A 49ª Delegacia Regional de Itabira tem nova chefia. Desde o dia 3 de fevereiro, Paulo Tavares Neto, 46 anos, responde pelas ações da Polícia Civil na cidade de Drummond e em outros municípios vizinhos. De fala mansa e jeito tranquilo, reforçados pelo uso do terno claro, o delegado chega a surpreender pela serenidade na primeira impressão. As frases são bem articuladas e as respostas demonstram se tratar de um profundo conhecedor daquilo com que lida. E não é para menos. A experiência é vasta.
Paulo Tavares entrou para a Polícia Civil em 1986 e passou a maior parte da carreira como delegado de Barão de Cocais. Já colaborou em várias cidades da região e sabe bem qual o principal inimigo a ser combatido. O tráfico de drogas é apontado por ele como a “mola mestra do crime”. Para o delegado, combater o comércio de entorpecentes é fundamental para evitar outros tipos de crimes, como homicídios e roubos.
O novo delegado regional de Itabira é natural de Belo Horizonte. Pai de três filhos, Paulo Tavares é formado em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Políticas Públicas pela mesma instituição. Também possui pós-graduação em Direito e Processo Penal pela Universidade Gama Filho e, atualmente, é doutorando em Direto Penal pela Universidad Nacional de Lomas de Zamora, em Buenos Aires, na Argentina.
Na entrevista a seguir, ele fala de suas expectativas e desafios à frente da Polícia Civil de Itabira, do aumento da criminalidade e de outros assuntos de interesse da população.
Como foi sua trajetória na Polícia Civil, até aqui?
Entrei na Polícia Civil em 1986, como agente. A partir de 1990, fiquei à disposição da Coordenação Geral de Segurança. Em 1995, passei no concurso para delegado e fui para Barão de Cocais, onde fiquei durante 16 anos. Enquanto estava lotado lá, respondi pelas comarcas de Itabira, João Monlevade, Santa Bárbara e São Gonçalo. Nessa região toda já atuei, mas sempre sendo titular de Barão. No ano passado fui para a Regional de João Monlevade e agora fui transferido para Itabira.
Com sua experiência em cidades da região, quais são os problemas mais frequentemente detectados?
As drogas. Tudo gira em torno das drogas. A droga é a mola mestra do crime. É o mal do século. Se você pegar o número de homicídios de Itabira no último ano e verificar as motivações, garanto que mais de 90% das ocorrências estão ligadas às drogas. É lastimável. E é um grande problema porque os outros delitos costumo dizer que crescem em progressão aritmética. Já o tráfico de drogas cresce em progressão geométrica. Se você elimina um líder, ou elimina um núcleo do tráfico, logo surgem quatro mini-células tentando dominar aquele território. E, se um sobressai sobre o outro, onde havia um grupo, passa-se a ter quatro. Então, é uma situação muito difícil, complicada mesmo, porque o combate tem que ser sistêmico, direcionado e de uma especificação muito grande.
Qual sua expectativa em relação ao trabalho em Itabira?
A expectativa é dar continuidade àquilo que vinha sendo feito. A gente tem que fazer uma análise das ações que estavam sendo planejadas e executadas, tentando uma linha de aproximação salutar com a Polícia Militar, intensificar o trabalho de inteligência e, em cima disso, executar as operações para coibir a criminalidade.
Na carreira, qual caso foi o mais complicado de resolver até agora?
Um dos casos mais difíceis que tive foi justamente aqui em Itabira. Foi o caso de um mecânico carbonizado dentro do porta-malas de um carro. Vim cooperar aqui por causa desse caso e estava tudo em andamento para ser solucionado em dois ou três meses, mas levei quase sete meses para solucioná-lo. Graças a Deus, deu tudo certo, mas foi muito complicado.
O senhor acredita que já viu de tudo ou ainda se surpreende com a violência em alguns crimes?
A violência em si não me surpreende mais, mas algumas variantes e situações me surpreendem pela maldade. É como o crime que aconteceu em Rio Piracicaba no último mês de janeiro, contra um casal de idosos. A crueldade que foi feita com um senhor de quase 70 anos e com uma idosa. Atos de barbárie e tortura, sem ter o quê e nem o para quê. Já vi crimes assim, mas, pela situação, fiquei surpreendido. Dois ladrões invadiram a casa, mataram o idoso e deixaram a senhora muito ferida. Um latrocínio, uma covardia, um absurdo!
Em 2008, o ex-presidente Lula afirmou, publicamente que a sociedade tem vivido um período de degradação. O senhor concorda com a afirmação?
Não vi a entrevista do ex-presidente e não sei qual foi o contexto em que ele inseriu essa informação. Mas temos que entender que essa onda crescente de violência tem causas ligadas não só a questões econômicas, sociais, culturais e políticas. Temos que saber separar determinadas coisas. Querer falar que o mundo hoje é menos violento que no passado, é evidente que não podemos fazer isso. Mas falar que isso é consequência de uma degradação da sociedade, falar que a sociedade está pior, acho muito arriscado. O que penso é que a marginalidade hoje está mais próxima da normalidade. E quando digo marginal, não falo do criminoso, falo daquele que está à margem da sociedade. Essas pessoas estão às margens não só pelas veias criminosas, mas, às vezes, porque não conseguem se inserir, por limitações econômicas, questões sociais ou pela falta de uma política de educação. Não vejo um cenário de degradação. Dizer isso não é o correto.
E as políticas públicas para a área da segurança? O senhor acredita que têm resultados eficientes?
Poderiam ser bem melhores se tivéssemos os recursos adequados. Existe boa vontade, planejamento, pessoas capacitadas, mas, infelizmente, faltam recursos. O Estado vem tentando — desde o governo Aécio até o governo Anastasia — de todas as formas, equacionar esse problema da Segurança Pública. Mas, infelizmente, passamos por crises financeiras mundiais que acabaram minando os recursos para o segmento.
Quando chegou a Itabira, o senhor alertou para a falta de agentes e delegados, justamente por causa da limitação de investimentos. O que fazer para driblar esse problema?
Não é só em Itabira, é a Polícia de um modo geral. Precisamos elaborar um planejamento estratégico para promover essa recomposição. Mas demanda tempo. Quanto mais rápido o Estado se recuperar economicamente e os investimentos começarem a fluir normalmente, mais rápido conseguiremos fazer isso. Esse problema reflete na Polícia Civil e também na Militar, porque a situação deles também não é tão boa assim. Quando falei que era preciso doze delegados e 60 agentes é porque essa é a demanda que precisamos suprir aqui em Itabira. Agora, já que não temos, é preciso ter criatividade, boa vontade, força de vontade, perseverança e sacrifício para superar os problemas. Temos que trabalhar com o que temos para atender à população da melhor maneira possível.
Por que a emissão de carteiras de identidade se transformou em gargalo para a cidade?
Itabira está com uma situação bem melhor do que a de outros municípios. Em João Monlevade, a situação é mais crítica. Lá, tínhamos dois funcionários para fazer as carteiras de identidade e eles, simplesmente, pediram exoneração porque receberam propostas melhores no setor privado. Depois, a Prefeitura disponibilizou outros dois funcionários. E para treiná-los? O treinamento é específico, demorado e apenas um instituto detém o software necessário para fazer essa capacitação. Quando, finalmente, conseguimos treinar os funcionários e eles estavam prontos para trabalhar, aconteceu aquele problema de inundação na Delegacia (por conta das fortes chuvas) e o prédio foi interditado. E aí a demanda começa a ir para outras praças. Fecha-se o gargalo em um lugar de atendimento, começam a ser afetados outros. É o que está acontecendo em Itabira, Barão de Cocais, Santa Bárbara e São Gonçalo do Rio Abaixo. Não posso vetar a emissão de identidade. Não posso, simplesmente, chegar a uma pessoa e dizer que ela não pode fazer a carteira porque não mora na cidade. O que se pode fazer é tentar priorizar a população de Itabira e atender, da melhor maneira possível, as solicitações feitas por cidadãos de outras cidades.
O ideal, então, seria que o serviço não fosse feito pela Polícia Civil?
Na verdade, se esse gargalo em outras cidades não nos afetasse do jeito que afeta, a situação de Itabira seria normal, não teríamos problemas. A dificuldade maior é termos que suprir a deficiência de outras regiões. Em Barão de Cocais, por exemplo, esse serviço já é feito pela Prefeitura, por meio do Sine. Quer dizer, a gestão é da Polícia Civil, mas funcionários e estrutura são fornecidos pela Prefeitura, porque é um fator que interessa muito ao poder público. Essa questão de identificação é primordial. A gestão e o know- how são da Polícia Civil, mas a execução não é algo privativo, podem ser feitas parcerias com as Prefeituras para que assumam esse serviço.
A vereadora Martha Mousinho fez uma indicação na Câmara para que seja instalada uma Delegacia de Mulheres em Itabira. Já existem entendimentos quanto a isso?
Ainda não. O que acontece hoje, em Itabira, é que o nosso quadro de delegados é reduzido. Os delegados estão todos em regime de plantão. Seria extremamente interessante que tivéssemos uma Delegacia de Mulheres, de preferência comandada por uma delegada. Não que um homem não tenha capacidade ou preparação para tanto, mas, às vezes, as mulheres vítimas se sentem mais à vontade sendo tratadas por outra mulher. Seria ótimo se conseguíssemos isso, mas o problema é que, hoje, nós não contamos com profissionais para fazer o plano sair do papel. Acho que a estrutura física seria de menos, porque a gente poderia conseguir, por meio de uma parceria, um bom ambiente para o serviço. A questão dos recursos humanos é a mais complicada. Temos agentes femininos e escrivãs, mas a delegada a gente não tem. Se hoje fosse para fazer, seria inviável comprometer o plantão. Mas a ideia é salutar e bem-vinda.
De que forma é possível combater a corrupção na Polícia?
Corrupção a gente tem em todas as áreas. O problema da Polícia é que ela caminha em uma linha fronteiriça, que representa um divisor de águas, porque tenta separar a criminalidade da sociedade. O profissional está muito perto daquele lado negro e acaba se corrompendo. Não estou justificando, apenas dizendo que é isso que acontece. O que temos que fazer é intensificar os trabalhos da corregedoria. Vez ou outra chegam denúncias contra policiais e a gente investiga. Se há desvio de conduta de policiais, tentamos, o mais rápido possível, dar uma resposta. Procuramos averiguar bem a situação, porque às vezes o que se investiga não é verdade. Mas se as denúncias são verdadeiras, tomamos providências, sim