Dívidas, carro não devolvido e suspeita de funcionária fantasma expõem crise no Sintsepmi
Segundo Graziele Cachapuz, a empresa responsável pela contabilidade não soube informar quando foi feita a última prestação de contas do sindicato

Eleita no ano passado para presidir o Sindicato dos Trabalhadores e Servidores Públicos Municipais de Itabira (Sintsepmi), Graziele Cachapuz iniciou sua gestão enfrentando um cenário que ela própria classifica como “assombroso”. Dívidas acumuladas, salários atrasados, falta de transparência financeira, possível contratação “fantasma”, veículo do sindicato sem devolução e uma estrutura física degradada compõem o quadro deixado pela administração anterior, comandada por Auro Gonzaga.
A nova diretoria tomou posse oficialmente no dia 7 de dezembro. No entanto, segundo Graziele, nos dias que antecederam a posse, a antiga gestão fechou o sindicato, inicialmente sob justificativa de recesso, depois férias coletivas, impedindo o acesso da nova presidência à documentação e às dependências da entidade. Somente no dia 19 de dezembro, com o retorno das secretárias, a nova diretoria conseguiu acessar documentos mínimos para registrar a ata de posse e iniciar os trâmites bancários para mudança dos responsáveis pelas contas.
A partir daí, vieram as primeiras constatações mais graves: funcionárias do sindicato estão sem receber salários desde novembro, incluindo décimo terceiro e férias. Ao todo, são oito trabalhadoras, entre secretárias, dentistas, auxiliares e recepcionistas. Outro ponto grave, segundo a presidente, é que o ex-dirigente ainda estaria em posse do carro do sindicato. Mesmo após ofícios, telegramas e tentativas de contato, Graziele afirma que Auro Gonzaga não respondeu, não realizou transição e não devolveu o veículo.
A nova gestão também identificou possíveis irregularidades na contratação de pessoal. Apesar de a estrutura comportar duas secretárias, três estariam registradas. Uma delas, segundo relatos, não comparece ao local de trabalho há anos, embora tenha recebido salários regularmente até parte de 2025.
“A gente pode estar falando só de uma má administração, mas a minha questão é que me parece que tem outras coisas”, afirmou Graziele.

Dívida não estimada e processo na Justiça
Ao buscar informações junto à contabilidade que presta serviços ao Sintsepmi, a nova presidente afirma ter encontrado ainda mais incertezas. Segundo Grazi Cachapuz, a própria empresa contábil não soube informar quando foi feita a última prestação de contas oficial do sindicato. De acordo com a presidente, praticamente nenhuma despesa era quitada regularmente, com exceção dos salários — até novembro —, da conta de energia elétrica e do telefone. O condomínio, por exemplo, acumulou dívidas expressivas, assim como outras obrigações financeiras, algumas delas supostamente sem pagamento desde 2021.
Justamente enquanto falava sobre o tamanho das dívidas herdadas pela antiga gestão que a entrevista concedida à DeFato foi interrompida por uma aparição inesperada: Marco Aurélio Garcia, síndico do prédio onde funciona a sede do Sintsepmi, entrou na sala para conhecer a nova presidente e conversar sobre os débitos de condomínio pendentes.
A surpresa, escancarou a situação financeira crítica do sindicato. O síndico relatou que, apesar de tentativas anteriores de negociação, os pagamentos não vinham sendo feitos de forma regular, inclusive envolvendo duas salas utilizadas pela entidade. Graziele afirmou que o advogado do sindicato já iniciou tratativas, mas ressaltou que só poderá assumir compromissos após ter acesso às contas bancárias, o que deve ocorrer nesta terça-feira (3).
“Não dá para saber o que tem no caixa e se o que tem lá dá para a gente cobrir o pagamento que está atrasado. Eu não sei se dá para poder fazer o acordo com o condomínio, como ele [o síndico] apareceu aqui dizendo que tem uma proposta boa. Não adianta ter uma proposta boa se a gente não conseguir pagar. Eu não sei qual é a realidade do sindicato”, disse.
Na entrevista à DeFato, Graziele também comentou sobre os bastidores do processo eleitoral, que, segundo ela, foi marcado por tentativas de tumulto, manobras para impedir a saída das urnas, questionamentos sobre cédulas e até vídeos usados para tentar descredibilizar a eleição. Após a derrota, o ex-presidente teria entrado com ações judiciais questionando o pleito, utilizando o próprio sindicato como autor da ação. Um dos processos foi considerado incompetente pela Justiça do Trabalho, o que, segundo Graziele, gerou custos indevidos à entidade.
“Ele entrou com o mesmo processo na Justiça Comum no dia 18 de dezembro. E aí continua o meu assombro, porque no dia 18 de dezembro ele já não era presidente do sindicato. Ele continuou usurpando os recursos do sindicato, tentando usurpar, assim como o carro que ele continuou usurpando, tentando usurpar os recursos do sindicato para seu benefício”, afirmou a presidente, informando que a nova diretoria já solicitou o cancelamento das procurações e avalia como proceder diante dos processos.
O que diz Auro Gonzaga?
Auro Gonzaga foi procurado pela reportagem na última sexta-feira (30) para responder sobre as denúncias apontadas, mas até o fechamento da matéria, nesta segunda (2), não enviou nenhum posicionamento oficial à DeFato. O espaço segue aberto para futuras manifestações do ex-presidente do Sintsepmi.





