais um item para compor o seu gasto mensal, nos próximos 12 meses”, alerta o consultor financeiro Erasmo Vieira. Segundo ele, ao juntar prestação sobre prestação, o salário pode ficar comprometido com pequenas parcelas, que atingem valor significativo no fim do mês. “Toda vez que você compra financiado o seu salário diminui. E toda vez em que liquida financiamento, o seu salário aumenta”, reforça.

Para se livrar das taxas de juros, a diarista Gislaine Aparecida Santana da Silva, de 40 anos, pediu socorro à patroa para comprar uma geladeira. Adquiriu a Cônsul à vista, por R$ 1,1 mil, e descontou o valor no contracheque, em quatro prestações de R$ 275. Antes de fechar o contrato, Gislaine já havia tentado negociar sozinha o valor na loja. A mesma geladeira sairia por R$ 1,299 em 10 vezes no crediário, fora o desconto do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), da garantia estendida por dois anos, seguro de perda e roubo de cartões e também de um seguro de vida, empurrado pelo vendedor da empresa.

“Os vendedores acham que as pessoas mais simples são mal informadas, mas não é isso. Eu acabaria aceitando o valor do crediário, que daria para comprar uma geladeira e uma tevê, porque é questão de necessidade, pois tenho filho pequeno e estou há três meses sem geladeira”, desabafa a diarista, sete filhos, moradora de Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana de BH.

Se o cliente perceber a cobrança de taxas não contratadas, ele tem direito à restituição em dobro, de acordo com o parágrafo único do artigo 42 do Código de Defesa do Consumidor, por se tratar de cobrança abusiva. Segundo Ione Amorim, economista do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), o artigo 39 do Código também prevê como prática abusiva “prevalecer-se da fraqueza ou ignorância do consumidor, tendo em vista sua idade, saúde, conhecimento ou condição social, para impingir-lhe seus produtos ou serviços”.

Estudos da Serasa revelam que quanto maior o número de parcelas oferecido ao consumidor maior é o risco de inadimplência. Segundo a empresa de análise de crédito, os juros crescem com o aumento do número de parcelas. Em alguns casos, a taxa mensal de encargos, paga em prestações, pode ser maior que a inflação do ano inteiro. Outro problema é que a maioria dos consumidores não faz planejamento a longo prazo. Antes mesmo de quitar as prestações referentes à compra de um pacote de viagem de férias, ele acumula as parcelas dos presentes do Dia das Crianças, em outubro. Além disso, não trabalha com a possibilidade de um imprevisto, como doença ou desemprego.

Com a alta da taxa básica de juros da economia, a Selic – remuneração dados aos investidores nos títulos públicos que serve de referência para as operações nos bancos e no comércio em geral – , por dois meses consecutivos, a tendência é que as dívidas subam na mesma proporção, ficando mais caras. O efeito da Selic já pode ser observado. Das seis linhas de crédito pesquisadas pela Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac), somente o cartão de crédito rotativo manteve sua taxa de juros média inalterada, sendo que as demais subiram em abril. A taxa média geral para pessoa física passou de 6,77% ao mês (119,48% ao ano) em março para 6,82% ao mês (120,71% ao ano) em abril.