Madoff mineiro tem medo de morrer na cadeia
De camisa listrada, bermuda e chinelo, Thales Maioline se apresentou domingo na Delegacia Regional Noroeste, em BH
Depois de passar 140 dias escondido na Bolívia, boa parte do tempo acampado na Floresta Amazônica, o ex-investidor Thales Maioline, de 34 anos, apresentou-se domingo às autoridades policiais, conforme antecipou na véspera a reportagem do Estado de Minas. Em entrevista exclusiva, minutos antes de se entregar, às 14h30, Maioline revelou que teme ser morto na prisão. “Estou morrendo de medo, mas não é da Justiça, e sim das pessoas que aplicaram dinheiro comigo. Tenho consciência de que 2 mil famílias me querem mal e por isso posso ser morto esta noite dentro da cadeia”, desabafou o homem que ficou conhecido como Madoff mineiro por supostamente usar esquema de pirâmide financeira no mesmo modelo do ex-investidor de Wall Street Bernard Madoff, condenado a 150 anos de prisão nos Estados Unidos.
Acusado de sumir com R$ 86,1 milhões de dois mil investidores da Firv Consultoria e Administração de Recursos Financeiros Ltda., no domingo mesmo Maioline já recebia ameaças anônimas pela internet. No portal do Em.com, o comentário publicado por um internauta dizia que Thales não iria sobreviver atrás das grades por ter deixado dívidas inclusive com um delegado.
Depois de passar pelo exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal (IML), o ex-investidor seguiu dentro de viatura policial direto para o Centro de Remanejamento do Sistema Prisional (Ceresp), do Bairro São Cristóvão. Conforme prevê o mandado de prisão número 02410189092-9, expedido em 6 de agosto pelo juiz da Vara Criminal de Inquéritos Policiais, ele teria direito a permanecer obrigatoriamente separado dos demais detentos. O mais certo, porém, segundo o advogado Marco Antonio Andrade, era ser levado para cela com o menor número possível de presos temporários, em função da superlotação carcerária.
Nesta segunda-feira, os advogados de defesa de Maioline entram com pedido de revogação da prisão temporária de cinco dias na Justiça, alegando que, apesar de ter ficado foragido por mais de quatro meses, o cliente se apresentou espontaneamente aos policiais, é réu primário e terá endereço fixo a partir de agora. Por ter concluído somente o segundo grau, ele não poderá ser beneficiado com o atenuante de quem tem diploma de ensino superior. “Vou responder o processo em liberdade porque não represento perigo à sociedade, mas sei que vou ser julgado e condenado pelo meu erro. Não há como escapar disso. Os advogados não têm como fazer milagre”, acredita Maioline.
Na chegada à delegacia, às 14h30, o golpista financeiro mais procurado do país usava bermuda, chinelos Havaianas e blusa de malha listrada em preto e branco. Em raro momento de descontração durante a conversa, brincou que já estava caracterizado como metralha (dos Irmãos Metralha, personagens de Walt Disney), antes mesmo de vestir o uniforme de prisioneiro. “Já voltei sabendo de tudo o que vai acontecer comigo. Sei que vou ser preso, vou ser fotografado com roupa de cadeia e que a minha imagem vai ser achincalhada pela sociedade. Mas vou provar que nunca quis dar golpe em ninguém e que a minha empresa, na verdade, faliu”, desabafou.
Apesar de dizer que estava mais tranquilo agora do que fugindo, Maioline não escondeu o estado de total ansiedade. Disse não ter conseguido dormir à noite e que, por volta das 3h30, desmaiou de cansaço. Antes de seguir para a cadeia, comeu um prato de frango a passarinho, que não é a sua refeição preferida. Evitando envolver os familiares na confusão, ficou impedido de provar o prato que mais aprecia: a feijoada preparada pela mulher, Maria Aparecida Olivieira dos Santos, mãe de sua filha de um ano.
Confira o que passava pela cabeça de Thales Maioline minutos antes de se entregar:
. Sentimentos hoje
“Estou muito mais tranquilo agora do que fugindo. Pelo menos, posso falar que eu sou o único responsável pela Firv e que os investidores e minha família não têm nada a ver com isso.”
. Sensação de ser preso
“Já voltei sabendo de tudo o que vai acontecer comigo. Sei que vou ser preso, vou ser fotografado com roupa de cadeia e que a minha imagem vai ser achincalhada pela sociedade. Mas vou provar que nunca quis dar golpe em ninguém e que a minha empresa, na verdade, faliu.”
. Futuro na prisão
“Vou responder o processo em liberdade porque não represento perigo à sociedade, mas sei que vou ser julgado e condenado pelo meu erro. Não há como escapar disso. Os advogados não têm como fazer milagre.”
. Medo da morte
“Estou morrendo de medo, mas não é da Justiça, e sim das pessoas que aplicaram dinheiro comigo. Tenho consciência de que 2 mil famílias me querem mal e que posso ser morto esta noite dentro da cadeia. Foi por isso que eu fugi.”
. Dinheiro dos investidores
“Em 20 de julho, saí reunindo tudo o que eu tinha nas contas da Firv para pagar R$ 6 milhões em dividendos. Se raspar o tacho e buscar nas corretoras em que eu operava, deve ser sobrado uns R$ 180 mil. Foi por isso que eu fui a São Paulo atrás do empresário que prometeu investir R$ 20 milhões no negócio. Se eu tivesse conseguido, poderia adiar a quebra por mais quatro meses e pôr em prática o plano de recuperação da minha empresa. Mas não deu tempo.”