A audiência pública sobre as demissões na Vale não teve participação de nenhum representante da empresa nesta terça-feira, 16 de dezembro, na Câmara Municipal em Itabira. Diversas entidades comerciais, sindicatos, representantes políticos de Itabira e região e deputados estaduais expuseram idéias, apontaram sugestões e afirmaram que o desemprego é uma causa preocupante. A grande maioria dos que compuseram a mesa ressaltou que a empresa poderia segurar mais antes de decidir cortar empregos. A audiência foi promovida pela Assembléia Legislativa de Minas Gerais, por meio de um requerimento do deputado Ronaldo Magalhães, também presente no encontro.
O tom dos discursos foi marcado por certa dose de indignação, apesar de alguns participantes dizerem que não se tratava de um movimento contra a Vale, mas de um momento de discussão para se chegar a um acordo. Ronaldo Magalhães disse que era possível entender a dificuldade da empresa diante da situação de recessão global, mas o lucro da mineradora foi grande nos últimos anos e ela teria condições de suportar mais tempo, antes de desempregar pessoas. “O dólar está supervalorizado e isso reflete nas vendas da empresa”, disse.
O deputado Antônio Carlos Arantes bateu na mesma tecla: “O minério está muito valorizado e o trabalhador não pode pagar a conta sozinho”, declarou, seguido do discurso forte e emocionado do deputado Carlim Moura, que foi mais enfático. "Precisamos rever as informações relacionadas à Vale. Sua situação financeira de dois anos atrás e os recordes estão em todas mídias", disse. Carlim citou uma fábula em que uma telha cai na cabeça da galinha e ela acha que o céu está desabando. Desesperada, a ave corre para a toca da raposa, leva as demais e são devoradas. "A Vale está falando que o céu está caindo. Na primeira turbulência, o trabalhador está pagando o pato", exclamou.
João Izael
João Izael, prefeito da cidade, afirmou também que a empresa poderia ter um pouco mais de sensibilidade. Ele contou que antes da cidade iniciar a atividade minerária, existiam diversas alternativas de geração de renda, como fábricas de tecido, empresas de agropecuária entre outras. “Com a chegada da Vale, a mão-de-obra foi transferida para empresa e a cidade passou a ser ainda mais dependente”.
João lembrou ainda que a situação das cidades mineradoras ainda é mais difícil nesse cenário de incertezas. Segundo ele, no ano que vem o orçamento terá uma queda de 30 milhões em função da desaceleração das atividades econômicas. “Esse é um momento de apresentar propostas”.
Calixto – apresentação de soluções
Assim como João Izael, o presidente da Acita, Reginaldo Calixto, assegurou que o momento é de apresentação de propostas e citou um diagnóstico feito pela associação como uma informação importante. “É preciso buscar a diversificação da economia local”, alertou, dizendo que a cidade é muito dependente da mineração.
Calixto distribuiu para os representantes da mesa uma cópia do relatório do diagnóstico contendo dados sobre os produtos e serviços que não são encontrados em Itabira. O presidente propôs também redução de impostos, linhas de crédito especiais para as micro e pequenas empresas, acordos trabalhistas e incentivo a compras locais. Diferentemente do que grande maioria dos presentes declarou, Reginaldo não falou especificamente sobre a decisão da Vale em demitir ou não.
Sindiextra: o lado das empresas
O chefe de relações institucionais do Sindiextra, Juninho Starling, foi um dos poucos que manifestaram opinião refletindo o lado empresarial – no caso, o lado da mineradora em questão. “Eu não estou aqui para representar a Vale, mas quero dizer que não adianta só querer manter os empregos. Tem que ver o lado das empresas”, pontuou.
Starling citou que em outras cidades como João Monlevade, as empresas estão adiando os investimentos, mas a Vale vai manter sua previsão. Houve, no momento da opinião de Juninho, uma iminente manifestação da platéia, mas a dirigente da audiência interrompeu os ânimos.
Paulo Soares
O presidente do Sindicato Metabase, Paulo Soares, em um discurso típico de sindicalista, disse que a Vale tem dinheiro para manter os salários de todos os funcionários por 15 anos. Ele atestou que a empresa quer manter seus lucros a qualquer custo e para isso, transfere para os funcionários o efeito cadeia da crise. Soares foi contra, também, às propostas de soluções apresentadas por Calixto e disse que “o problema é agora, a fome é agora”. “Devemos unir forças com todas as entidades e governos”, ponderou.