Após restauração da estátua do Juquinha da Serra, escultora Virginia Ferreira relembra a criação do monumento

A artista plástica também é responsável pela estátua de Carlos Drummond de Andrade, instalada na “entrada” de Itabira

Após restauração da estátua do Juquinha da Serra, escultora Virginia Ferreira relembra a criação do monumento
A artista plástica Virgínia Ferreira – Foto: Reprodução/Vídeo

A reinauguração da estátua do Juquinha, realizada na última quinta-feira (7), no município de Santana do Riacho, marcou não apenas a entrega oficial da obra de restauração de um dos principais símbolos da Serra do Cipó, mas também um reencontro especial para a escultora Virginia Ferreira. Criadora da obra original, inaugurada em 1987, a artista plástica relembrou os desafios da construção do monumento, detalhou o recente processo de recuperação estrutural e destacou a importância da preservação do patrimônio cultural mineiro.

A restauração foi realizada entre agosto e dezembro de 2025, por meio de um acordo entre a mineradora Anglo American e o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), com recursos da Lei Rouanet e apoio da Prefeitura de Santana do Riacho. O trabalho foi conduzido pela própria Virginia Ferreira, responsável também pelo projeto original da escultura.

A arrtista conta que recebeu o convite para criar a homenagem a José Patrício, o Juquinha, justamente no início da carreira, pouco depois de concluir a graduação na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Eu estava recém-formada na Escola de Belas Artes, em ‘Escultura’, e eu ‘namorava’ a Serra do Cipó com a intenção de fazer uma escultura de criação, quando eu tive o convite para fazer a estátua do Juquinha. Então, isso aí, para mim, foi uma experiência muito gratificante”, relembra.

+ Símbolo da Serra do Cipó, estátua do Juquinha é reinaugurada

Para desenvolver a obra, ela se instalou durante cerca de um ano na Fazenda Palácio, na região de Santana do Riacho, onde montou um ateliê improvisado. “Eu morei aqui na Fazenda Palácio, aluguei uma casinha lá, foi feito o ateliê, de palha, por meio do prefeito Clério Lima, de Morro do Pilar. E, dessa forma, passei um ano fazendo essa obra”, conta.

A escultora explica que todo o processo foi artesanal: a modelagem aconteceu no ateliê improvisado, a escultura foi dividida em partes e depois transportada para a montagem definitiva. “Essa obra foi modelada lá nessa casinha da Fazenda Palácio, foi tirada a forma, feitas as partes de cimento através da forma, e foram trazidas 26 partes para esse local, através da caridade de um caminhoneiro. E, a partir disso, começou a montagem”, destaca.

Natural de Conceição do Mato Dentro, Virgínia Ferreira diz que a ligação afetiva com Juquinha vem da infância, quando ouvia histórias sobre o personagem que se tornou uma lenda na região. “Para mim foi um prazer muito grande [fazer a estátua], porque eu tinha ele muito na minha memória de infância. Então eu escutava tudo isso: ‘que comia escorpião’, ‘que mamou na loba’, ‘que dormia na Lapa’. Eu nem sabia o que era loba. Então eu ficava muito impressionada com tudo isso”, afirma.

Restauração devolveu segurança e identidade ao monumento

Quase quatro décadas após a instalação da escultura, Virginia Ferreira voltou ao local, desta vez para liderar a restauração do monumento, que apresentava desgaste estrutural causado pela falta de manutenção periódica.

“Eu fiz o projeto de restauração. Então, entrei pelo Ministério da Cultura, foi aprovado em 2022 e coincidiu que, acho que em 2022 [na realidade, em 2020], a Anglo American comprou o terreno. Por lei, o proprietário do terreno é que é o responsável pela manutenção, restauração de patrimônio histórico, obra de arte, patrimônio cultural”, revela.

Segundo ela, o maior problema encontrado foi justamente o longo período sem reparos. “A principal causa foram 25 anos sem trabalho de manutenção. Se fosse uma casa, teria o mesmo problema. Aqui, então, exposto o tempo todo, realmente precisa de trabalho de manutenção, pelo menos uma vez por ano, para ir sanando as pequenas coisas que vão acontecendo”, detalha.

Após restauração da estátua do Juquinha da Serra, escultora Virginia Ferreira relembra a criação do monumento
Estátua do Juquinha da Serra restaurada – Foto: Gustavo Linhares/DeFato Online

A artista também destacou a emoção de participar da recuperação da obra que ajudou a eternizar: “Eu digo graças a Deus porque esse trabalho é de Deus. Não tem outra explicação”.

Instalada em 1987 na região conhecida como Alto Palácio, às margens da MG-010, a estátua do Juquinha é tombada pelo município de Santana do Riacho desde 2021 por seu valor artístico, estético e simbólico.

A marca de Virginia também em Itabira, com Drummond

Além do Juquinha, Virginia Ferreira também é autora de outro monumento emblemático: a estátua de Carlos Drummond de Andrade, localizada na entrada de Itabira, próxima à praça do Areão. “Foi uma alegria muito grande ter feito esse trabalho, desde o projeto e a maquete computadorizada. São três metros [de escultura], em bronze, feita no meu ateliê, que era em Nova Lima. Foi uma alegria muito grande”, relembra.

Na concepção da obra, a artista buscou inserir referências simbólicas à trajetória do poeta itabirano. “Eu quis colocar naquele projeto como se eles estivessem em cima de uma carta. Então, como se fossem vários triângulos, lembrando papéis, e ele lá. Gostei muito de fazer esse trabalho”, finaliza.

Saiba mais sobre a restauração da estátua do Juquinha

Um dos principais símbolos da Serra do Cipó, a estátua do Juquinha foi reinaugurada, nesta quinta-feira (7), após passar por um processo de restauração entre agosto e dezembro de 2025. As obras foram realizadas por meio de um acordo entre a Anglo American e o Ministério Público do Estado de Minas Gerais (MPMG), com recursos via Lei Rouanet, e contaram com apoio da prefeitura de Santana do Riacho (MG). Os trabalhos foram conduzidos pela artista plástica Virginia Ferreira, criadora da estátua.

Localizado a aproximadamente 120 km da capital mineira Belo Horizonte, o monumento é parada obrigatória para turistas que visitam a Serra do Cipó, famosa por suas belas paisagens e cachoeiras. Instalada no ano de 1987, em uma área conhecida como Alto Palácio, a cerca de 110 metros das margens da rodovia MG-010, a escultura homenageia o andarilho José Patrício, mais conhecido como Juquinha, que viveu na região até 1983, ano de sua morte.