Feto encontrado na ETE pode reacender discussão sobre aborto em Itabira
Croney Costa, operador que explicou a DeFato como é feita a limpeza do gradeamento na ETE

Na quarta-feira, 15 de julho, um fato inusitado pegou de surpresa o operador José Enes Gomes, 40 anos, que trabalha na Estação de Tratamento de Esgoto (ETE), da localidade de Laboreaux, em Itabira. Quando ele fazia a limpeza de uma grade, às 10h50, encontrou um feto humano de cerca de 20 cm preso na comporta. Enes, imediatamente, avisou ao seu encarregado que, por sua vez, chamou a polícia.
As polícias Militar e Civil atenderam também rapidamente. O feto foi analisado pela perita Gisele Simões, e foi retirado dele amostra de sangue para encaminhamento das investigações. Logo em seguida, liberado para o necrotério do Cemitério da Paz, a vida abortada teve sepultamento.
Não é esta a primeira vez que fato desta natureza ocorre em Itabira. Há algum tempo, segundo dois operadores da ETE, que trabalhavam na Estação de Nova Vista, hoje desativada, Croney Costa e José Luiz Silveira, um outro embrião tinha sido encontrado. Depois deste, não tiveram os operadores mais notícias sobre o assunto.
Dois abortos consumados em Itabira. Somente isso? A resposta é não. De acordo com funcionários e ex-funcionários da Itaurb, antigamente era comum se defrontar com um feto embrulhado no lixo orgânico despejado na região de Borrachudo. E hoje? Considerando a mudança da sistemática do tratamento — Itabira constroi o Aterro Sanitário, está com 50% das obras prontas, o que lhe dá o status de ter Aterro Controlado — os detritos orgânicos não têm o contato de pessoas, mas de máquinas, fato que, praticamente, dificulta que sejam encontradas vidas embrionárias.
A pergunta que muita gente faz é a seguinte: o itabirano pratica muito ou pratica pouco o aborto? Será que os dois fatos ocorridos nas ETEs e mais os incontáveis registrados no antigo Lixão colocam um fim na prática ilegal? Dá para qualquer pessoa normal entender e concluir: muitas vidas humanas estão mesmo sendo jogadas fora. E será que os nossos itabiranos, assim como outros seres humanos de outras cidades, merecem morrer também em imundícies? A resposta fica por conta do leitor ou internauta.
O FATO
A perita Gisele Simões abriu o caminho das investigações da Polícia Civil, que parece acreditar que encontrará a mãe criminosa, ou alguns criminosos que estão por trás do fato desta semana. Ele inaugura a ETE Laboreaux como também destino de crimes hediondos.
DeFato falou com o operador, José Enes Gomes, o primeiro a deparar com o feto, que mostrou detalhes de seu achado: “Fiquei emocionado, muito triste, ou melhor chocado mesmo, ao ver um corpo humano, quase que completamente formado, agarrado no gradeamento. Fazemos a limpeza de uma em uma hora. Imediatamente, chamei o encarregado, que ligou para a PM; e tudo aconteceu imediatamente, chegando as polícias Civil e Militar, e uma funerária”.
Segundo ele, o feto, do sexo masculino, medindo 20 cm, estava todo avermelhado e mostrava o lado esquerdo muito atingido — “a perna e o braço quebrados, a cabeça muito machucada e o cordão umbilical inteiro”. Disse ainda que foi calculado o tempo da gestação: de quatro a quatro meses e meio.
Outros detalhes que o operador sabe devem ajudar nas investigações: o tempo gasto para um objeto deixado no esgoto em ponto mais distante — por exemplo, o bairro Bela Vista — até a primeira comporta da ETE é de duas horas e meia. Daí, a quase certeza de que fora jogado no esgoto depois das 8 horas da manhã.
José Enes disse que outros fatos dificilmente ocorreram na ETE, por causa do gradeamento, que detém objetos pequenos. Ele disse que está acostumado a tirar não apenas restos de árvores, como troncos e folhas, mas também animais, principalmente da fauna silvestre, como tatus e jaguatiricas. “Até dinheiro a gente pega ali e isso nos deixa alegres e surpresos; só não achei ainda notas de 100 reais, mas de 50, 20 e 10 encontro muito frequentemente”, revelou. Para ele, o trabalho que os operadores de seu setor exercem serve para denunciar principalmente que os itabiranos estão destruindo a fauna. “É muito comum vermos couros de animais, sinal de que os estão matando e comendo”, denunciou.
E O RESTO?
A Empresa de Desenvolvimento Urbano de Itabira — Itaurb recolhe, diariamente, de 65 a 70 toneladas de lixo orgânico e de 4 a 6 toneladas de materiais recicláveis. Os orgânicos são transportados para o Aterro Controlado, que funciona na localidade de Borrachudo, a sete quilômetros da cidade, na direção de Ipoema, via estrada da Serra.
Esse local já foi uma balbúrdia em matéria de desastre natural e humano. Aí viviam dezenas de famílias que sobreviviam às custas do lixo. As famílias criavam vacas, porcos, galinhas e cães, que se misturavam com urubus. Um repórter de um extinto jornal local documentou o focinho de um porco perfurado com agulhas que tinham sido usadas em farmácias, clínicas ou hospitais.
Mas, de um tempo para cá, há alguns anos, o local vem sendo transformado. A Vale investe milhões de reais a crédito de cumprimento de uma das condicionantes da Licença Operacional Corretiva (LOC) para construir o aterro. Está prevista para dentro de poucos dias a continuidade das obras, que propõem transformar o Borrachudo em Aterro Sanitário.
Na época dos atentados contra a natureza e a vida humana, além do que as pessoas viam, os abortos tinham prosseguimento. “Era comum alguém encontrar, embrulhado em saco plástico, um feto qualquer”, afirmou à reportagem um ex-funcionário da Itaurb. Complementando o que ele disse, DeFato já registrou pelo menos um caso, ocorrido na década de 1990.
Tudo mudou em Borrachudo. Continuam apenas os mosquitos, que parecem ter aumentado e os urubus, que se mantêm na sua habitual “boa-vida”. As máquinas — caminhões e tratores — permanecem revirando os detritos que chegam sem parar, recolhidos pelos caminhões que percorrem toda a cidade.
No local, não há mais a possibilidade de se deparar com material de farmácias, clínicas e hospitais, que têm um tratamento especial. Mas todos sabem que, se fetos chegarem, esses dificilmente serão encontrados. Afinal, são quase 70 mil quilos de lixo que se despejam no local, por dia, longe dos olhos de extintos catadores.
Enquanto isso, o lixo reciclável vai para o bairro Nova Vista, onde recebe um tratamento especial. Aí, sim, não se veem mesmo as pobres criaturas sendo jogadas. A menos que algum funcionário tenha sido desumano a ponto de não denunciar.
Então, ficam as perguntas, que podem ser dirigidas aos itabiranos, principalmente às autoridades de todos os escalões, tanto da Polícia, como da Justiça ou da Política: haveria uma forma de se deter os embriões dentro dos pacotes fechados? Parece difícil, senão impossível. Mas se pode fazer o seguinte, aumentando a vigilância até mesmo nos hospitais: quais são os criminosos na cidade que estão matando os seres humanos antes mesmo que cheguem ao mundo? E fazem com que esses façam uma viagem desumana pelas redes de esgoto ou pelos caminhões?