De família síria, empresário nem pensa em visitar o país de seus avós
Semer Hissa atualmente mora em Itabira, onde dirige a clínica Examinar
Mais de 130 mil pessoas morreram na Síria desde que começou no país, há três anos, uma guerra civil descrita como sem precedentes. De um lado, a oposição alega que luta para destituir o ditador Bashar al-Assad do poder. Do outro, o governo diz estar apenas combatendo "terroristas armados que visam desestabilizar o país". Nesta semana, líderes mundiais se reuniram para discutir um acordo de paz, intermediado pela ONU, mas há muitas dúvidas quanto ao resultado das negociações.
Em Itabira, o empresário Semer David Hissa, 50 anos, acompanha o desenrolar de mais este conflito no país de seus ascendentes. Natural de Belo Horizonte, ele é neto de sírios que vieram para o Brasil clandestinamente há mais de 70 anos em busca de refúgio – na época também por causa de guerras internas. Mesmo sendo brasileiro, Semer aprecia muito a cultura, as tradições e, principalmente, a aptidão do seu povo pelas atividades comerciais. Mas não pensa em voltar à terra dos avós, nem como turista.
Aqui no Brasil, seus pais se uniram em casamento arranjado, como na tradição árabe, dentro das chamadas comunidades sírias. Sua mãe, Samira Sarsur David, hoje com 75 anos, e seu pai, Hissa David, casaram-se primeiro e se apaixonaram depois. Hissa morreu quando Semer ainda era criança. Se estivesse vivo hoje, teria 80 anos.
Estimulado pelo pai e o avô, Semer conquistou sucesso na área comercial ao longo da carreira. Trabalhou em grandes empresas Brasil afora e hoje é diretor da Examinar, clínica de saúde ocupacional que dirige em parceria com o irmão Samyr. O gosto pelo comércio começou ainda na infância, quando, nas reuniões de família, Semer, com cinco anos apenas, vendia para o avô figurinhas de suas coleções. “Eles ficavam felizes com aquilo”, conta.
O Brasil é um dos países que tem várias comunidades sírias, pessoas que deixaram a terra natal em busca de refúgio. Muitas delas fazem sucesso por aqui, principalmente por serem muito cautelosas quando o assunto é gastar dinheiro.
Semer lembra, com bom humor, de um caso que aconteceu com um parente seu no Brasil. Após comprar em um comércio e perceber que a atendente havia lhe voltado o troco errado (algo em torno R$ 1 nos dias de hoje), o rapaz voltou tão depressa para reaver o prejuízo que, ao atravessar a rua sem observar o trânsito, acabou atropelado. Essa fama de “mão fechada”, segundo ele, faz parte da cultura. “Todos lá adoram fazer negócio”, comenta.
Outro costume do qual a família não abre mão são as reuniões. Todo domingo, três gerações se reúnem para o tradicional almoço típico na casa da mãe de Semer, que tem no cardápio quibe cru, esfiha, malfuf, pão sírio entre outras iguarias. Tudo em abundância. “A gente se reúne por qualquer motivo. É algo realmente muito importante para nós”, conta.
E assim os costumes vão se misturando. Os pais de Semer se conheceram em casamentos arranjados, mas ele já teve a liberdade para escolher sua esposa: casou-se com uma monlevadense. Para eles, o Brasil é terra de oportunidade e a vida por aqui é muito mais promissora – e tranquila.