Revista escrita por detentas da Apac é lançada em Rio Piracicaba
Detentas da Apac de Rio Piracicaba fizeram todo trabalho de produção da revista, inclusive fotos
O início de 2017 foi marcado por manchetes de rebeliões, chacinas, fugas e massacres em presídios de todo Brasil. Tragédias em unidades superlotadas ganharam os grandes jornais e escancararam a situação do sistema prisional brasileiro. É nesse contexto que a revista A Estrela – periódico realizado por pessoas privadas de liberdade – chegou, pela primeira vez, a uma unidade feminina, a Associação de Proteção e Assistência ao Condenado (Apac) de Rio Piracicaba, distante cerca de 50 quilômetros de Itabira.
Em sua terceira edição, a revista, agora realizada por 20 mulheres que cumprem pena, foi lançada na sexta-feira da semana passada, 10 de março. Histórias de abandono, agressões, torturas, coragem e resignação deram forma a 32 páginas de textos e fotos com a perspectiva única de quem vive a realidade de uma unidade prisional. O lançamento aconteceu na própria Apac de Rio Piracicaba e o trabalho pode ser conferido no link a seguir: http://www.projetovoz.
“Pela primeira vez contamos com uma turma de mulheres. Elas que acabam abandonadas pelos companheiros que antes já visitaram sob chuva ou sob sol em outros presídios. Elas que se preocupam com os filhos do lado de fora e sabem que são negligenciados por toda a sociedade como elas foram e ainda são. Elas que um dia foram violentadas, agredidas, negadas. E ainda são. Elas que (dizem) são o sexo frágil se mostram fortes”, destacam a jornalista Natália Martino e o fotógrafo Leo Drumond, idealizadores do projeto, no editorial que abre a terceira edição da Estrela. “Enfrentam temas que nenhum participante deste trabalho já tinha encarado. Buscaram em suas memórias as mais profundas dores. Questionaram o que tantos querem tornar natural. Elas, de quem pouco se esperava, fizeram mais do que qualquer um já fez antes nesta revista”, continuaram.

Detentas se jogaram no projeto e contaram histórias de luta e sofrimento Foto: Divulgação A Estrela
Durante o curso, as participantes da Apac Feminina de Rio Piracicaba participaram de aulas teóricas, práticas monitoradas, discussão de pautas e tempo para produção de conteúdo dentro da unidade prisional. A revista será um canal de expressão das detentas, com funções informativas e artísticas. “Em outros trabalhos do Projeto Voz, tivemos a oportunidade de ir a unidades carcerárias femininas e ficou evidente para nós que a prisão tem impactos diferentes em suas vidas e nas vidas de suas famílias”, destaca Martino.
Segundo a jornalista, em um sistema carcerário feito por homens e para homens, as mulheres costumam passar por privações maiores dentro das unidades e, ainda, sofrem mais com o abandono dos familiares. “Até os crimes pelos quais são condenadas têm características muito diferentes. Por isso é importante termos essa edição da revista A Estrela com as mulheres, para que elas falem das suas realidades e nos ajudem, assim, a ter mais um pedaço desse quebra-cabeça enorme que é o sistema carcerário”.

Detentas participaram de aulas práticas antes de produzir revista Foto: Divulgação A Estrela
Apac Feminina de Rio Piracicaba
A Apac Feminina foi fundada em 19 de fevereiro de 2008 e recebe condenadas da Região do Médio Piracicaba e outras cidades e disponibiliza de 46 vagas divididas em regimes semiaberto e fechado. O método Apac baseia-se na valorização humana oferecendo aos condenados condições de recuperação, sem perder de vista a finalidade punitiva da pena. Busca também, em uma perspectiva mais ampla, a proteção da sociedade, a promoção da justiça e o socorro das vítimas.
A revista
Homenagem ao periódico homônimo que circulou na década de 1940. A Estrela era produzido na Penitenciária Central do Distrito Federal e publicava artigos feitos por detentos ao lado de textos escritos por grandes expoentes do direito penal no período. Um editorial de 1944 resume bem o perfil da publicação: "Quem melhor do que o próprio encarcerado poderá indicar aquilo de que mais carece? Para que legislar, decretar; para que conferências penitenciárias se àquele mais fundamentalmente visado por essas medidas é recusado o direito de falar, e quando os seus mais justos anseios devem ser recalcados?".