Identificação por Radiofrequência é testada no Memorial Carlos Drummond de Andrade
Carlos Teixeira demonstra funcionamento do leitor RFID móvel
Saber o conteúdo de um livro antes mesmo de abri-lo. Fazer levantamento de todo o acervo existente em um local com agilidade. Controlar a circulação das obras, evitando possíveis extravios. Essas são algumas possibilidades oferecidas pela Identificação por Radiofrequência (RFID), tecnologia que está sendo testada no Memorial Carlos Drummond de Andrade.
O trabalho começou em junho por meio da parceria entre o programa Voluntários Vale e duas empresas do setor de tecnologia: IF-RFID, que doou as etiquetas, e Intermec by Honeywell, que cedeu os leitores RFID. A Prefeitura de Itabira, por meio da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA), apoia a iniciativa ao ceder o espaço do Memorial para realização do projeto-piloto.
Quem coordena a atividade é o analista sênior da Vale, Carlos Teixeira, que também foi responsável pela implantação da RFID em alguns setores da mineradora em Itabira. Ele começou a se dedicar ao trabalho no Memorial voluntariamente, nos horários de folga. Posteriormente, a iniciativa recebeu o apoio da Vale e agora está integrada ao programa de voluntariado da empresa.
Nessa primeira etapa, 100 livros receberam etiquetas inteligentes: elas contêm um chip com informações que são decodificadas pelos leitores RFID fixos ou móveis. Os materiais selecionados para a fase de testes são raros e/ou mais consultados pelo público. A aplicação das etiquetas foi analisada com cautela, para não provocar danos no material que será inventariado.
Com a RFID, será possível controlar a circulação das peças, livros e documentos que compõem o acervo do Memorial, evitando-se extravios. Também permitirá a realização de inventários mais constantes: enquanto o levantamento manual demora dias, todo o acervo poderá ser contado em apenas duas horas. O programa utilizado é capaz de memorizar o último inventário e indicar a ausência de alguma obra.
“Não será necessário tocar nos documentos raros, como as cartas do poeta, que hoje são manuseados com luvas. Após colocar etiqueta em cada carta, nem será necessário abrir a caixa protetora para identificar algum desvio. Haverá menor intervenção humana para proteger os documentos e mantê-los preservados”, ressaltou Carlos Teixeira.
Também será possível registrar o histórico dos objetos nas etiquetas individuais, como quem o adquiriu pela primeira vez, locais por onde passou, quem fez a doação ao Memorial, entre outros dados. “As etiquetas desenvolvidas especialmente para esse projeto-piloto são regraváveis e capazes de armazenar até 8 mil caracteres”, comentou. Outra funcionalidade será estabelecer perímetros para circulação das obras, sinalizando que ela não pode ser retirada de determinada sala, por exemplo.
Em uma mesa adaptada no Memorial, funciona um leitor RFID fixo. “Coloca-se o livro sobre ela e o sistema lê o resumo da obra gravado na etiqueta. O objetivo é que a pessoa saiba o conteúdo e decida se vai ou não fazer a leitura. Isso economiza tempo do visitante e evita desgaste das folhas de papel”, explicou o coordenador do projeto. De 23 de junho a 22 de julho, a novidade já foi testada por 730 pessoas.
A intenção é que o Memorial tenha, futuramente, um totem com monitor e recursos de áudio para que o público possa acessar informações complementares da obra: fotos, vídeos, músicas, entrevistas e outros conteúdos. “Será um atrativo para o visitante, pois a interação será agradável para ele”, acrescentou.
A fase do projeto-piloto termina em outubro. Após esse prazo, a intenção é buscar parcerias para que os equipamentos sejam adquiridos em definitivo. Estima-se que cada etiqueta custa de R$ 3 a R$ 5; os leitores custam de R$ 15 mil a R$ 20 mil e o programa, R$ 60 mil – este foi elaborado por Carlos Teixeira e será doado.
Segundo a coordenadora do Memorial, Solange Alvarenga, a tecnologia atrai a atenção de pessoas que visitam o local e recebe elogios, inclusive do cineasta Sylvio Back, que lançou o documentário “O Universo Graciliano” durante a programação do 40º Festival de Inverno de Itabira. Ela acrescentou que são necessárias cerca de 2 mil etiquetas para que todo o acervo do local seja integrado à tecnologia RFID.
Saiba mais
Segundo Carlos Teixeira, a RFID é uma evolução do código de barras. Nesta, é necessário aproximar o objeto do leitor, um por vez, para que seja identificado o item que o código representa. Já com o sistema RFID, é possível armazenar informações básicas na própria etiqueta que for afixada no objeto. Além disso, permite que seja feita a leitura de vários itens a distância. Dependendo do equipamento, é capaz de ler mais de mil etiquetas inteligentes por segundo e identificar cada item.
“A abrangência do leitor depende da qualidade da etiqueta e do aparelho. No caso dos livros, é necessário afixar uma etiqueta mais delicada, para não machucar o papel. Por isso, no projeto-piloto do Memorial, a leitura dos livros pode ser feita a até três metros de distância”, explicou.
Ele acrescentou que a RFID já é utilizada em alguns pedágios no Brasil: o leitor verifica a etiqueta que está no veículo e registra a passagem automaticamente (a cobrança é feita por meio de fatura). Nos campeonatos de futebol no exterior, a etiqueta é embutida na bola para identificar se ela realmente ultrapassou a linha do gol. A tecnologia também é utilizada para controlar o número de bovinos nas fazendas e estoques de grandes armazéns. Na Vale, ela é empregada nos setores de estoque e ferramentaria. Em Itabira, na Mina Conceição, o inventário de 23 mil peças demorava três semanas; com a RFID, o tempo reduziu para uma hora.