Quarentões radicais

O voo livre, segundo Flávio, é indicado a pessoas de todas as idades

Quarentões radicais

Matéria publicada na edição 254 da Revista DeFato

Esporte radical pode até lembrar um bando de jovens aventureiros, cheios de adrenalina e dispostos a desafiar limites em busca de emoção. Mas também representa um grupo de quarentões loucos por altura que, se deixar, até acampam no topo da rampa de Voo Livre, em Itabira. Esses titios em particular (alguns até vovôs) são pilotos de parapente, que começaram há pouco tempo no esporte e estão “viciados” em aventura.

Nazareno Alves Alvarenga, 54 anos, natural de Santa Maria de Itabira, é um deles. Casado, pai de dois filhos, Naza, como é conhecido, fez os primeiros contatos com o esporte por curiosidade. Apesar de morar em Itabira desde 1990, quando deixou a comunidade rural de Tatu, frequentava pouco a rampa. De uns dez meses para cá, em busca de um estilo de vida diferente, resolveu arriscar-se a sair do chão ao ver outras pessoas de idade semelhante à sua decolar e pousar feito pássaros.

“Eu procurava liberdade, queria sentir algo diferente. E aqui tudo isso é possível, sem prejudicar a natureza. É muito gostoso estar nas alturas, voando junto dos urubus”, afirma. (O urubu é uma referência para os praticantes de voo livre, por aproveitar as mesmas correntes de ar que proporcionam voos com maior sustentação).

Nazareno é aluno de Flávio Valadares, um dos únicos instrutores da região, que tem ganhado vários alunos nos últimos tempos com mais 40 anos. É verdade que praticantes nessa faixa etária não são exatamente uma novidade, principalmente considerando que o pioneiro da modalidade em Itabira é o piloto José Leôncio Pereira, hoje com 60 anos. Mas até pouco tempo atrás eles eram minoria.

O voo livre, segundo Flávio, é indicado a pessoas de todas as idades, sobretudo por não exigir um grande preparo físico. Pessoas com até 80 anos podem se aventurar, desde que não tenham nenhum grave problema de hipertensão, coração fraco ou medo de altura. “Não é um esporte para loucos. É para apaixonados”, define Flávio, responsável pela formação de mais de 90% dos praticantes de parapente em Itabira.

Com 44 anos e uma dezena de voos no currículo, o principiante Argemiro Alves Ferreira também se apaixonou no primeiro contato com o esporte. Quando decolou pela primeira vez do topo da rampa, a 1.100 metros do nível do mar, Miro afirma que sentiu um frio na barriga quando os pés saíram do chão. “Você não sabe o que vai enfrentar lá em cima, mas no final é tranquilo. A gente pega experiência antes na escolinha e não chega aqui totalmente inexperiente”, conta o também santa-mariense. A escolinha a qual se refere é uma rampa menor, usada pelo professor para treinar decolagem e pouso.

Diversão

A maioria dos pilotos da faixa dos 40, 50 anos quer mesmo é se divertir. De maneira geral, o esporte em Itabira não tem um viés competitivo, até porque os adeptos não têm patrocínio e, por isso, ficam impossibilitados de se preparar à altura dos campeonatos. Mesmo assim, a exigência quanto à segurança é a mesma.

O esporte é radical, mas se o piloto seguir todas as orientações e usar os equipamentos obrigatórios de segurança, os riscos são mínimos, de acordo com o professor. Por isso, antes da prática, todos passam por aulas teóricas e aprendem sobre tempo, direção do vento, controle do parapente para voos maiores ou menores e procedimentos em situação de emergência. “99% dos acidentes acontecem por três motivos: imprudência, desconhecimento e excesso de autoconfiança”, explica Flávio, que tem fama de ser exigente quando o assunto é segurança.

O objetivo dos praticantes é difundir cada vez mais o voo livre em Itabira e região, atrair novos participantes (de qualquer idade) e transformar a cidade em referência no esporte. Privilegiado por uma rampa de boa qualidade, o município tem inclusive uma entidade que representa o segmento, a Associação Itabirana de Parapente. Para quem ainda não conhece a sensação de voar, Miro convida: “Se você gosta de uma aventura ou está em busca de um esporte, venha para cá e faça um voo duplo. Tenho certeza de que vai gostar”.

 Estrutura

Apesar de apresentar boas condições, a rampa de voo livre de Itabira ainda precisa de melhorias. A estrada de terra que dá acesso ao cume nem sempre está em boas condições e a estrutura básica para decolagens de parapente e asa delta pode ser melhorada. Os diretores da Associação Itabirana de Parapente lutam por melhorias estruturais no local, como um banheiro, um piso gramado ou calçado e talvez uns quiosques que proporcionem mais conforto aos usuários. A rampa está dentro de quatro terrenos diferentes.