Cabelo e resistência: por que a fala do João é tão essencial à luta antirracista?

A situação vivenciada pelo participante do Big Brother Brasil mostrou o quanto os estereótipos enraizados reforçam o racismo

Cabelo e resistência: por que a fala do João é tão essencial à luta antirracista?
Foto: Divulgação
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Nos últimos dias, o reality Big Brother Brasil se tornou palco de uma importante pauta social. O episódio racista envolvendo o professor João Pedrosa, que teve o seu cabelo comparado à peruca de um homem das cavernas pelo cantor, e agora ex-bbb, Rodolffo, rendeu inúmeras reações e manifestações nas redes sociais.

O ocorrido veio a tona quando João, em um ato de coragem pessoal, externou seu incômodo e indignação durante o esperado jogo da discórdia, na noite de segunda-feira (5). Ao longo da atividade, o professor se referiu à fala de Rodolffo como uma forma de jogo sujo. “O jogo pode ser sim de coisas que a gente vive aqui dentro, mas ele tem que ser um jogo de respeito”, disse João.

Além disso, o assunto ocupou boa parte da edição do programa dessa terça-feira (6), a tradicional noite de eliminação. Quando o apresentador Tiago Lieifert, em uma quebra dos protocolos do programa, falou sobre como o cabelo afro é um símbolo de orgulho e resistência.

Dessa maneira, o Big Brother Brasil marcou muitos internautas e trouxe à tona questões importantes como a dor da denúncia de casos racistas, o empoderamento do cabelo afro e até a relevância de uma educação antirracista.

A situação vivenciada no reality também mostrou o quanto a visão estereotipada de determinados assuntos, reforçam o racismo. No caso do participante João, o que mais o incomodou, segundo relato pessoal, foi o fato de Rodolffo associar o cabelo afro, o crespo mais especificamente, ao sujo e bagunçado. Ato que substanciou o olhar equivocado de muitas pessoas às pautas raciais.

Em um desabafo, ao vivo, a influencer e também participante do programa Camilla De Lucas falou sobre seu cabelo e sobre o alongamento que usa. A sister, que se encontra em um processo de transição capilar, ponderou que ela não faz uso da peruca para esconder quem ela é, mas sim para trazer de volta algo que, durante anos, ela aprendeu a odiar.

Realidade de muitos

Tal realidade não é exclusiva de Camilla de Lucas e muitas outras meninas já passaram por isso. A atriz e percussionista Paolla Pity, uma das integrantes do grupo de tambor mineiro Meninos de Minas, entende tão bem essa realidade que hoje usa suas redes sociais para falar de autoestima e empoderamento.

“A minha forma de ser antirracista é falando de autoestima. Busco empoderar outras pessoas através das minhas experiências. Muitas vezes eu não fui considerada bonita porque não tenho o cabelo liso e nem a pele mais clara. Na escola, isso era motivo de vários apelidos que afetaram bastante a minha autoestima, fazendo com que eu fosse insegura, não só em relação à minha beleza, mas por ser quem sou”, relatou a artista.

O preconceito vivido por muitas Paolas, Joãos e Camillas ao redor do Brasil, reflete algo conhecido como racismo estrutural. O conceito pode ser facilmente encontrado no Google e consiste na formalização de um conjunto de práticas institucionais, históricas, culturais e interpessoais dentro de uma sociedade, usadas para exporem alguém ao ridículo.

“O próprio nome já diz, estrutura. O racismo está impregnado em nossa sociedade, às vezes de forma velada e outras não. A fala do Rodolffo, pra muitas pessoas não foi ofensiva, mas ela é de uma dor muito grande. Nossos cabelos foram vistos dessa forma por muitos anos, nos deixando acreditar que não era bonito. O que fez com que grande parte das pessoas negras se submetessem a usar químicas no cabelo para não ter apelidos ou se sentir mal. Ainda hoje, com uma aceitação maior de nós mesmos com as nossas raízes, o nosso cabelo continua sendo motivo de violência. O fato de um cabelo ser black impede algumas pessoas de terem um emprego por conta dele. Temos, a todo tempo, que responder perguntas do tipo: ‘como lava seu cabelo’ ou ‘é peruca?’, ponderou Paola.

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Foto: Arquivo Pessoal

Para a estudante de Arquitetura e Urbanismo, Laryssa Kele Silva Tércio, que começou na luta antirracista quando passou por sua transição capilar e que durante um tempo foi uma das administradoras do perfil Itabira Antirracista, o racismo está enraizado na cabeça das pessoas. Algo que, segundo ela, faz com que ele seja perpetuado de diversas formas, ao ponto de passarem despercebidas ou serem aceitas como normal. Contribuindo com uma visão que gera a manutenção de um sistema opressor e violento.

“O processo de desvinculo com o racismo é uma constante desconstrução, você não deixa de ser racista simplesmente por ter parentes pretos, alguns amigos, ou simplesmente por não fazer julgamentos explícitos. Muitas vezes ele é velado, e isso faz que ele esteja presente em nossa sociedade. Como, por exemplo, no caso de falas como a do Rodolffo, de pré-julgamentos baseados somente nas características físicas e por aí vai”, destacou Laryssa.

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Foto: Nonato Fotografia

Não foi por maldade, eu não sabia, ninguém me ensinou

Durante o confinamento, o cantor Rodolffo, ao ver a reação do professor, alegou que não teve intenção de ofender com o comentário. Ele ainda afirmou ter parentes negros que não ligam para esse tipo de brincadeira. Um pensamento que reforça a ideia do racismo estrutural.

“Acredito que esse tipo de justificativa é usada para anular a voz de quem realmente sente e sofre essa dor, da minoria. Ainda mais, diante desse contexto, essa atitude escancara o racismo estrutural, e ainda promove a manutenção dele. Visto que, ao justificar esse tipo de fala, várias pessoas podem passar a reafirmar tal estereótipo, de forma que seja reforçado”, explica Laryssa.

Paolla Pity levanta a hipótese de ausência de interesse em aprender. “Temos informação através da internet que, como uma pequena pesquisa no Google se descobre bastante coisa. Não só no mundo virtual, mas em filmes, novelas e no próprio BBB retratam como o racismo funciona. Então é uma questão de interesse. Quer aprender? Pesquise, converse com os amigos, família e mais importante, coloque em prática. E quando uma pessoa preta te falar que você teve uma fala ou uma atitude racista, não tente justificar e se explicar. Apenas ouça, peça desculpas e busque não repetir. Chega de justificar o injustificável”, disse.

Tiago Leifert fado sensato?

O discurso do apresentador do Big Brother Brasil, diante dos ocorridos na casa, resultou em diversas opiniões nas redes sociais e reforçou a importância de debater questões antirracista.

“Eu acho muito relevante trazer à tona esse tipo de discussão para um programa que tem tanta relevância no país. Pois, é capaz de gerar reflexões acerca do ocorrido e, mais uma vez, o compartilhamento de informações sobre a nossa luta. Isso se torna muito importante na hora de desconstruir esse racismo que é enraizado”, ressaltou Laryssa.

Contudo, há um outro lado do discurso do Tiago, mesmo tendo uma atitude relevante. É complicado perceber que muitas pessoas só entenderam a gravidade da situação do João, quando foi externada e analisada por um homem branco, como ponderado por Paolla.

“Foi muito importante o Tiago falar sobre isso, porque a todo tempo nós que somos pessoas pretas e vivemos a realidade, sempre falamos em como cada atitude e palavra nos magoa. Mas, muitas vezes, somos taxados de chatos e que a nossa dor é “mimimi”. Não somos ouvidos. Quando o Tiago, que é um homem branco, se posiciona e legitima a dor do João, as pessoas começam a entender que o buraco é muito mais embaixo. Não deveria ser assim, mas infelizmente é o que acontece”, concluiu.

O caso do Big Brother serviu para esclarecer para muitas pessoas que nem tudo está certo e, mais do que isso, que não é sobre “mimimi”. E que a dor do João é mais do que cabelo, é resistência e aceitação.

“Desde a minha infância, me questionava se era bonita suficiente, pois desde muito nova fui levada a acreditar que o meu cabelo era feio. Isso continuou por toda a minha adolescência, onde estes questionamentos eram mais intensos ainda, devido à pressão estética da mídia, familiar, e, principalmente, a gerada no ambiente escolar. Esses e outros fatores, faziam eu própria questionar a minha beleza inúmeras vezes”, relatou Laryssa.

Uma discussão que não pode ser encerrada

A empresária e gestora de eventos itabirana, Giovanna Couto Pinheiro e Neves, é líder do Comitê de Igualdade Racial no Mulheres do Brasil, diretora da Acita Mulher e embaixadora da Wine Eventos. Ela esclarece que, muitas vezes, é preciso que as pessoas vejam e ouçam quem sofre o racismo. Por isso, ela enviou um vídeo em que explica de forma direta como é essencial se colocar no lugar do outro. ]

“Enquanto a dor do outro não te atacar e não fizer diferença para você, o problema é em você! Imagina lutar uma vida toda para poder usar seu cabelo como ele nasceu? Não é só sobre cabelo”, enfatiza Giovanna. Confira o relato da empresária na íntegra.

Em tempo

De acordo com o Correio Braziliense, a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância do Rio de Janeiro (Decradi) abriu uma investigação contra Rodolffo, após fala racista sobre o cabelo de João Luiz dentro do confinamento. Segundo informações da delegacia, as imagens estão sendo estudadas para que possam dar andamento do caso.

“De acordo com a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), foi instaurado procedimento para apurar o crime de preconceito racial. Imagens estão sendo analisadas e as investigações seguem em andamento”, informou a nota.

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