O Brasil e a Copa

Artigo publicado na edição 245 da Revista DeFato   Que legado a Copa do Mundo de 2014 deixará para o Brasil? É a pergunta que nós, brasileiros, fazemos. Desde a escolha do nosso país como sede do Mundial, em 2007, muito se falou, um grande estardalhaço foi feito e muito foi prometido. Hoje, a pouco […]

O Brasil e a Copa
Artigo publicado na edição 245 da Revista DeFato
 
Que legado a Copa do Mundo de 2014 deixará para o Brasil? É a pergunta que nós, brasileiros, fazemos. Desde a escolha do nosso país como sede do Mundial, em 2007, muito se falou, um grande estardalhaço foi feito e muito foi prometido. Hoje, a pouco mais de 100 dias para o início da Copa do Mundo, a sensação é de que tudo ficou para a última hora, confirmando o tão famoso “jeitinho brasileiro”. Nas 12 cidades-sede, a população se depara com grandes canteiros de obras espalhados por todos os lados, aeroportos ainda precários, obras de mobilidade em compasso de espera e, em algumas capitais, os estádios sequer estão prontos.
 
O que muito se pergunta é porque não investir os bilhões de reais gastos para promover a Copa na melhoria de nossas rodovias, por exemplo, como a BR-381 e a BR-040, que matam centenas de mineiros todos os anos. Recentemente, acompanhei a notícia de que a Suécia desistiu de sediar os Jogos Olímpicos de 2022, devido aos altos custos para promover o evento. O mais incrível é que o gasto previsto para a Olimpíada de Estocolmo era de R$ 3,6 bilhões. Enquanto isso, aqui no Brasil, a Copa de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 no Rio vão custar, no mínimo, R$ 30 bilhões. A disparidade é grande: os suecos ocupam o 7º lugar no ranking mundial de desenvolvimento humano, que mede a qualidade de vida de um povo. O Brasil está em 85º lugar, atrás de países como Jamaica, Peru, Costa Rica, Panamá, Dominica, Granada, Líbia, Cazaquistão e Venezuela. A alegação do prefeito de Estocolmo é que, com a quantia prevista para a Olimpíada, mais moradias poderão ser construídas. Será que os suecos estão errados?
 
Voltando à Copa do Mundo de 2014, nem tudo pode ser criticado. Existe o lado bom, como os estádios remodelados, por exemplo. Em especial, o Mineirão e o Independência. Apesar das críticas iniciais, o Mineirão foi o primeiro a ficar pronto, com um prazo de mais de um ano para testes, inclusive recebendo megashows, como Elton John, Paul McCartney e Beyoncé. O mesmo não se vê em outros estados. São Paulo, maior cidade da América do Sul, luta contra o tempo para entregar a Arena Corinthians, estádio que vai receber o jogo de abertura do Mundial, no dia 12 de junho. Arena da Baixada (Curitiba), Arena Amazônia (Manaus) e Arena Pantanal (Cuiabá) também não concluíram as obras.
 
A escolha por 12 cidades-sede também irritou a Fifa. O Brasil assumiu o compromisso de entregar todos os estádios a tempo, inclusive para testes, mas não é o que se vê. A entidade máxima do futebol mundial já trabalha com a possibilidade de reduzir o número de cidades, caso as obras não avancem. Escolher 12 sedes foi um erro, principalmente pela intenção de “agradar” capitais onde o futebol é pouco praticado, com clubes e campeonatos inexpressivos no cenário nacional. Casos de Cuiabá, Manaus e Natal, por exemplo. Tudo leva a crer que teremos, em muitas capitais, verdadeiros “elefantes brancos”. Como esses estádios serão aproveitados depois da Copa? Os gastos eram mesmos necessários? O caso mais absurdo é o do Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília, onde os gastos passaram de R$ 1,9 bilhão.
 
A esperança de um país mais bem estruturado após a Copa virou preocupação. Evidentemente, um torneio dessa grandiosidade movimenta o turismo e a economia, mas pode significar altos riscos, como a má gestão dos recursos e endividamento excessivo. Os impactos negativos desse megaevento assustam e geram dúvidas sobre o tão comentado legado da Copa. Como ficará o Brasil depois do Mundial? É aguardar para ver. 
 
João Vítor Xavier
 
Jornalista e radialista. Repórter e apresentador do programa Bastidores da Rádio Itatiaia. Colunista do jornal Super Notícia. Deputado Estadual por Minas Gerais, eleito em 2010. Filiado ao PSDB