Prefeito dos 300 anos

Entrevista publicada na edição 253 da Revista DeFato O mais velho de uma família de seis irmãos, José Geraldo de Oliveira Silva, 47 anos, mais conhecido como Zezé Oliveira, nasceu em Itambé do Mato Dentro em 1966. Da terra natal, mudou-se para Caeté com a família ainda criança, onde cresceu e constituiu sua carreira profissional […]

Prefeito dos 300 anos

Entrevista publicada na edição 253 da Revista DeFato

O mais velho de uma família de seis irmãos, José Geraldo de Oliveira Silva, 47 anos, mais conhecido como Zezé Oliveira, nasceu em Itambé do Mato Dentro em 1966. Da terra natal, mudou-se para Caeté com a família ainda criança, onde cresceu e constituiu sua carreira profissional e política. Eleito para comandar a cidade em 2012 com 49,64% dos votos, numa disputa entre cinco candidaturas, é dele o privilégio (e desafio ao mesmo tempo) de ser o prefeito dos 300 anos. 

Cidade da região Metropolitana de Belo Horizonte, Caeté, em tupi-guarani “Mata Virgem”, existe desde o ciclo do ouro e guarda importantes episódios em sua história, como a guerra civil dos Emboabas. O município tem pouco mais de 40 mil habitantes e um rico patrimônio artístico, arquitetônico e natural, referência em todo o Brasil.

A cidade já foi uma das dez que mais arrecadaram em Minas Gerais. Apesar disso, não está nem entre as 100 atualmente. A expectativa de crescimento para os próximos anos está nos projetos minerários, principalmente o Apolo, da Vale, que tem condição de dobrar o orçamento municipal. Mas aí surge outro desafio: aliar o turismo à mineração.

No primeiro ano como prefeito, Zezé afirma que conseguiu tirar do papel 26% de seu programa de governo. Criou duas secretarias, entre elas a de Política sobre Drogas – até então apenas Curitiba tinha um secretaria municipal para tratar do assunto – e tem projetos audaciosos para 2014. Os 300 anos se completarão no dia 14 de fevereiro. Segundo o prefeito, a programação festiva será extensa e marcante.

Como é ser o prefeito dos 300 anos?

É algo que nos faz refletir bastante. Trezentos anos têm muita história e, para Caeté, no contexto de Minas e do Brasil, é de um significado imensurável. É uma data que fica registrada na história. Estamos falando da quinta vila de Minas Gerais. Tudo o que for feito por esta data será pouco por sua representatividade. Vamos ter aqui registros, tanto nos anais da Câmara quanto no Executivo, desenvolver uma programação festiva e receber também ações da Assembleia Legislativa e da Câmara Federal. No campo do desenvolvimento, talvez seja a liberação das licenças do projeto Apolo, da Vale, o marco mais importante. No campo do patrimônio histórico, cultural, natural e religioso, criamos a Secretaria Municipal de Turismo, Cultura e Patrimônio, com uma responsabilidade muito grande de interagir com o segundo e terceiro setores. Está aqui a padroeira do estado de Minas Gerais, a Nossa Senhora da Piedade. A Serra da Piedade talvez seja hoje um dos pontos mais visitados de Minas. A criação do Caminho Religioso da Estrada Real, o CRER, que marca da Serra da Piedade até Aparecida do Norte (SP), é de grande prestígio para nós. Temos ainda o Entre Serras, da Piedade ao Caraça, que está dentro do projeto Vivendo a Estrada Real (VER). Então, são muitas realizações importantes e marcantes.

Como o senhor avalia as potencialidades do turismo em Caeté? Estão sendo bem exploradas?

O potencial é grande. O patrimônio é muito (cultural, natural, religioso), principalmente considerando que estamos perto de um dos maiores polos consumidores do país, que é Belo Horizonte. Agora precisamos consolidar em ações, por isso criamos a secretaria. A gente quer agregar muito nestes 300 anos, inclusive com o CRER, o VER e seus desdobramentos. No caso do VER, a Fiemg já entregou para Caeté, Barão de Cocais, Santa Bárbara e Catas Altas o produto. Agora está nas mãos dos quatro municípios a viabilização das ações que nasceram dentro do programa. A criação do G6 Mais, que é o grupo de seis empresários mais os quiserem entrar, vai dar os implementos que a gente precisa. Caeté elencou a APA Pedra Branca, que é um espaço pequeno, mas onde temos um dos melhores pontos para prática de alpinismo do estado. Uma área que com muito pouco investimento pode se tornar uma referência muito grande e entusiasmar quem vem à Serra da Piedade a estar na cidade. Temos ainda o Mercadinho Municipal e a antiga fábrica da cerâmica, que já produziu muito para Minas e para o Brasil. Elencamos esses três pontos e estamos trabalhando com o G6 Mais esperando desdobramentos positivos.

Quais as expectativas para a Copa do Mundo de Futebol?

Para a Copa, o nosso entendimento é mais ou menos o que se tem pensado para o Brasil. Posso dizer que, considerando a demanda que virá, estamos relativamente preparados. Acho que não será uma demanda tão grande quanto se pensava e, se for, não teremos estrutura de receptividade. Caeté tem o segundo maior centro de convenções do país, o Hotel Tauá. Mas para o próprio hotel, fechar, por exemplo, para umas duas delegações de futebol, não acho que seria interessante do ponto de vista financeiro. Nesse aspecto, a Copa não nos traz aquele alento de que será o momento de circular muito emprego e renda, mesmo com a proximidade com Belo Horizonte. Acho que o movimento, pensando a Serra da Piedade, o Hotel Tauá e um pouco a cidade, não será muito diferente do que a gente já atende normalmente, mas é uma oportunidade de nos mostrarmos para o mundo e temos que aproveitá-la bem.

O senhor citou o projeto Apolo, da Vale, como um grande marco econômico para este ano. Em que fase ele está?

A nossa expectativa é de que ainda dentro deste mês a presidente Dilma faça a expedição do decreto que delimita a área do Parque Nacional Serra do Gandarela. Delimitando, o secretário de estado de Meio Ambiente, Adriano Magalhães, já disse que imediatamente retoma aqui em Minas o processo de licenciamento que está paralisado em função do parque.  A expectativa é que em fevereiro, no mais tardar março, seja retomado o processo de licenciamento do projeto Apolo. Sendo assim, ainda em 2014 é possível que o processo de licenciamento seja efetivado e, em 2015, comece a implantação do projeto. Recebemos da direção da Vale, no Rio de Janeiro, indicadores nesse sentido. Recebemos aqui também o Antônio Padovezi (diretor de Ferrosos Sudeste da Vale) com o mesmo entendimento. Sabemos das dificuldades que precisam ser enfrentadas. O Padovezi veio acompanhado do engenheiro Leopoldo Piló, que é gerente de implantação do projeto, e o engenheiro que será responsável pela operação de Apolo. Então, acho que, independentemente de qualquer coisa, o projeto só não está em atividade ainda devido à falta das licenças. A conciliação em relação à questão ambiental tem de ser feita. O projeto foi notícia na mídia nacional e internacional porque a área onde será instalado é muito rica. Por isso, em relação à área inicial pleiteada pela Vale, o projeto efetivado será muito menor. Mas é um “muito menor” com uma planta ainda maior que a de Brucutu, em São Gonçalo do Rio Abaixo. Os recursos da Cfem também serão distribuídos, porque a mina ficará 50% dentro de Caeté e 50% dentro de Santa Bárbara, com estrutura de beneficiamento toda em nosso município.

Como o senhor imagina que serão os impactos deste projeto?

Vamos ter, no caso de Caeté, um alento no aspecto das estruturas, porque vamos ter uma saída de material, uma movimentação grande em municípios vizinhos, como, por exemplo, Rio Acima, Itabirito e Raposos. Vamos ter aqui uma situação um pouco diferente do que a gente viu, por exemplo, em Brucutu, onde basicamente se envolveram São Gonçalo e Barão de Cocais. Aqui há a condição de se beneficiar um número maior de municípios. Com royalty, Caeté e Santa Bárbara, mas com os impactos do projeto, com certeza Rio Acima, Raposos, Itabirito, Barão de Cocais e Nova Lima. 

Qual a expectativa de aumento de receita com o projeto Apolo?

Ainda na fase de implantação, a arrecadação deve quase dobrar. O nosso orçamento este ano está projetado para R$ 90 milhões, contando já com as licenças da Vale e com o possível início do processo de implantação de Apolo. Como orçamento é previsão, estamos colocando a nossa expectativa nisso. Se não acontecer, não arrecadaremos os noventa e poucos milhões. No ano passado, o orçamento foi em torno de R$ 70 milhões, uma previsão um pouco maior que a execução de fato. Caeté já foi uma das dez cidades que mais arrecadaram em Minas. Hoje tem mais de 100 municípios que arrecadam mais que Caeté. O nosso orçamento é muito pequeno, mesmo com recursos da União e do Estado.

Como administrar uma cidade histórica e ao mesmo tempo mineradora?

É o desafio de quase todas as cidades do Quadrilátero Ferrífero, mas é possível. Falar que minerar não degrada é mentira. Por isso existem medidas compensatórias e mitigadoras. A nossa esperança em Caeté é conseguir a maior e melhor conciliação possível, sabendo da riqueza da região e de seu potencial hídrico.

Quais outras mineradoras têm expressão dentro do município?

Temos a Jaguar Mining, que minera ouro, inclusive dentro de uma área já explorada pela Vale. Temos a AngloGold Ashanti, também mineradora de ouro, cuja mina Cuiabá está na divisa nossa com Sabará e há expectativa de que neste ano tenhamos exploração também dentro de Caeté. No caso da Anglo Gold, é uma empresa muito importante para a nossa economia, porque na mina de Cuiabá, mais de 60% dos trabalhadores são de Caeté. Tem a AVG Mineração, que, apesar de a gente ver bem presente aqui, a área de mineração está nos nossos limites também com Sabará e a maior parte da exploração é lá, então o que vem de Cfem para o município é algo irrisório. No caso da AVG, há uma discussão até mais séria do que em relação ao Parque do Gandarela, porque a mineração está na região da Serra da Piedade. Por meio de um acordo judicial, que envolveu Ministério Público estadual e federal, Iepha, Iphan e vários outros órgãos, a AVG atuará para recuperar os danos causados pela antiga empresa que minerava no local, a Brumafer. É algo difícil de entender para nós, cidadãos, que queremos a preservação. Mas, tecnicamente, por tudo que foi mostrado no processo, é impossível a recuperação sem um processo de mineração no local e a situação atual é de risco de desastre ambiental. Representativa para o nosso município também é a Crusader, uma empresa australiana. Ela também trabalha com dificuldade na região da Serra da Piedade e está fazendo mineração a seco, que eles dizem impactar menos. São as dificuldades de conciliar mineração e preservação.

Como avalia os resultados do seu primeiro ano de governo? 

Cumprimos em torno de 26% do nosso programa de governo. Tivemos em Caeté uma eleição muito difícil. Ganhamos bem, mas precisou de muito trabalho. Foram cinco candidaturas e a nossa teve 49,64% dos votos. Encerramos o ano com a tranquilidade de que trabalhamos bem e começamos 2014 com muita expectativa. Fizemos a reforma administrativa de que precisávamos (não a ideal, mas a possível), e por isso Caeté é a segunda cidade do país que passará a contar com uma Secretaria Municipal de Política sobre Drogas, para lidar diretamente com o tema. Só há uma secretaria assim em Curitiba, no Paraná. Quando estive no Governo do Estado, atuei na área de política sobre drogas, trabalho que fez de Minas uma referência para o Brasil. Na prática, talvez esse seja um dos maiores enfretamentos, na área social, e que infelizmente poucos gestores estão preparados para lidar. Não estou me colocando aqui numa condição melhor. A experiência angariada na área social, com esse trabalho no Governo de Minas, me deu bagagem para enfrentar essa problemática de frente. Com a mineração em nosso município, o problema tende a aumentar. O governo que tem o viés de política social como carro-chefe não pode desconsiderar a política sobre drogas. Vamos enfrentar todos os problemas de frente, preservar nossa história e construir nosso futuro.

O que mais gostaria de ressaltar?

Gostaria de registrar para a DeFato e seus leitores a honra de estar prefeito neste momento histórico de Caeté. Sabemos da responsabilidade que é governar um município tão heterogêneo como o nosso. Gostaria de dizer que daremos o retorno aos cidadãos exatamente com o cumprimento do nosso plano de governo. Tenho que registrar aqui também o apoio total e irrestrito do deputado federal Rodrigo de Castro, parceiro de primeira hora do município, e também dos deputados estaduais Célio Moreira e Alencar da Silveira Jr, que muito nos tem ajudado.