Padre Tarcízio: “A Igreja é política e a política é Igreja”
Tarcízio deixa a entender que está trabalhando para ser candidato a prefeito nas próximas eleições

Natural de Sabinópolis, padre Tarcízio José Mourão, 50 anos, conhece Conceição do Mato Dentro desde 1988. “Foi amor à primeira vista", diz ele. Em fevereiro de 1995, foi provisionado Pároco do Município e, desde então, sempre esteve envolvido com a política local.
Tarcízio é bacharel em Filosofia, Teologia e Psicologia, com pós-graduação em Neuropsicologia. Trabalhou na Prefeitura de Lagoa Santa, na Secretaria de Defesa Social do Estado de Minas Gerais, foi orientador vocacional, entre outras atividades. Em entrevista a DeFato, ele fala sobre o atual cenário econômico e social de Conceição do Mato Dentro, opina sobre mineração e deixa a entender que está trabalhando para ser candidato a prefeito nas próximas eleições. Confira.
De maneira geral, como o senhor analisa o cenário político, econômico e social de Conceição do Mato Dentro atualmente?
Diz Martin Luther King: "Para criar inimigos não é necessário declarar guerra, basta dizer o que pensa". É público e notório que os cenários político-econômico e social de Conceição do Mato Dentro atualmente não são dos melhores. Alguns políticos parecem se vender em troca de cargos, funções, poderes e até mesmo dinheiro. No econômico percebe um giro de capital muito grande e, no entanto, a maioria da população permanece na pobreza. No cenário social deparamos com um município estrangulado: nas Unidades de Saúde, ou não temos profissionais, ou os mesmos não têm material para trabalhar. Na Educação, muitas vezes os próprios funcionários não recebem o de direito ou às vezes nem lhes é oferecido um suporte para trabalhar com dignidade, em especial na zona rural. Não é raro depararmos com meninas de 13, 14 anos com criança no colo. A violência, o roubo (e também o furto) dominando o nosso Município. É uma breve análise. Muita coisa poderíamos aqui pontuar.
O senhor é favor ou contra a mineração?
Não sou nem a favor e nem contra a mineração. A estas alturas do campeonato acredito não ser esta a questão a ser colocada. O que sou radicalmente contra é o modo como a mineração entrou no nosso Município. Eu e muitos outros conceicionenses sentimo-nos invadidos no nosso espaço. Talvez tudo poderia ser feito desde que respeitassem o povo deste Município. Quando fomos consultados se queríamos ou não a mineração? Qual a estrutura que foi montada para acolhermos a mineração? Quem decidiu por nós que queríamos mineração? Dizem os mais experientes: "O que é mal começado é mal acabado". Já que ela chegou acredito que temos que saber conviver com ela. Que seja nossa parceira e não dona do nosso Município. Percebo que também que não é este o objetivo dela. Caso esteja acontecendo, de quem é a responsabilidade?
Há muitos rumores de que o senhor trabalha para ser candidato a prefeito nas próximas eleições. Verdade?
Sirvo com carinho aos meus conterrâneos de coração de Conceição do Mato Dentro. Conheço Conceição desde 1988 e posso dizer: Foi "amor à primeira vista". Em fevereiro de 1995 fui provisionado para Pároco deste Município. Deparei-me com uma sociedade desigual onde uma minoria dominava a maioria, em especial na política. Uma meia dúzia que mandava e a maioria era forçada a obedecer. Caso contrário era perseguida: perdia emprego, a luz não era ligada, e alguns até mesmo por falarem o que pensavam foram expulsos do Município. Assumi o lado desta maioria sendo a voz e vez deles. Trabalhei os lados religioso (alimentando a espiritualidade do povo); político, participando e muitas vezes ajudando a formar Conselhos Municipais; militei em Associações e Sindicatos; organizei pequenos grupos para que a comunidade pudesse pensar a sua realidade e transformá-la à luz da Palavra de Deus; empenhei na organização e trabalho da Pastoral da Criança que previne a doença, promove a vida e salva muitas crianças. Assim como a medicina alternativa que presta serviços a todos. Com a comunidade reformamos os patrimônios religiosos: Santuário do Senhor Bom Jesus de Matozinhos, Igreja do Rosário, deixando encaminhada a restauração da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição. Construímos igrejas e espaços para encontro da comunidade. Sendo assim, pode ser que a comunidade me queira como seu primeiro servidor, pois conhece o meu trabalho, a minha dedicação, o meu respeito pelo povo e sabe que a minha prestação de serviços se fundamenta no tripé: honestidade, transparência e participação.
Como vê a relação entre a Igreja e a política?
Questão difícil de responder! A Igreja é política e a política é Igreja. Não estou falando em clericalismo e nem politicagem. Cabe à Igreja buscar o bem comum. Salvar a pessoa e todas as pessoas. Cabe à Igreja ir até o povo, sentir as suas necessidades, ouvir o seu clamor e com ele buscar soluções para minimizar os seus sofrimentos. E cabe à política promover o bem comum. O dia em que a política for, o que realmente é, uma missão e os políticos forem verdadeiros instrumentos de Deus, que estão ali respondendo a um chamado e não buscando interesses pessoais ou de um pequeno grupo; e a Igreja perder o medo de correr o risco de ser criticada e machucada, aí sim a política será Igreja e a Igreja será política. Prevalece, em tudo e para todos, a proposta de Jesus: "Eu vim para que TODOS tenham VIDA e VIDA em ABUNDÂNCIA!", João 10,10.