Após mais um avanço do Taleban, EUA e Reino Unido acusam massacre de civis
O Taleban controla 223 distritos afegãos, enquanto o governo apenas 68, incluindo a capital Cabul. Outros 116 estão em disputa — incluindo grandes centros urbanos
A menos de um mês da retirada completa das forças estrangeiras do Afeganistão, o Taleban ampliou sua ofensiva no Sul e já ameaça a capital da província de Helmand, uma das mais instáveis do país nas últimas décadas. No fim de semana, o grupo fundamentalista islâmico também lançou ataques na província de Kandahar, com ações contra o aeroporto regional e acusações de crimes de guerra feitas por EUA e Reino Unido.
De acordo com as forças de segurança afegãs, os combates em Helmand estão localizados na capital provincial, Lashkar Gah, onde os combatentes do Taleban se aproximam do quartel da polícia, de uma prisão e de outras instalações do governo.
Nem mesmo ataques aéreos afegãos e americanos os fizeram recuar. Moradores começaram a fugir da cidade antes do final de semana passado. “Estamos apenas esperando o Taleban chegar. Não há expectativa de que o governo consiga proteger a cidade”, afirmou ao The New York Times Mohamadullah Barak, morador de Lashkar Gah. Autoridades locais dizem que apenas as áreas centrais ainda não estão em poder do Taleban.
A cidade é alvo recorrente de ataques, sendo o mais recente deles em maio, uma ação que foi contida com o apoio aéreo dos EUA. Mas agora, com cada vez menos militares americanos (e, por consequência, menos aviões), as tropas afegãs se veem diante de um Taleban cada vez mais fortalecido, e sem muitas opções de reação.
Guerras urbanas
A ofensiva em Lashkar Gah se repete em outras capitais de províncias, marcando um novo capítulo no recente avanço militar do Taleban. Antes restritos a distritos rurais, o grupo passou a controlar áreas de fronteira, como nas divisas com Irã, Paquistão e Tajiquistão, e agora se volta às áreas urbanas.
Na segunda-feira (2), os governos de Reino Unido e EUA acusaram o Taleban de cometer crimes de guerra durante a conquista de Spin Boldak, cidade perto da fronteira com o Paquistão. Segundo os relatos, até 40 civis sem relação com as forças de segurança teriam sido mortos.
“O Taleban massacrou dezenas de civis em atos de vingança. Os assassinatos podem ser crimes de guerra”, disseram as embaixadas dos dois países no Afeganistão, em comunicados. “A liderança do Taleban precisa ser responsável pelos crimes de seus combatentes Se não conseguem controlá-los agora, vocês não têm lugar em um governo mais à frente.”
Segundo o site Long War Journal, o Taleban hoje controla 223 distritos afegãos, enquanto o governo apenas 68, incluindo a capital e maior cidade, Cabul. Outros 116 estão em disputa — incluindo grandes centros urbanos.
Kandahar é um dos casos mais emblemáticos. Segunda maior cidade do Afeganistão, e por muitos anos considerada “capital informal” do Taleban, está sob ataque dos combatentes do Taleban. No final de semana, o aeroporto da cidade foi alvo de pelo menos três foguetes, o que forçou a suspensão de todos os voos.
Diante do agravamento da situação de segurança, autoridades afegãs não escondem as críticas à decisão dos EUA de acabar com sua presença militar no país depois de duas décadas. A medida foi acertada após negociações entre o Taleban e os americanos no ano passado, e tinha como principal contrapartida a promessa do grupo de negociar um acordo de paz com o governo local.
Contudo, as conversas demoraram meses até sair do papel e hoje estão estagnadas. Enquanto isso, os militares estrangeiros vêm cumprindo seu cronograma de retirada, previsto para terminar em 31 de agosto, e o Taleban avança em áreas outrora sob controle de Cabul.
Na segunda-feira, o presidente Ashraf Ghani declarou que a crise de segurança é resultado da decisão “abrupta” dos EUA de retirar as tropas. Durante discurso ao Parlamento, Ghani apresentou um plano de segurança para “controlar o país em até seis meses”, sem detalhar o que faria para alcançar tal objetivo
Violações
Ghani também acusou o grupo de impor à população suas visões extremistas da Lei islâmica, principal marca do período em que comandou o Afeganistão, entre 1996 e 2001 – o retorno da repressão contra mulheres e minorias era um dos maiores riscos apontados por analistas diante do acordo para a retirada das tropas internacionais.
Há relatos de execuções sumárias em áreas próximas a Lashkar Gah, e muitos afegãos estão deixando o país com medo de potenciais retrocessos. Nas negociações com o governo, o Taleban ressalta que seu objetivo é a criação de um emirado islâmico, mas Cabul não concorda.
Afeganistão culpa saída dos EUA por avanço do Taleban
O presidente afegão, Ashraf Ghani, culpou a rápida retirada das tropas americanas pelo agravamento da violência em seu país e disse que seu governo agora se concentrará em proteger as capitais das províncias e as principais áreas urbanas diante do rápido avanço do grupo Taleban.
Ao falar ao Parlamento, Ghani pediu aos legisladores que apoiassem uma campanha de mobilização nacional contra o Taleban em meio a uma guerra cada vez mais intensa entre a milícia — que dominou o poder do país entre 1999 e 2001 — e as forças do governo afegão nos últimos meses. Ao mesmo tempo, as tropas dos EUA e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) concluem sua retirada de um país devastado pela guerra.
“Um processo de paz importado e apressado”, disse o presidente, em referência à pressão de Washington sob administração de Donald Trump por negociações entre Cabul e o Taleban. “Não só falhou em trazer a paz, mas criou dúvidas e ambiguidade entre os afegãos”, afirmou Ghani em seu discurso ao Parlamento. O presidente afegão chegou de helicóptero para a sessão extraordinária da Casa, convocada em razão da grave situação se insegurança no país.
Segundo ele, a decisão de retirar as tropas estrangeiras, consolidada sob o governo de Joe Biden, foi tomada abruptamente e o processo de paz se baseou em teorias imaturas. “Eu disse ao presidente dos EUA que, embora eu respeitasse sua decisão, sabia que teria consequências e isso recairia sobre o povo afegão”, disse Ghani.
O processo de paz promovido pelos EUA fazia parte do pacto histórico assinado por Washington e o Taleban em fevereiro do ano passado. Segundo acordo assinado com os insurgentes em Doha, os EUA concordaram em retirar suas tropas do país. “Hoje enfrentamos um grande teste nacional”, acrescentou o presidente, cujo governo enfrenta a pior crise de segurança do país em duas décadas de guerra, com o avanço sem precedentes do Taleban.
De acordo com a Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão, entre maio e junho, pelo menos 783 civis morreram e 1.609 ficaram feridos, o que pode tornar este um dos períodos mais sangrentos do país.




