Um grande idealista

Dr. Damon: “Enquanto existir um abismo muito grande entre os pobres e os ricos, vamos sofrer”

Um grande idealista

 

Filho de operário da Vale, nascido e criado no bairro Conceição, o prefeito eleito de Itabira cresceu com um sonho: cuidar das pessoas. Chegou a fazer curso técnico no Senai, seguindo a tendência dos itabiranos que almejam trabalhar na Vale, mas a vocação o fez médico.
 
O pai, José Nicolau de Sena, morreu aos 51 anos, vítima de alcoolismo e tabagismo; a mãe, Izabel Margarida Rocha de Sena, tem 75 anos e muita energia. Participou de praticamente toda a campanha do filho rumo à prefeitura.
 
Quando jovem, Damon Lázaro de Sena não pensava em ser político, mas a vontade de reduzir o abismo entre os ricos e os pobres mudou suas intenções. “Falei com a minha esposa que aos 40 anos entraria para a vida política e que alguém teria de lançar meu nome”, conta, aproveitando para citar e agradecer ao presidente do Partido Verde (PV), Jadir do Espírito Santo, que foi quem se encarregou do papel.
 
A vitória nas urnas veio após três tentativas – assim como a aprovação no vestibular de Medicina da UFMG.  Uma conquista e tanto: mais de 70% do eleitorado – um recorde histórico. “Não esperava essa diferença toda não. Foi uma surpresa boa, que aumenta ainda mais a responsabilidade”, afirma.
 
Casado com Áurea Aparecida Cardoso Marques de Sena, com quem tem os filhos Mateus, 11 anos, e Isadora, 7, Dr. Damon também é pai de Lauro Henrique, de 22 anos.
 
Como foi o começo de sua vida profissional?
Nasci no bairro Conceição de Baixo, onde fiquei alguns meses e me mudei para o Conceição de Cima, onde morei por 17 anos. Depois fui para o bairro Amazonas. Aos 19, fui para Belo Horizonte. Até então nunca tinha saído de casa, era um verdadeiro capiau… (risos). Se soubesse que seria tão difícil, talvez não tivesse ido. Mas a gente dá os pulos. Arrumei uma pensão lá, juntei as malas e fui embora – inclusive contra a vontade de meu pai. Era agosto de 1984. Fiz provas no final de 1984, final de 1985 e de 1986, quando consegui passar no vestibular de Medicina da UFMG. Entrei na faculdade em 1987 e formei em 1992. A grana era curta e a pensão era lugar de dormir, estudar e tomar banho. A única coisa que servia era café da manhã. Eu e mais três morávamos no mesmo quarto. Eu era o mais pobre, filho de operário da Vale. Tinha um que era filho de dentista de Valadares, outro filho de fazendeiro de Nanuque, e outro filho de um homem que mexia com pedras preciosas, também em Valadares.
 
Em 1985, uma amiga me arrumou um emprego de office boy numa clínica odontológica. Aí mudei para uma república de itabiranos. Aprendi a administrar meio salário mínimo. Tive condições de ajudar a pagar minha mensalidade e com esse pouco dinheirinho conseguia comprar minhas coisas e ajudar dentro de casa. Quando vinha para Itabira, nos finais de semana, vendia laranjinha nos campos de futebol aos domingos para complementar o dinheiro da passagem.
 
Ainda jovem o senhor descobriu que era isso mesmo que queria, cuidar das pessoas?
Justamente. Inclusive recebi uma mensagem bonita pelo Dia do Médico: “Há médicos do corpo e médicos da alma. Felizes aqueles que, como você, conseguem reunir as duas profissões”. Pouca coisa escrita, mas de uma profundidade extrema.
 
Quando acabei de estudar, só voltei para Itabira porque me fizeram fazer um concurso da Polícia Militar. Tinha certa insegurança em voltar porque estava muito bem em BH; fazia plantão no Hospital Eduardo Menezes e no Hospital João XXIII e tinha intenção de ir para a Santa Casa. Nessas idas e vindas para BH, tive a grata satisfação de conhecer o capitão Júlio, da Polícia Militar. O capitão vinha conversando muito a respeito da necessidade de um médico para a tropa itabirana, e me colocou em contato com o tenente Jurandir, comandante do 26o Batalhão da PM na época. Retornei para Itabira como médico da PM, em 1998, mas continuava trabalhando na capital porque desenvolvia um trabalho importante na área de infectologia do Eduardo Menezes.
 
Ajudei a montar equipes especiais na Policlínica de Itabira e entrei para a equipe do Pronto-Socorro, onde fiquei até 2001. Saí do PS por falta de condições de trabalho. Hoje, a condição de trabalho melhorou assustadoramente, mas na época que eu estava lá não podia fazer exames que são essenciais para a urgência. Também trabalhei no Clóvis Alvim, em Ipoema, no Dr. Saad (onde funciona hoje o Hiperdia), além do consultório.
 
Na primeira eleição nossa, de 2004, alguns militantes que foram fazer campanha nos bairros Clovis Alvim e Madre Maria de Jesus me diziam: “Damon, você carregou aquele povo no colo?”. Eu respondia: “Os tratei como gente”. É isso que o povo precisa. Vemos grande quantidade de pessoas embriagadas na cidade. É a falta de oportunidade, de dignidade, a perda da auto-estima.
 
Qual sua relação com o futebol amador?
Como atleta, sempre fui participativo, de completar time… (risos) Sempre fui ruim de bola, então quase nunca fui titular. Mas o futebol foi a forma que encontrei de dar retorno à sociedade daquilo que recebi. Acho que a presença do Damon, enquanto médico no meio do futebol amador, serve de exemplo para aqueles meninos que estão lá. Eles sabem que o Damon um dia foi menino de pé no chão, lá na Conceição, jogando bola no meio da rua, descalço, e que hoje é médico. Acho importante esse exemplo. Vejo o esporte, além de ser um investimento barato para se promover saúde, uma atividade carregada de função social. Os jovens no futebol têm treinador, tem regras. O esporte ensina os futuros cidadãos a viver bem na sociedade. É a frase: vamos educar as crianças de hoje para não precisar punir os adultos de amanhã.
 
Quando decidiu entrar para a política?
Acho que foi antes de eu me casar, quando disse para Áurea que aos 40 anos eu entraria para a política. Disse também que aos 60 anos iríamos para o Nordeste, para a região de sofrimento, ensinar para o povo de lá que dá para melhorar de vida simplesmente com a mobilização da comunidade. Mas a gente vê tanto sofrimento aqui, tanta desgraça, que não sei nem se precisa ir para lá. Vi em um dos jornais de TV noturnos que a imigração do Nordeste para a região Sudeste diminuiu mais de 23%, e eles estão retornando para a terra natal. Isso é muito bom.
 
O senhor sempre foi um idealista?
Sempre fui e não tem jeito de mudar. Enquanto existir um abismo muito grande entre os pobres e os ricos, vamos sofrer, tanto os ricos quanto os pobres. Temos que diminuir esse abismo. Se você der o mínimo de dignidade às pessoas, até quem tem muito dinheiro vai viver melhor. Diminuir a violência, o sofrimento; aumentar a distribuição de renda; proporcionar o direito à moradia, à educação de qualidade, à saúde de qualidade, ao lazer, ao esporte… Acho que se você trabalhar bem o dinheiro público até uma cidade pobre fornecerá condições melhores para a população. É só trabalhar direitinho.

Há informações de que Reginaldo Calixto poderá ser secretário. Já há definições nesse sentido?
O Reginaldo é vice-prefeito e a lei permite que ele ocupe mais espaço no governo. É uma pessoa com boa formação, com competência para ocupar vários cargos. Lá em 2004, se eu ganhasse aquela eleição, o Reginaldo já poderia ser um secretário de Desenvolvimento porque estava à frente da Acita, uma entidade importante. Não temos nada definido ainda não. Queremos uma gestão que seja eficiente, sustentável, técnica, honesta, ética e transparente. Eu sempre falo: se eu sair do governo sem ter 80% do nosso plano realizado, não vou sair satisfeito.
 
Os partidos de sua base não conseguiram maioria na Câmara. Como pretende contornar essa situação?
Na realidade, é conversar com os vereadores. Não vai faltar reuniões e diálogos para a gente acertar as coisas com os vereadores de outros partidos. Conheço vários deles, alguns até já tiveram dentro do nosso partido, como o Toninho da Pedreira (PTN). Tenho certeza de que os vereadores querem o bem da cidade. O próprio Solimar (PSDB), que é amigo meu da Conceição. Acho que não vai haver dificuldade de conversar. O vereador tem de cumprir a função dele, de ajudar o Executivo para que Itabira cresça com uma gestão eficiente. Executivo e Legislativo têm de trabalhar em conjunto para uma cidade melhor.
 
A nível federal e estadual, Itabira não tem representante. Como conseguir recursos para a cidade?
Falo o seguinte: por que ganhamos a eleição? Porque estamos fazendo um trabalho desde 2004, em oposição à forma de fazer política dentro da cidade. Mas ganhamos também porque a população amadureceu. O voto majoritário ganhou qualidade com a conscientização da população. A política é a única forma de promover grandes transformações sociais.
 
Fizemos uma oposição de trabalhar o racional da população, de trabalhar a cabeça do cidadão. Ganhamos a eleição porque a população, com essa conscientização, se mobiliou pela mudança. E o que a gente tem de fazer agora é conscientizar a população, não só de Itabira, mas da região, do compromisso do voto com o deputado estadual e federal, que representem a região.
 
Itabira é polo e tem de pensar como polo. A gente sabe que nesse país as coisas acontecem por vontade política. Por isso temos de ter deputado federal e estadual. Assim teremos forças para viabilizar verbas para cá, para desenvolver a nossa região. Itabira precisa de aeroporto, de recursos para captar água, de distrito industrial, da duplicação da BR-381. Tudo isso passa por força política. A nossa região tem algo em torno de 400 mil pessoas e tem força para eleger representantes.
 
O senhor se surpreendeu com a quantidade de votos?
Tenho acompanhado a cabeça do eleitor há mais ou menos um ano e meio. Tinha um espírito tranquilo em conseguir a vitória, pelo que eu via nas pesquisas. Mas não fiquei quieto, tanto que trabalhei até o último dia.  Não esperava essa diferença toda não. Pelas pesquisas, achei que ficava entre uns 10 mil, 15 mil votos [de frente]. Trinta e quatro mil votos me surpreendeu. Foi uma surpresa boa, que aumenta mais ainda a responsabilidade nossa, de realmente cumprir aquilo que pregamos o tempo todo, de fazer um governo de conquistas, um governo para todos. A gente quer chegar em janeiro fazendo diferente.