Chance de aprender com os russos
Vladimir nasceu em Moscou, mas se mudou para o Brasil aos nove anos
Com o objetivo de estreitar as relações comerciais entre empresas mineiras e russas, o estado de Minas Gerais passa a contar definitivamente, a partir deste ano, com o Consulado da Federação da Rússia, instalado em Belo Horizonte. O cônsul Vladimir Kotilevsky de Carvalho será o responsável por promover o intercâmbio entre os dois países e possibilitar às empresas e instituições mineiras acesso ao enorme acervo de ciência, tecnologia e produtos russos ainda inexistentes no Brasil.
Tal acervo tem sido negligenciado e desperdiçado por ambos os países, na opinião de Vladimir, que nasceu em Moscou e se mudou para o Brasil aos nove anos. Em entrevista a DeFato, o cônsul ressalta que a Rússia detém grande conhecimento em beneficiamento de minério, devido à matéria-prima de baixo teor encontrada por lá. Ele citou como exemplos o projeto de beneficiamento do minério de anatásio para produção de titânio (tanto metálico quanto pigmento) e terras raras, valendo-se de tecnologia de ponta. Se feito no Brasil (e em Minas Gerais), o país e o estado deixariam de vender matéria-prima para exportar produtos com alto valor agregado. E isso pode ser feito com a ajuda do Consulado.
Vladimir esteve no lançamento do Workshop Itabirano de Negócios (WIN) no início deste mês e falou das expectativas com relação às cidades do interior de Minas. Na entrevista a seguir, ele fala também das ações na área cultural que começam a sair do papel e ressalta a importância da parceria com as universidades federais, como a Unifei.
Qual a missão do Consulado da Federação da Rússia em Minas Gerais?
O primeiro cônsul indicado para Minas Gerais, meu predecessor, Guilherme Emrich, foi dono da Biobras, uma fabricante de insulina. Quando aconteceu um terremoto na Armênia, ainda na época da União Soviética – há mais de 20 anos –, o Guilherme doou insulina para as vítimas, e em função disso acabou sendo nomeado primeiro cônsul da Rússia em Minas Gerais. Antes, Minas pertencia ao Consulado do Rio de Janeiro.
Guilherme ficou muitos anos como cônsul, depois assumiu um cargo público e precisou deixar o Consulado. Como eu trabalhava com ele há muitos anos, fui indicado para substituí-lo. Foi um processo que durou muito tempo. Tem de pegar sua ficha, sua biografia etc.
No final das contas, fui nomeado cônsul e descobri que o Guilherme nunca tinha feito um Consulado. Então, ficamos nesse ano de 2012 organizando esse processo. Fomos à Receita Federal conseguir o CNPJ, abrimos conta bancária e agora estamos operando. O ano de 2013 é o nosso primeiro ano real de operação.
O nosso objetivo não é coquetel, festa, apresentação. É, realmente, fechar negócios entre empresas mineiras e a Rússia. Vejo muitas complementaridades. O que existe, por exemplo, aqui em Itabira e em Minas Gerias como um todo, é uma imensa quantidade de matéria-prima que está sendo exportada como matéria-prima. No entanto, poderíamos ter indústrias de beneficiamento de minerais complexos, como o caso de terras-raras, o que daria um enorme pulo tecnológico para os especialistas locais. Você estaria trazendo tecnologias, gerando emprego de especialistas altamente qualificados e um produto agregado absolutamente gigantesco.
Como seria essa parceria Minas-Rússia?
O estado de Minas Gerais, talvez no mundo, é único na quantidade e qualidade de quartzo, por exemplo. O que é o quartzo? O quartzo, depois de purificado, é silício. Silício é material que pode ser usado para fabricar, desde painel de geração fotovoltaica (dispositivos utilizados para converter a energia da luz do sol em energia elétrica) a produtos eletrônicos, como o que você está usando (o cônsul se referia ao gravador), entre outras coisas que possuímos aqui. É um desperdício gigante.
Os americanos chegaram a Minas Gerais em 1946. Existe um vídeo que fala sobre a região em torno de Belo Horizonte. Eles começaram com ouro – falam das reservas, das indústrias; depois passam por minério de ferro, possibilidades industriais, etc.; e depois vão para o silício. Exatamente no final da Segunda Guerra Mundial, quando foi criado o radar pelos ingleses, começou a indústria eletrônica baseada no silício. Isso aqui é um possível Vale do Silício, onde temos a matéria-prima, a força de trabalho e a capacidade de gerar especialistas internamente. O que não temos é a experiência tecnológica que a Rússia pode trazer. O Consulado está aqui exatamente para intermediar, fomentar, dar uma proteção institucional aos relacionamentos empresariais.
O Consulado não é uma empresa, embora seja dedicado a negócios. Não assina contrato. O que faz é juntar a empresa mineira com a empresa russa e ficar olhando até o contrato ser fechado. Esse é o propósito.
Em que aspecto a Unifei, por exemplo, pode contribuir para estreitar o relacionamento entre Itabira e Rússia?
Sem dúvida nenhuma é um foco interessantíssimo que está na nossa pauta. No nosso relatório de 2012, enviado para a Rússia, tratamos exatamente das universidades, principalmente as federais, porque somos um órgão federal e temos contato com universidades federais russas. A contrapartida, logo, teria de ser com universidades federais no Brasil, jamais particulares.
Seria possível oferecer estágio, doutorado, mestrado do pessoal daqui na Rússia – o que é interessante especificamente para uma universidade federal de Itabira. Na área de metalurgia e química fina de minerais, não há ninguém no mundo como a Rússia. Aí você me pergunta por quê. Exatamente por causa dos minérios altamente problemáticos. Citei o anatásio (óxido de titânio), quando a Vale tentou trabalhar com os americanos e gastaram 80 milhões de dólares – isso há 20 anos – e não conseguiram resolver o problema do beneficiamento. Em 90 dias os russos resolveram a situação. Hoje a tecnologia avançou e a patente já é de domínio público; antes era só da Vale.
Especialistas da área de metalurgia e mineração daqui podem ir para a Rússia e “cair no colo” de quem vai falar o que tem que fazer. O profissional vai voltar com a capacidade de agregar riqueza para a matéria-prima que existe aqui, coisa que não é feita hoje.
Sim. Na área cultural queremos fazer mais ou menos a mesma coisa. Estamos começando com o balé porque é emblemático. Para o brasileiro, o Balé Bolshoi é um emblema. A minha esposa é ex-bailarina do Bolshoi e tem uma escola de balé em Belo Horizonte. Ela conhece muita gente e vai capitanear, extra-oficialmente, como uma consultora. Vamos levar mais ou menos um ano e meio para funcionar a todo vapor.
A ideia é, em primeiro lugar, trazer especialistas da Rússia para fazer o que ela já está fazendo: não dar aulas para crianças, mas para profissionais de balé. Minha esposa já está dando aulas para o pessoal do Palácio das Artes, do grupo Corpo, entre outros. Queremos trazer mais gente de alto profissionalismo de lá para lecionar para profissionais aqui.
Ao mesmo tempo, vamos fazer uma prospecção de gente muito jovem, escolher os melhores talentos disponíveis e levar para Moscou para fazer cursos. Tudo isso sob o guarda-chuva do Consulado, garantindo a segurança e a logística.
Outra área é a música. Já fizemos a transferência de dois meninos do Rio de Janeiro. Um deles este ano está fazendo a prova de conservatório de Moscou para violino. O outro está ainda começando, mas também se prepara para entrar no conservatório. Estas são as áreas que estamos atuando. É claro que temos o desejo de atuar também com literatura, cinema, teatro, entre outras.
Como surgiu o convite para o Consulado participar do Workshop Itabirano de Negócios?
Foi o Ricardo Heinz Gomes, nosso vice-cônsul administrativo. Ele conhecia o pessoal envolvido na organização do evento. Comentou comigo na hora que cheguei de Moscou da nossa participação aqui em Itabira. Eu disse, Vamos lá. O evento é muito importante porque tem a ver com os nossos projetos, com o nosso plano de desenvolvimento do Consulado. É exatamente um dos focos nossos de interesse.
Já passei para o prefeito e para o pessoal que veio me conhecer meu cartão de visitas, as nossas referências. Estamos à disposição. Ainda tem muita coisa em organização no Consulado, como sede, secretariado, telefone e essas coisas. Mas até lá acredito que estejamos em “voo livre”. Estamos tentando montar um estande do Consulado aqui no evento, para ter a oportunidade de apresentar o material e dialogar com calma com os empresários.