Ao receber o convite do prefeito Damon Lázaro de Sena (PV) para assumir a gestão da cultura em Itabira, o artista plástico, designer e professor Marconi Drummond Lage, 48 anos, levou um susto. Sua carreira artística estava toda em Belo Horizonte – além da família. Mas como todo itabirano, o vínculo com a cidade natal foi mantido durante os anos em que esteve fora, e o desafio foi aceito.
De volta a Itabira, Marconi encontrou a cultura em “situação precária”, tanto no que diz respeito à estrutura física, quanto conceitual. Sua missão é vencer os obstáculos e recuperar a autoestima cultural da terra do poeta maior. “Louvo aqui todos os gestores anteriores. Sei que trabalharam com empenho e encontraram muitas dificuldades, assim como eu também estou encontrando. Fazer cultura no nosso país não é fácil”, pondera. Na entrevista a seguir, o superintendente fala sobre a situação da TV Cultura, das expectativas para o Festival de Inverno, dos desafios de aumentar a verba para a cultura e sobre a Lei Drummond.
O senhor é itabirano, mas ficou muito tempo fora. Como é estar de volta?
Isso é bastante interessante. Saí de Itabira para estudar Artes Visuais na Universidade Federal de Minas Gerais e lá fiquei. Fiz toda a minha carreira em Belo Horizonte como artista, como curador, produtor cultural, designer gráfico, enfim. Toda a minha atuação gira em torno da arte e da cultura. Ano passado tive esse aceno, esse convite do Dr. Damon, para assumir a Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade. Meu vínculo com a cidade é muito forte, é um vínculo afetivo. Sou itabirano, meus pais, meus avós, bisavós… Portanto, conheço muito bem a cidade. Minhas primeiras experiências com arte e cultura se deram aqui, no Festival de Inverno. Foi em Itabira que acendeu em mim essa fagulha e o desejo de trabalhar com arte e cultura. Portanto, minha relação é mais que uma relação de afeto, é uma relação histórica mesmo com a cidade.
O senhor vem de experiências importantes do setor privado…
Nos últimos seis anos, tive duas experiências no poder público, quando assumi a direção da Escola de Arte Rodrigo Franco de Andrade, da Fundação de Arte de Ouro Preto, e a curadoria do Museu de Arte da Pampulha, que é um museu municipal. Fiz programação cultural, programas expositivos, formação de acervos, entre outros. Permaneci, então, no Museu de Arte da Pampulha. Mas paralelo a isso, sempre realizei projetos de curadoria, sempre dei continuidade às minhas atividades em vários projetos expográficos, organização e planejamento de exposições de artes visuais, enfim; transitei nessas inúmeras vertentes.
A família também está de volta?
Minha família permanece em Belo Horizonte, e eu fico aqui ao longo da semana. Mas acho interessante esse deslocamento. A minha função como superintendente exige que eu tenha essa comunicação, esse trânsito aberto com esse centro de produção, de formação, que é Belo Horizonte. É importante que a produção de Itabira esteja conectada à produção da capital. Os organismos de fomento, a Secretaria de Estado, as outras fundações de artes e cultura, as galerias de arte, as bibliotecas… É muito interessante que a Fundação esteja em pleno contato com outros centros produtores de cultura, fazendo esse trânsito de mão dupla. Belo Horizonte é muito perto. Se não fosse a BR-381, seria muito tranquilo, são apenas 100 quilômetros. A família fica um pouco comprometida, reclama um pouco, mas por enquanto está sendo fácil administrar.
Como o senhor encontrou a cultura de Itabira?
Itabira é uma cidade que tem lastros culturais e históricos. É uma cidade que tem um escopo cultural muito forte. Também é uma cidade invejável do ponto de vista de equipamentos culturais, com um teatro, uma galeria de arte, uma biblioteca, tem a Concha Acústica, o Memorial, a Casa de Drummond. São seis equipamentos ao todo. Não é qualquer cidade que tem a estrutura que Itabira tem. No entanto, o que a gente encontra quando começa a mapear, a conhecer, a diagnosticar essa estrutura invejável, é uma situação precária, tanto no que diz respeito à estrutura física, quanto à estrutura conceitual. O plano cultural é uma área que necessita de muito cuidado, de muito zelo e empenho. Louvo aqui todos os gestores anteriores. Sei que trabalharam com empenho e encontraram muitas dificuldades, assim como eu também estou encontrando. Fazer cultura no nosso país não é fácil. Os investimentos são pequenos, a cultura exige um aparato grande porque exige investimentos, exige equipamentos, uma equipe de profissionais especializados. Engana-se quem pensa que qualquer pessoa com qualquer recurso faz cultura. Cultura é sofisticada, exige um aparato bastante fino para que se estabilize e se realize. Cheguei e fiz uma avaliação parcial da estrutura, mas penso que vamos levar tempo para conhecer e mapear toda a estrutura da cidade. É uma cidade grande, que exige uma prospecção mais aguçada.
Como está a situação da TV Cultura? A previsão inicial era de voltar em três meses, mas não voltou.
Eu nunca acreditei que a TV pudesse ser recuperada em três meses. A TV, como todos sabem, se encontra num estado bastante precário. Quando falo estado precário, falo de várias formas. A TV está com todas as licenças e outorgas vencidas. Tanto que estava atuando de forma ilegal e foi fechada pelo Corpo de Bombeiros por causa da falta de plano de combate a incêndio. Os equipamentos estão bastante sucateados, a edificação em estado precário de funcionamento, os programas terceirizados com grande número de inadimplentes, o selo editorial muito comprometido (porque tem que ser cultural e educativo). Os programas da TV tinham outros fins, programas editoriais com outras abordagens e objetivos. Todo esse cenário caótico, precário, vai levar tempo para ser reconstruído. Temos um plano emergencial para que a televisão retorne de forma eficiente, com uma recuperação inicial. Estamos trabalhando nas licenças e outorgas, planejando uma pequena reforma do estúdio e trabalhando com uma revitalização e um desenho de um novo cenário. Estamos também fazendo investimentos na parte de equipamentos, que estão obsoletos e precários, para que a equipe tenha condição de trabalhar. A revitalização do estúdio é um ponto importante, além da reestruturação da equipe técnica. Existe uma expectativa que a programação retorne em julho – é uma expectativa, gostaria de frisar isso. Também estamos dialogando com as instituições legitimadoras do processo: a Anatel, o Ministério das Comunicações, a Fundação Padre Anchieta, a própria corporação do Corpo de Bombeiros. Precisamos de respostas efetivas desses organismos.
Quando será gasto na reestruturação da TV? Soube que serão pelo menos R$400mil.
Temos uma previsão inicial, fizemos mapeamento desses custos, que somam um valor aproximado deste. É importante dizer que esses custos cobrem essa primeira fase emergencial da TV Cultura. Se pensarmos em uma nova instalação, na reconstrução da equipe, no investimento de capacitação dessa equipe, o valor vai muito além. O que a gente está tentando é trabalhar por etapas. Numa primeira etapa, um plano emergencial para que a TV retorne e cumpra sua função cultural e educativa. Numa segunda etapa, um plano maior, um plano de realmente construir uma TV de temática sólida, que requer maiores cuidados, portanto, que exige investimentos maiores.
Já tem novidades sobre a 39ª edição do Festival Inverno?
Toda Fundação está empenhada na construção, elaboração e planejamento do 39º Festival de Inverno de Itabira. É um festival, como todo mundo sabe, que acontece há 39 anos ininterruptamente, um dos mais tradicionais festivais de inverno do país. Para a 39ª edição, recebemos mais de 350 propostas via edital. Essas propostas já foram avaliadas e publicadas e contemplam vários segmentos artísticos: artes cênicas, artes plásticas, teatro, música, enfim. Estamos também compondo a programação de eventos do festival. O que é interessante ver é que é um festival pautado. Vamos ter um cardápio bastante forte de cursos e oficinas. Essa é uma tônica do festival. A gente está trabalhando numa agenda interessante, aquecida, de eventos, espetáculos e shows. Mas vamos priorizar a parte de informação. Entendemos que precisamos criar, dar condição ao itabirano interessado em arte e cultura, de se fazer sua formação. E para isso, vamos trazer um cardápio de cursos bastante diversificado, com grandes profissionais. A ideia é que o festival aconteça entre os dias 7 e 28 de julho, portanto, três semanas. Não ficará inserido somente nos equipamentos culturais da fundação. Desejamos estendê-lo por toda a cidade.
A partir de agora, pretende divulgar a programação dos festivais com mais antecedência?
Nessa edição, o nosso planejamento é publicar, em meados de junho, toda a agenda do festival. A ideia é que até o dia 20 a agenda cultural esteja impressa e disponível. Desejamos fazer isso com antecedência.
Nomes importantes da cultura nacional vão integrar a programação?
Sim, mas não podemos adiantar, porque ainda são negociações que estão em processo. Mas já, já chamo vocês para anunciar isso.
A agenda programada tem sido muito elogiada pela população. Será foco da gestão do senhor?
É uma experiência na qual a gente acredita. Fizemos a primeira agenda em abril, uma agenda que contempla os vários segmentos culturais, que quer dialogar com os variados públicos itabiranos, que tenta ocupar os nossos equipamentos culturais, mas também se estender pela cidade. A ideia é que todo mês a gente tenha uma agenda previamente planejada, impressa e nas redes sociais. Estamos fortalecendo o plano de comunicacao da Fundação, sabemos que ele ainda é insipiente. Desejamos que ele se fortaleça, porque há uma discussão na cidade de que existe uma programação interessante, mas que não chega aos cidadãos. Todo mês o itabirano pode esperar uma agenda previamente planejada, diversificada, que contemple diversos públicos, que trabalha espetáculos e eventos, mas também a parte da formação. A agenda de maio tem um tom de celebração, que discute a Abolição da Escravatura. Ela também é um instrumento, um objeto de discussão. Não é simplesmente um instrumento informativo. É um suporte para discussão de ideias. Essa é a nossa proposta. Estamos aprendendo a fazer, aberto as discussões, colaborações e críticas.
Existe muita reclamação por parte do artista com relação a recursos. Falta dinheiro?
Falta. Isso não é condição da cultura itabirana. É uma condição da cultura brasileira. Temos assistido a um aumento dos investimentos na área cultural, seja por meio de programas do Ministério da Cultura, seja nos programas da Secretaria de Estado da Cultura. No nosso município, o orçamento deste ano é muito pequeno, porque foi programado em 2012. São cerca de R$ 4 milhões para a cultura inteira. É um valor para quitar toda a folha de pagamento, toda a parte de custeio, de infraestrutura, manutenção, água, luz etc. Com isso, o investimento na ação cultural fica absolutamente comprometido, porque o investimento maior fica para área de estrutural da Fundação. Temos de ampliar esse recurso. Obviamente que a Fundação tem personalidade jurídica para buscar recursos de outras iniciativas. Não precisamos ficar reféns da prefeitura, que nos viabiliza uma verba extremamente importante. Mas a Fundação tem condição de buscar outras verbas, de outras fontes.
É fácil?
Não, não é fácil. É sempre via lei de incentivo ou via editais de entidades como BNDES, Caixa Econômica Federal, Petrobras, Ministério da Cultura e Secretaria de Estado da Cultura. Temos de ter uma espécie de agência de fomento aqui dentro, que seja capaz de formatar os projetos e buscar esses recursos. Hoje não tem. A equipe é muito pequena, não está preparada. Temos de fazer uma capacitação em gestão cultural para os profissionais atuarem nesse campo.
A Lei Drummond precisa ser atualizada?
Sem dúvida nenhuma. Não existe absolutamente nenhum tipo de divergência nesse sentido. A Lei Drummond é um instrumento importante de fomento para a cultural itabirana. No entanto, ela precisa ser reformulada, repensada. O patamar de investimento é muito baixo. Não dá condição de o artista itabirano realizar o seu projeto. A gente precisa ampliar esse patamar. Precisamos também criar um plano de conscientização do empresariado, de apoio, de patrocínio a esses projetos. Precisamos implementar o Fundo Municipal de Cultura. Existe um decreto que cria o fundo. Para quem não sabe, a Lei Drummond é um projeto de renúncia fiscal. O empresário, ao invés de fazer um repasse à municipalidade, ele tem uma cota que investe em cultura. Já o fundo permite o repasse direto ao proponente cultural. O artista não precisa captar o recurso. Ele tem seu projeto aprovado e consegue a verba. O recurso do fundo é de tributação, de impostos, mas também pode ser de doações da iniciativa privada.
Quais suas expectativas à frente da FCCDA?
A melhor possível. Estamos muito animados com o tralho. Estamos também bastante preocupados. Sabemos que é um projeto que requer tempo e investimento. Temos sentido uma boa acolhida do Gabinete do Prefeito que quer, de fato, colocar a cultura como prioridade. Temos sentido também a adesão cada vez maior da população e sabemos que ela quer que a cidade tenha a cultura como prioridade. Acho que vamos fazer um bom trabalho.
Entrevista publicada na edição 245 da Revista DeFato