Frota explode e leva caos para o interior

Congestionamentos diários deixaram de ser exclusividade do trânsito da maior cidade do estado. Considerado por muitos motoristas uma praga difícil de ser exterminada, o lento arrastar de veículos por vias onde cada palmo de espaço é disputado a poder de aceleração e buzinas é um mal que já atinge vários municípios do interior, exigindo das […]

Congestionamentos diários deixaram de ser exclusividade do trânsito da maior cidade do estado. Considerado por muitos motoristas uma praga difícil de ser exterminada, o lento arrastar de veículos por vias onde cada palmo de espaço é disputado a poder de aceleração e buzinas é um mal que já atinge vários municípios do interior, exigindo das prefeituras investimentos pesados em obras viárias. Mas, apesar do clamor constante por mais ruas, avenidas e viadutos, especialistas alertam que o desafio só tem chance de ser superado se o transporte público predominar sobre o particular. O tamanho do problema pode ser medido pelos números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-MG), segundo os quais desde o ano 2000 a frota se multiplicou num ritmo muito mais acelerado do que o da população na maior cidade de cada uma das 10 regiões de Minas Gerais. Em seis delas, dobrou a quantidade de carros, motos, caminhões e ônibus. 

A comparação entre os dados dos dois órgãos, considerada apenas a evolução percentual dos indicadores, mostra que a maior disparidade ocorreu em Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri. Lá, enquanto o total de habitantes cresceu 0,8% entre 2000 e 2009 (de 129.424 para 130.517 pessoas), a frota deu um salto de 107,3% entre 2000 e 2010, passando de 17.038 veículos para 35.330. O expressivo aumento no vaivém nas ruas da cidade preocupa a prefeitura. Tanto que a diretora da Divisão de Trânsito e Transporte Público (Teotrans), Márcia Valéria Gonçalves de Sá, avisa que o município terá de adotar medidas drásticas, como limitar o horário de carga e descarga no Centro ao período entre as 22h e as 7h. 

O ritmo acelerado da frota obriga a prefeitura a empregar uma montanha de dinheiro em infraestrutura viária e na melhoria do transporte público. “Fizemos uma avenida de 7,5 quilômetros, que liga o terminal Central ao de Santa Luzia. Nela, há três estações fechadas em que ficam os cobradores, que foram retirados dos ônibus. Reduzimos o tempo de viagem e o impacto de veículos. Elaboramos projeto para mais quatro corredores. As obras vão custar R$ 110 milhões e devem ficar prontas nos próximos dois anos. Erguemos, ainda, duas pontes sobre o Rio Uberabinha e iniciamos a construção de um viaduto sobre a Rondon Pacheco, ao custo de R$ 24 milhões”, acrescentou Ferreira. Medidas que são exigidas de todas as administrações municipais para fazer frente à explosão da frota, em um investimento que muitas vezes não passa de abertura de caminho para a chegada de ainda mais veículos. 

Belo Horizonte

Na capital, onde também é grande o descompasso entre o aumento da população (9,5%) e da frota (92%), o presidente da BHTrans, Ramon Victor César, enfatiza que o melhor remédio para combater o trânsito tumultuado das grandes cidades é o transporte público. Mas ele reconhece que o motorista só deixará o carro na garagem se houver melhorias no sistema. “Não há solução para o trânsito fora do transporte público, mas não temos ilusão de que os donos de automóvel vão abandonar o carro se não houver melhorias.” 

E, para melhorar não só o transporte de massa, mas o próprio tráfego da cidade, a maior aposta da BHTrans é a entrada em operação do complexo de corredores exclusivos de ônibus conhecido como BRT (sigla para Bus Rapid Transit). Semelhante ao de Curitiba, o sistema é mais eficiente do que o tradicional, pois aumenta a capacidade de absorver passageiros, que embarcam em estações onde já são cobradas as tarifas. BH terá quatro ramais: avenidas Antônio Carlos/Pedro I, Pedro II/Carlos Luz e Cristiano Machado, além da área central. As linhas, que estarão prontas antes da Copa de 2014, serão financiadas pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), da União. 

Vários fatores explicam por que explodiu o número de carros, motos, ônibus e caminhões nas vias públicas na última década, mas três deles ajudam a entender melhor o cenário. O primeiro é cultural: o brasileiro classifica o veículo como sinônimo de status. O segundo é a melhora significativa da economia, com muitas famílias migrando das classes C e D para a B. Fenômeno que leva ao terceiro motivo: as concessionárias facilitaram a compra de automóveis, oferecendo aos clientes boas vantagens nos programas de financiamento, como taxas de juros mais baixas e dilatação no prazo de pagamento. Algumas revendas negociam o bem em até 80 meses. Em 2009, a decisão do governo federal de reduzir o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para veículos zero quilômetro – medida apontada como arma para enfrentar a crise mundial deflagrada no setor imobiliário dos Estados Unidos – também contribuiu para que muita gente comprasse o primeiro carro. 

Como resultado do salto da frota, moradores de fora da Grande BH passaram a conviver com um tormento que já foi sinônimo de vida na metrópole. Dor de cabeça que chegou rápido a Uberlândia, no Triângulo Mineiro, segundo município mais populoso do estado, onde motoristas sofrem com as retenções na Avenida Rondon Pacheco, via em que a prefeitura registra, todos os dias, tráfego de 68 mil veículos no cruzamento com a Avenida João Naves de Ávila. Na maior cidade do Triângulo, a frota cresceu 106,3%, enquanto a população registrou aumento de 26,5%. “Hoje, temos um veículo para cada 2,3 pessoas”, diz Paulo Sérgio Ferreira, secretário municipal de Trânsito.